Yersinia pestis (foto: NIAD Biodefense Research)
Nos bancos de igrejas protestantes, já assisti a dezenas de horas de seminários, sermões e aulas sobre os primeiros capítulos do Gênesis, que narram a Criação. Em tudo o que ouvi, nada me causou uma impressão tão forte quanto as palavras de um professor que conduzia uma série de estudos sobre o tema. Ao ser perguntado sobre como ele situava o evolucionismo no relato bíblico, ele disse: “A teoria da evolução é uma teoria científica. A minha abordagem aqui é teológica, não é científica, e, por isso, prefiro me abster de falar sobre darwinismo e sobre os conhecimentos que a ciência produziu sobre a origem da vida e do universo. Não estou cientificamente preparado para esse debate e, por isso, abstenho-me de dar minha opinião sobre a evolução. Minha análise, repito, é teológica e não científica. Voltemos à teologia.”
Sim, um dos maiores exemplos de honestidade intelectual que presenciei não veio da academia, mas da escola bíblica dominical. A referência ganha amplitude ainda maior não somente porque o professor se recusou a falar daquilo que não dominava, mas também porque ele não enganou a audiência, dando-lhe a impressão de que emitia um parecer sobre evolucionismo com a mesma autoridade com que leciona teologia.
Desde as palavras daquele estudioso dedicado, de inteligência brilhante, eu nem sequer pisco quando alguém diz que “não aceita o evolucionismo porque acredita na Bíblia e que não há argumentos bíblicos a favor do evolucionismo”. Porém, se alguém diz que o Design Inteligente (DI) é uma teoria científica mais consistente do que o evolucionismo, aí sim eu tenho o direito de questionar o interlocutor.
Nem todos têm a sabedoria e a prudência daquele professor. Na verdade, trata-se de uma correção intelectual raríssima no meio evangélico. O Prof. Solano Portela * demonstrou que não é uma dessas raras vozes dotadas de ponderação intelectual quando o assunto é darwinismo. Em texto recente, no qual comenta a entrevista de Daniel Dennet à Folha de SP, o Prof. Portela – presbiteriano de inequívoca seriedade e autor calvinista de valor – cometeu uma série de equívocos ao abordar o tema “evolucionismo”.
Aqui cabe um parêntesis. Em discussões sobre a evolução versus DI, adeptos do último dizem que uma das táticas dos darwinistas é “chamar o debate para a ciência e eles se mostrarão ignorantes”. Não obstante o fato de que o debate sobre o darwinismo já está de antemão epistemologicamente situado na ciência, sem que ninguém precise aí colocá-lo, note-se que foi o próprio Prof. Portela quem, de livre e espontânea iniciativa, fez críticas “científicas” ao evolucionismo – ele, portanto, decidiu se imiscuir no debate científico.
Avant-propos
A primeira objeção não é propriamente de conteúdo científico, mas de estilo. O Prof. Portela, de escrita normalmente austera, produziu um texto deselegante, com um tom de irritação temperamental e depreciativa contra os alvos de suas críticas: “os ateus, coitadinhos”. Ficou parecendo um texto do Dawkins.
E talvez nada no seu texto atente tanto contra a sua própria habitual galhardia quanto o que ele escreveu ao se referir à analogia feita por Dennet, entre as discriminações sofridas por ateus e aquela sofrida por homossexuais:
“Não vou entrar no mérito da companhia que o Dennett escolheu para se identificar, cada um sabe a quem se comparar, mas (…) “
Aqui ele sugere claramente um desprezo moral por homossexuais, como se fosse indigno equivaler-se ao grupo, mesmo em uma comparação: revela-se a obtusa execração moral dos gays, que não cede mesmo com o crescente corpo de evidências que demonstram a importância de fatores biológicos na orientação sexual (aqui, ali e acolá).
Mas passemos à evolução.
Qual a contestação científica?
O Prof. Portela diz que a teoria de Darwin “vai ficando a cada dia mais difícil de ser sustentada, cientificamente.” Entretanto, ele não apresenta nenhuma evidência que dê crédito à sua afirmação e ao seu discurso de crítica científica ao evolucionismo.
Pelo contrário:

É constrangedor que um debatedor que pretenda convencer o leitor de que a evolução tenha poucas bases científicas diga, no seu arrazoado, que a Yersinia pestis seja um vírus.
Yersinia pestis é uma bactéria.
E o exemplo que ele cita, o do flagelo bacteriano, não é um ponto frágil na teoria darwiniana. Pelo contrário, a origem do flagelo é muito bem explicada pela evolução (recentes artigos científicos aqui e aqui e aqui). As supostas “complexidades irredutíveis” do flagelo bacteriano e do TTSS são inclusive desmontadas cientificamente por um cristão devoto: o cientista Kenneth Miller, no seu livro Finding Darwin’s God.
Pastores não podem ser cobrados em taxonomia de microorganismos, nem sobre a origem do flagelo. Contudo, se o Prof. Portela se põe voluntariamente a falar sobre esses assuntos, com o objetivo de criticar cientificamente o evolucionismo, ele tem que se preparar para tanto. E aqui ele mostra que não está preparado para a crítica científica do evolucionismo, da mesma forma que eu não estou qualificado para escrever sobre teologia calvinista: ninguém o está desqualificando, é ele mesmo quem está se desqualificando para essa discussão.
Segue o texto:
“Argumentando pelo Design Inteligente, à semelhança de Michael Behe e outros, ele [Dr. Scott A. Minnich] aventa a possibilidade de que se Darwin possuísse esse conhecimento, talvez não tivesse apresentado sua teoria, que vai ficando a cada dia mais difícil de ser sustentada, cientificamente.”
Sugerir que “Darwin não teria proposto sua teoria se tivesse os recursos atuais” tem tanto sentido quanto dizer que, se Pedro Álvares Cabral tivesse um Boeing 747, ele teria desembarcado no Brasil não em precárias caravelas, mas no conforto de um avião. A História diz respeito ao que os homens fizeram com os instrumentos que tinham à sua época, no limite dos seus intelectos e do conhecimento de seu tempo, não ao que eles teriam feito se tivessem outros meios. Não cabem “ses”.
E o “se” aqui não cabe mesmo, de jeito nenhum, porque o conhecimento atual, longe de invalidar o darwinismo, consolida-o com evidências crescentemente robustas. Uma boa amostra disso está no dossiê especial da Nature, umas das revistas científicas mais rigorosas do mundo, com evidências da teoria darwiniana vindas de áreas tão distintas quanto a genética, a paleontologia e a bioquímica (pdf aqui).
Rigor metodológico e a suposta perseguição
O texto do Prof. Portela insiste em um ponto: o de que existe uma interdição a que se promovam pesquisas que não se adequem ao evolucionismo, como se houvesse uma inquisição contra pesquisas que não “se encaixam no molde politicamente correto da academia”.
É verdade que as agências estatais de fomento se recusam a financiar pesquisas em DI. O motivo, contudo, não é perseguição pura e simples. A recusa de financiamento é simplesmente porque o DI não preenche os critérios epistemológicos para que seja aceito como uma teoria científica. Qualquer projeto de pesquisa que inclua uma causa final na formulação de sua hipótese de trabalho, e que não lide com hipóteses falseáveis, é sistematicamente rejeitado. O cientista criacionista citado pelo Prof. Portela (Dr. Minnich) seria incapaz de mencionar um único artigo científico seu que tenha sido publicado em uma revista correta e que apresente hipóteses de trabalho não-falseáveis.
Não se trata de “politicamente correto”: é rigor metodológico. É por isso que não somente os projetos em DI são refutados, como também todo eventual projeto de pesquisa em cientologia, por exemplo. Se esse princípio for deixado de lado, criacionistas teriam que, por coerência metodológica, considerar também como “científico” um projeto de pesquisa que vise a estudar, por exemplo, a influência de espíritos malignos nas crises epilépticas.
Se os defensores do DI querem mesmo sustentar a tese da “perseguição” – como pretende Expelled, filme panfletário especialmente produzido com este propósito – eles têm que apontar um único projeto de pesquisa que tenha sido financiado e abraçado pelos cientistas e que tenha no cerne do seu embasamento teórico uma causa final, ou que trabalhe com uma hipótese não-falseável. Só configuraria “perseguição” se eles demonstrassem que houve um único projeto com essas premissas que tenha sido apoiado pela comunidade científica e pelas agências de fomento. Aí sim haveria discriminação ou perseguição. Aí sim eles poderiam dizer: “se eles foram apoiados, por que não nós?”
Pinceladas de epistemologia e uma mancada de Dawkins
A questão se situa, portanto, na definição epistemológica do que seja ciência. Criacionistas insistem que a definição epistemológica de ciência seja dogmática e hermética. Em certo sentido, definições servem para isso mesmo: para circunscrever um conceito e torná-lo operacional. Há, por exemplo, uma definição epistemológica, cara a pastores reformados como o Prof. Portela, do que seja “teologia calvinista”. Um dos princípios da teologia calvinista é o “Sola Scriptura”, no qual se incluiu também o princípio de que as Escrituras devem ser interpretadas à luz das próprias Escrituras. Uma afirmação teológica que se queira “calvinista” tem que respeitar esse princípio. Qualquer assertiva teológica que não derive desse princípio e que não seja resultado da aplicação desse pressuposto não pode ser epistemologicamente chamada de calvinista. Por isso, um calvinista reage prontamente diante de alguém que se reclame calvinista, mas que defenda a reencarnação sob o argumento de que a mesma pode ser biblicamente defendida, a partir da aplicação dos pressupostos epistêmicos calvinistas. Acontece que não é possível sustentar a reencarnação a partir de uma epistemologia calvinista, porque uma leitura que nega o princípio da Sola Scriptura não é calvinista, porque se trata de um princípio que faz parte da definição de calvinismo. Dizer-se calvinista, mas negar o princípio “Sola Scriptura” é um non sequitur. Que se defenda a reencarnação, mas chamar isso de teologia calvinista, não pode. Da mesma forma, considerar o DI como “ciência” é uma violação epistêmica dos princípios que definem o que seja ciência. É um non sequitur.
Não é científica nenhuma teoria que introduza no seu cerne um pressuposto como a interferência de uma agente sobrenatural. E, se criacionistas consideram esse pressuposto por demais “naturalista”, e que é limitado por não incluir a metafísica (sobrenatural), por que não se considerar outras metafísicas além da protestante?
Se se diz que a epistemologia de Khun-Popper nega a metafísica (sobrenatural), e que isso é um pressuposto que pode estar errado – no que concordo, do ponto de vista puramente lógico – pode-se dizer também que partir apenas de um pressuposto de uma metafísica bíblica também é um pressuposto que pode estar errado, porque existem outras metafísicas que deveriam ser consideradas.
Para sermos rigorosos, então, teríamos que considerar todas as cosmovisões. Pergunto: estariam os criacionistas dispostos a considerar cientificamente a interferência de outros agentes sobrenaturais além de Deus? Aceitariam que se financiem pesquisas para “provar” não somente que o Gênesis está certo, mas também para “provar” que outros textos sagrados também são exatos?
Não, a ciência não lida com o pressuposto de um agente sobrenatural, como ensina Stephen Jay Gould:
“Para dizer isso a todos os meus colegas pela zilhonésima vez: a ciência não pode, por seus métodos legítimos, julgar o tema sobre a possível superintendência de Deus na natureza. Não podemos afirmar nem negar isso; apenas não podemos comentar como cientistas. (…) A ciência só pode trabalhar com explicações naturalistas.”
Tão lamentável quanto perceber que o rigor epistemológico de Gould (amparado por Khun e Popper) não é assimilado por criacionistas, é ver que um expoente da ciência como Dawkins também viola os pressupostos epistêmicos do método que tanto defende, a ciência. Em seu “Deus, um delírio”, ele escreve:
“Ao contrário de Huxley, sugerirei que a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra. Mesmo sendo difícil de por à prova na prática, ela pertence à mesma categoria de ATP [agnosticismo temporário na prática], ou agnosticismo temporário, quanto as controvérsias sobre as extinções do Permiano e do Cretáceo. A existência ou inexistência de Deus é um fato científico sobre o universo, passível de ser descoberto por princípio, se não na prática.”
E assim Dawkins segue, chegando mesmo a dar como título de um capítulo: “Por que quase com certeza Deus não existe”. Afirmar que “a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra” revela um profundo e absolutamente ridículo desconhecimento filosófico de sua parte, a ponto de violar as fronteiras epistemológicas da ciência, o que é inadmissível em um cientista de seu nível. Se ele tivesse ao menos consultado o que a Wikipédia traz sobre Kant, ele veria o tamanho da bobagem em que se meteu (mas isso é outra estória, estou há tempos devendo uma resenha de “Deus, um delírio”, qualquer dia ela sai).
O fato é que é inaceitável que Dawkins ou criacionistas distorçam as fronteiras epistêmicas da ciência. Se criacionistas pretendem substituir a teoria da evolução por outro construto teórico científico, então há que se respeitar as definições epistêmicas do que seja uma teoria científica – e a causa final não faz parte dessas definições. A evolução certamente não explica todos os fenômenos biológicos relacionados à origem e ao desenvolvimento da vida na Terra. Mas o evolucionismo só será descartado quando houver outra teoria científica, falseável e testável, com significativo corpo de evidências a lhe dar sustentação empírica – e isso o DI simplesmente não fornece. E enquanto isso não ocorrer, de nada adianta o Prof. Portela reclamar que…
“Qualquer aluno de escola de primeiro grau sabe que a visão majoritária, no mundo da ciência é a evolucionista.”
… porque a educação nas escolas continuará a ser darwiniana, da mesma forma que ela é pasteuriana, copernicana, etc…
A ciência de maneira alguma fecha as portas para que ocorra uma revolução paradigmática (Khun) que derrube a teoria da evolução. Muitas teorias já foram substituídas na história da ciência. Mas a regra da ciência é clara: a derrubada só pode ser feita com ciência. Não há problema algum que haja “mais de 600 cientistas em todo o mundo que contestando a evolução”. Evolução não é dogma, pode ser contestada. Contudo, se eles quiserem mesmo derrubá-la, eles sabem como devem proceder: fazer experimentos, coligir evidências, elaborar uma teoria que atenda aos pré-requisitos da ciência, preparar artigos e defendê-los em congressos científicos.
Ateísmo e evolucionismo
Outra postura condenável no texto do Prof. Portela é o fato de vincular o ateísmo à aceitação do evolucionismo, como se um fosse decorrente do outro. Não é. O evolucionismo é aceito por pessoas de todas as crenças, inclusive por evangélicos como ele. Importantes cientistas como Asa Gray, Charles Walcott e Theodosius Dobzhansky eram cristãos sinceros e defendiam ferrenhamente o evolucionismo. Com a palavra, Francis Collins, brilhante geneticista e cristão piedoso, no seu “A linguagem de Deus”:
“(…) o processo de evolução e de seleção natural permitiu o desenvolvimento da diversidade biológica e da complexidade durante espaços de tempo muito vastos; (…) os humanos fazem parte do processo, partilhando um ancestral comum com os grandes símios”.
Poucas coisas dizem tanto sobre o caráter não-científico do criacionismo bíblico quanto o fato de que, para ser criacionista, é preciso, antes, ser cristão. O entendimento do criacionismo depende da assimilação pessoal de um estrito pressuposto religioso, definido pela Bíblia. A compreensão da evolução independe da fé e, por isso, há evolucionistas protestantes, católicos, muçulmanos, judeus…: pessoas que entendem perfeitamente a sabedoria das palavras daquele professor presbiteriano que tanto admiro:
– Voltemos à teologia.

- Leia a ótima crítica do Gato Pré-Cambriano ao texto do Prof. Portela. Como bom felino, ele foi mais ágil do que eu e reagiu antes de mim.
- Outro texto neste blog sobre o criacionismo está aqui.
- Evidentemente, a caixa de comentários está aberta ao Prof. Portela.
- The same for you, Dawkins. (Meu inglês pé-quebrado vai dar um nó na sua cabeça)
* O texto originalmente publicado continha um equívoco. O Prof. Portela não é um pastor reformado, apesar de ser um profundo conhecedor de teologia calvinista. Ele é, na verdade, um presbítero (oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil). Agradeço ao Maurício por ter me indicado o erro. Ao longo do texto, substituiu-se “Rev. Portela” por “Prof. Portela.”