Hoje, tudo parece ter sido uma profecia que se cumpriu.
Tanto tempo depois, após anos de derrotas e frustrações, é difícil um torcedor apaixonado olhar para o passado do Mengo e não ver simbolismos premonitórios em alguns lances cruciais de sua história.
É inevitável, por exemplo, rever a jogada que definiu o título nacional de 1987 e não ver ali o prenúncio da sabedoria que traria a redenção futura. O passe preciso e iluminado de Andrade, rompendo a defesa colorada na única brecha possível, levando a bola até os pés de Bebeto que, com uma estocada certeira e fatal, desvia a bola de Taffarel. O lance é quase profético: o experiente Andrade dialoga com um menino, arma a jogada que redunda na glória.
Aquele passe genial não terminou apenas nos pés de Bebeto.
Porque aquela bola lançada por Andrade foi como uma sonda espacial, como a Viking, que vaga indefinidamente pelas galáxias, desgarrada do tempo.
Essa sonda espacial futebolística lançada dos pés de Andrade registrou tudo: as derrotas fatídicas do Mengo pós-92, as chacotas, a perda da identidade rubro-negra. Viu também momentos mágicos, como o antológico gol de Petkovic contra o Vasco, ou o elástico do Romário sobre o Amaral.
Mas o que mais essa bola viu foi decepção na Gávea.
A bola-sonda lançada por Andrade em 87 vagou durante anos a fio no breu flamenguista, até voltar ao Mengo de 2009, dando-lhe uma luz, tal qual a de uma estrela: uma luz que vem do passado, para iluminar e para encantar.
E, a partir do brilho vindo outra vez de Andrade, refez-se a história do Mengo, revivida em outra dimensão. Uma história nova, mas iluminada pela mesma sabedoria que lançou a bola para Bebeto.
Em 2009, a história do Mengo se dobrou sobre si mesma, revisitou aquela tarde de 87.
Assim como a chave para vencer aquele jogo dificílimo foi o diálogo de Andrade com o jovem camisa 9, o redentor título brasileiro de 2009 veio do diálogo desse mesmo homem com uma nova geração de jogadores.
E, se aquele gol decisivo não é um golaço – é bonito pela participação de todo o time na construção da jogada – o time de 2009 também não foi espetacular, mas jogou um futebol coletivo, direto e bonito, como deve ser o futebol bem jogado: sabedoria que revive.
Entre o técnico Carlinhos daquele título de 87 e o Andrade de 2009, dois homens simples e com forte identificação com o clube, desenhou-se uma parábola que passou por Luxemburgo, Autuori, Gusmão, por tecnocratas que nunca deveriam ter comandado a Gávea. O título que pôs fim ao jejum só poderia ter vindo pelas orientações decisivas de Andrade, assim como o título de 1987 veio da sua precisão cirúrgica.
A história do Mengo também se repete no gol de Andrade contra o Botafogo em 1981, que ganha igualmente uma dimensão monumental, profética, tal qual seu passe decisivo para Bebeto.
O homem que fez o gol que sacramentaria a “Vingança” foi também o homem que protagonizou em 2009 uma vingança longamente almejada.
A vingança de dar ao Mengo um título nacional depois de tantos anos sendo chacoteado e surrado por rivais de todo o Brasil.
A vingança dos negros brasileiros, que tantas glórias deram ao futebol deste país, mas que sentiram na alma que este mesmo futebol brasileiro foi palco de boçais demonstrações de racismo nos últimos anos (excrescênciasaqui e aqui). Sim, Andrade os vingou, tornando-se o primeiro negro a se consagrar campeão brasileiro como técnico.
E, sobretudo, Andrade vingou-se pessoalmente. O homem que tem dicção e português ruins, que sempre era visto como um “quebra-galho” na Gávea, sempre preterido diante de técnicos estrelinhas e burocráticos, tornou-se campeão brasileiro de futebol – ganhando um modesto salário de funcionário comum do clube.
A vingança de 2009 se reencontra com a vingança de 1981.
Andrade revisitou e fez reviver o amor que o Mengo tem por si mesmo e pelos seus próprios ídolos: no dedicar de sua primeira vitória como técnico ao recém-falecido goleiro Zé Carlos, campeão em 87, as lágrimas de Andrade encontram-se com as de Mozer ao falar de Zico.
Andrade e seus jogadores fizeram reviver o Flamengo que chora, que catimba, que luta, que xinga, que joga bola.
Uma vez Flamengo, sempre Flamengo – e esses dezessete anos mostraram que seríamos Flamengo para sempre, ainda que tivéssemos que aturar mais dezessete séculos de gozações dos rivais, ainda que continuássemos a ter um time indigno de si mesmo e de sua história.
Hoje, tanto tempo depois, Andrade e o Mengo de 2009 nos deram o que mais precisávamos, algo que transcende o próprio título nacional: apaziguar o maior amor que um dia já existiu por um time, pelo clube de futebol mais sensacional de todos os tempos, o meu Mengão.
PS1: Ponho aqui fim a esta série sobre o Flamengo, antes que meu chefe me demita por monotematismo recalcitrante grave. A partir do próximo post, voltarei a falar de assuntos irrelevantes.
PS2: Eu já morava fora do Brasil, quando, sintonizado na CBN, aguardava o programa CBN Esporte Clube. Qual não foi minha surpresa ao ouvir o hino do Mengo na voz de Tim Maia (versão acima), com o qual Juca Kfouri abriu seu programa naquela noite – era 15 de novembro, aniversário do Flamengo. Era meu primeiro outono na Europa. Longe do Brasil, da família e dos amigos, nesse frio horroroso e ainda sem a Lelequinha, não teve jeito: chorei mesmo.
PS3: E uma deliciosa versão em inglês do hino de futebol mais lindo do mundo:
PS4: Algumas fotos para terminar:
Nunes, o danado. Depois de um drible desmoralizante em Silvetre, Nunes fez, de bico, o gol que daria o primeiro título nacional ao Mengo. Silvestre seria satanizado pela torcida do Galo, até que, em 2005, a diretoria do Atlético-MG rendeu uma bonita homenagem a esse homem que tanta ama o grande alvinegro mineiro. O choro de Silvestre pela homenagem do Galo – captado pelas câmeras do Globo Esporte – é algo absolutamente comovente.
A explosão de alegria de Júnior, o vovô-garoto, no Penta de 92: a imagem perfeita da alegria de ser rubro-negro.
Não tem para Pelé, Maradona, Cruyff ou Zidane. O maior jogador de futebol de todos os tempos é Zico. Pergunte para qualquer flamenguista.
Petkovic acaba de fazer um gol antológico em uma partida épica: Mengo tri-estadual sobre o Vice da Gama.
E aí chegou a primeira semana de dezembro de 2009.
O Flamengo assumira a ponta do campeonato após vencer o Corinthians e, agora, dependia apenas de si para ser campeão: tinha que bater o Grêmio, no Maracanã.
Sim, aquilo que ninguém imaginava estava prestes a acontecer: o Mengo ser campeão brasileiro, depois de 17 anos.
E chegou ao topo da tabela com uma equipe longe de ser excepcional, embora tenha sido consistente (especialmente no 2º turno), com alguns momentos de fulgor. Esse Mengo de 2009 era um bom time: um goleiro que inspira confiança, dois laterais que apóiam mais do que defendem, um atacante matador, um meia criativo – e, no banco, um técnico averso a invencionices táticas. Era, enfim, um time sobre o qual não se pode dizer que era brilhante, embora tenha feito partidas brilhantes, como contra o Galo e contra o Palmeiras, jogos em que brilhou intensamente o estupendo talento de Petcovic.
E, na iminência do título rubro-negro, na semana que antecedeu ao confronto contra o Grêmio, ressentidos Brasil afora falaram pelos cotovelos.
Houve quem falasse que o iminente título do Mengo já estava marcado pela ajuda da cartolagem: o afastamento de atletas são-paulinos nas últimas rodadas teria sido uma medida para beneficiar o time do Rio – como se apenas o Flamengo estivesse interessado em que o São Paulo chegasse debilitado nos derradeiros jogos. A idiotia esquece o óbvio: em um campeonato de pontos corridos, quando um time fica enfraquecido, vários outros são beneficiados. Palmeiras e Internacional tinham tanto interesse quanto o Mengo em que o tricolor estivesse mais fraco na reta final – e, como a história acabou por confirmar, até o ameaçado Botafogo se beneficiou da suspensão de tricolores. O propalado “STJFla”, dessa vez, foi também STJFogão, STJInter, STJPalmeiras…
Teve também a estória do Corinthians ter “entregado” o jogo para o Flamengo. É verdade que o Timão foi apático contra o Mengo. Mas o Corinthians foi apático o campeonato inteiro. É aquela coisa que eu nunca entendo: ninguém acredita que o Corinthians entregou o jogo ao perder para o fortíssimo Náutico, uma semana antes do jogo do Mengo; mas, se o Timão perdeu pro Mengo, é necessariamente porque os corinthianos “entregaram”… O não mover-se do goleiro Felipe no pênalti cobrado por de Léo Moura simbolizou o desinteresse do Corinthians no campeonato inteiro.
E, naquela primeira semana de dezembro, todo mundo já começava a ensaiar o argumento de que o Grêmio iria entregar o jogo, etc e tal. Se o Grêmio perdesse para o Mengo, a única explicação possível seria uma mala preta. Ora, se o Grêmio tivesse ganhado uma mala preta para cada jogo fora de casa que perdeu nesse campeonato, daria para os gremistas comprarem Messi, Kaká e Steven Gerrard. O Grêmio só venceu uma partida fora de casa no campeonato – mas, se perdesse contra o Mengo, é claro, seria por ter sido comprado…
Bom, seja como for, chegou o domingo 6 de dezembro.
Depois de passar a semana lendo todos os blogs de futebol e tudo que tratava da partida decisiva, era a hora do jogo. Eu estava me borrando de medo, pois, se há um time contra o qual o Mengo estremece, é contra o Grêmio. É certo, houve a vitória em 1982, mas o Flamengo tem um histórico bem negativo contra tricolores gaúchos (1989, 1995, 1997). Se o Mengo jogasse a partida final contra o Barcelona, eu estaria mais tranqüilo.
Já era noite em Paris e fazia um frio da muléstia, quando eu me assentei na cama com o computador, acessei uma rádio do Rio e me conectei a um site pirata que transmitiria a partida (‘tá bom, é errado, eu sei, mas eram dezessete anos, caramba…). E, sobretudo, agarrei-me ao meu amuleto, um urubu de borracha com a camisa do Mengo, carinhosamente chamado de Urubunildo.
E, mal o jogo começou, deu para ver sentir que o Grêmio não tinha ido ao Rio para entregar coisa nenhuma. O Mengo estava mais nervoso do que uma garota na sua primeira noite com um homem. Um horror.
Eu ouvia mais do que via o jogo, pois a transmissão da rádio CBN era muito mais confiável do que as imagens fantasmagóricas que vinham do site pirata.
E foi pela voz do locutor do CBN que chegou até Paris a catástrofe: o Grêmio fizera um gol.
(E tem gente que ainda fala que o Grêmio entregou. “Entregar jogo” é o que fez o Peru contra a Argentina, perde de seis a zero e pronto – time que “entrega” não vai logo fazendo um zero, nem tem um goleiro que faz o que Marcelo Grohe fez naquela tarde.)
Durante alguns minutos, tudo o que eu conseguia balbuciar era a mesma interjeição primal com que os homens das cavernas de Minas Gerais imprecavam os céus depois que um tigre-dente-de-sabre lhes tomava o gliptodonte recém-caçado:
Puta-que-pariu-a-minha-sogra-virgem.
Tudo o que se passava pela minha cabeça era a imagem dos meus amigos de Belo Horizonte se mijando nas calças de tanto rirem ao imaginarem minha cara de frustração.
E foi aí que me veio a luz.
Subitamente, entendi o porquê do Flamengo estar perdendo.
A culpa era toda minha.
Eu estava vendo o jogo no lugar errado. Não podia ser no quarto. Tinha que ser na mesa da cozinha, no mesmo lugar onde eu acompanhara pela internet a arrancada de 2007, o tri estadual 2007-2009 e, sobretudo, o rebaixamento do Vasco. O mesmo lugar onde eu vira o jogo contra o Corinthians, na semana anterior.
Então, como um profeta que se ergue, consciente de seu chamado, peguei o Urubunildo, o computador, saí do quarto e, pálido, com os olhos estatelados, irrompi na cozinha, onde minha esposa estava estudando:
– Me deixe ver o jogo aqui, o Mengo precisa de mim neste lugar.
Assustada com minha cara de tarado psicótico, ela saiu imediatamente, sem pestanejar, e foi estudar no quarto.
E aí a sorte do Mengo começou a mudar.
E, assim como foi necessário um ungido para mudar a história do povo de Israel nos dias do rei Saul, a nação rubro-negra aguardava o ungido que iria mudar a história daquele jogo. Se, nos tempos bíblicos, o escolhido para reerguer Israel não fora o mais forte do hebreus, mas um pastor de ovelhas, o homem que daria uma nova esperança à nação rubro-negra não seria um de seus mais badalados guerreiros, como Adriano ou Petcovic. Seria um homem despercebido ali no meio do time, tal como o pastorzinho estava esquecido entre os filhos de Jessé. Era um homem que tinha o mesmo nome daquele pastorzinho que um dia foi chamado “o homem segundo o coração de Deus” : David.
E David fez segundo o coração da Nação Rubro-Negra. Ante Marcelo, o gigante Golias do Grêmio, David fuzilou o pé tal qual o hebreu disparara sua funda: lançou a pedrada matadora ali, bem no canto do gol gremista.
Na janela para a Paris gelada, meu urro ensandecido foi de raiva, mas também de agonia.
Porque ainda faltava um gol.
Que agonia.
A agonia é maior quando se morre mais perto do objetivo: deixar de ser campeão por faltar só um golzinho era muito muito mais angustiante do que deixar de sê-lo por faltar dois.
E, antes que o cosmos entrasse em colapso, os deuses do futebol intervieram uma vez mais, lá das alturas celestiais em que governam o destino de terráqueos apaixonados por futebol.
Os céus chamaram um de seus santos. Ascenderam-no à glória. Abduzido pelo magnetismo que vem do céu, um anjo se levantou da terra – Angelim, o angélico, ascedeu aos céus, rumo à glória eterna. E, com a pontinha de sua auréola, desviou a bola que veio do escanteio cobrado por Petcovic.
Gol do Flamengo.
Eu, gritando, chorando, caio no chão da cozinha e me ponho a esbofetear o assoalho, como um Nabucodonosor que rasteja bestialmente após ter perdido a razão.
Minha esposa pede para que eu pare: é tarde da noite em Paris, a velhinha do andar de baixo não gosta de barulho e pode chamar a polícia do Sarkô.
Mas o juiz apita o final, o Mengo é hexacampeão. Sigo na minha catarse, vou até a janela, fico pulando na sacada, camisa do Mengo em uma mão e Urubunildo na outra. Os parisienses que passam pela calçada olham para cima e não entendem nada.
Só quem é Flamengo pode entender.
Angelim descende dos céus após desviar a bola com sua auréola.
PS1: Esse foi um relato de um torcedor a mais de 10000 quilômetros do Maracanã.
Para ler o testemunho de um felizardo que esteve presente no Maior do Mundo naquela tarde, leia o delicioso texto do sempre brilhante NPTO.
PS2: Ah, sim: a imprensa francesa considera o Flamengo hexacampeão (aqui e aqui). Nhé.
Zico (Globo-CBF-Ed.Abril-Mossad-CIA) contra Reinaldo (mineirinho coitadinho)
Se há uma data que guarda em si toda a decadência, todo o colapso rubro-negro desses 17 anos, foi o 30 de junho de 2004.
Naquela noite, mais de 80000 testemunhas viram o Mengo perder a final da Copa do Brasil para o Santo André. Milhões de telespectadores acompanharam o suplício pela TV.
Ali, de maneira cabal e peremptória, ficou exposta a todos os flamenguistas e a todo o Brasil a decadência de um time que um dia fora o maior do mundo.
De uma vez por todas, tivemos que aceitar que o grande Mengo se acabara para sempre. Toda a mística que acalentávamos – a torcida que leva o time a se superar, a idéia de “time de chegada”, etc – tudo se esvaneceu.
Tínhamos que entender que torcíamos para um time medíocre, pífio.
Mas a frustração daquela noite trouxe também uma lição – ainda pouco assimilada – a todo o futebol brasileiro.
Caía ali a lenda que diz que o Flamengo só encheu sua galeria de títulos porque contou com safadezas de juízes, com a proteção da CBF, com a máquina da Globo e de toda a imprensa.
Há anos, ressentidos Brasil afora dizem que o Flamengo só ganha porque arruma “esquemas” – “só ganha roubado” (mestre Idelber chega mesmo a dizer que o último título honesto do Flamengo foi o Carioca de 1955).
Pois o pequeno e pobre Santo André, de torcida minúscula, sem nenhum apoio político, e sem nenhum carisma nos meios de comunicação, ganhou um título nacional do todo-poderoso Flamengo em pleno Maracanã, aos olhos da Globo e todo o Brasil.
Se o Flamengo tem mesmo a imbatível proteção do conglomerado Globo-CBF-KGB-Mossad-CIA-Foro de São Paulo-FBI-Ed.Abril-Hanna-Barbera, cum’é que o diminuto Santo André fez o que fez com o Mengo naquela noite ?
Se o Santo André – sem influência, sem grana, sem nada – conseguiu romper o tal esquemão “Mengo-Globo-CBF”, por que é que clubes infinitamente maiores que ele(como o Galo ou o Fluminense) sucumbem “sempre e invariavelmente” por causa das “marmeladas” rubro-negras?
Na verdade, assim como as teorias conspiratórias não explicam a galeria de troféus do Mengo, elas também não explicam seus fracassos.
Por que as supostas armações rubro-negras impediram o Flamengo de ser derrotado pelo Galo em 1980, mas não o impediram de perder para o Cruzeiro de 2003 ?
O Grêmio nos bateu na final de Copa do Brasil em 1997; o Cruzeiro fez o mesmo em 2003.
Ganharam do Mengo porque eram melhores, assim como o Santo André foi melhor do que o Flamengo em 2004.
Simples assim.
O Flamengo conquistou seus títulos nacionais nos anos 80 porque tinha times que jogavam muita, mas muita, bola.
Se o Galo tivesse jogado mais bola que o Mengo no Maracanã, ele nos teria batido em 1980, como o Santo André o fez em 2004.
E aqui me dirijo à fantástica torcida do Atlético Mineiro, que tem minha mais sincera solidariedade pelo ocorrido no Serra Dourada em 1981. Se já houve uma patifaria futebolística maior do que aquela, me mostrem que eu quero ver. Porque as maiores cafagestagens de que dou notícia – a Argentina de 78, a Coréia de 2002, o Corinthians de 2005, a mão do Henry – nenhuma delas se iguala ao que aconteceu em Goiânia naquela noite. Nada na minha vida de flamenguista me envergonha tanto quanto aquela palhaçada armada contra o Galo – nem o Cabañas, nem o Santo André. Por várias vezes, já saí de casa com o manto sagrado depois de sapatadas homéricas. Mas eu seria incapaz de ir com à rua com a camisa do Mengo depois do que José Roberto Wright fez pelo Flamengo naquela noite.
A final de 80, contudo, foi uma coisa diferente – pode haver 15 guerras atômicas, mas essa é uma discussão que continuará acontecendo nos botecos de Beagá daqui a 856 anos. Os atleticanos falam muito do segundo jogo, no Maracanã, com aquele discurso que resume tudo na equação “time-do-Rio-protegidinho-da-CBF-e-da-Globo” contra o “mineirinho-coitadinho”. “Esquecem” que, no primeiro jogo das finais, em Beagá, o Mengo sofreu uma carnificina sob o olhar leniente do senhor Romoaldo Arpi Filho. “Esquecem” da cotovelada assassina que Palhinha* deu na cara do Rondinelli: o deus da raça desmaiou, com a mandíbula fraturada. Nem todo o sangue que jorrou de sua boca convenceu o juiz a marcar a falta. Atônito, o time do Flamengo tomou o gol logo em seguida, com Reinaldo. Palhinha não recebeu sequer o cartão amarelo e jogou normalmente a segunda partida. Rondinelli viu o jogo na TV do hospital, recuperando-se de cirurgia, com o rosto inchado, cheio de arames e parafusos.
O Flamengo ganhou do Galo em 1980 e em 1987 porque foi melhor.
Assim como foi superior o Galo que eliminou o Mengo no Brasileirão de 1986 – uma vitória que os atleticanos nunca se “lembram” quando discorrem sobre o tema “não deixam o Galo ganhar do Flamengo”. Deixam de lado os jogos decisivos que o Galo perdeu contra times pouco influentes, que não contam com o tal esquemão Globo-CBF: Coritiba (85 – semifinais do Brasileiro), Criciúma (92 – oitavas-de-final da Copa do Brasil) e a Portuguesa (96 – semifinais do Brasileiro). Funciona assim: não houve armação alguma quando o Galo perdeu para o “timaço” do Criciúma de Roberto Cavalo (92); mas, para o Galo perder para aquele “timinho” que era o Flamengo de Zico, só pode ter havido maquinação.
O mais engraçado é o tom de superioridade moral dos atleticanos quando eles falam que o “Flamengo só ganha roubado”. Ora, se fosse para juntar todas as patifarias que Atlético e Cruzeiro já fizeram contra times do interior em campeonatos mineiros, não haveria megagigabytes suficientes na internet para caber tanta “marmelada”.
Mas eu compreendo os atleticanos. Eles têm uma incapacidade ontológica de dizerem sinceramente as seguintes palavras : “meu time perdeu porque jogou mal e o seu jogou melhor”. Por isso, é a torcida mais delirante que há no universo, a que mais inventa desculpas e teorias conspiratórias, como aquelas que dizem que “paulistas e cariocas não deixam os mineiros ganharem” – a galeria de troféus do Cruzeiro está aí para provar quão bobajosas são essas teorias (inclusive, a Raposa parou o supertime palmeirense de 1996, em uma épica final na Copa do Brasil).
Nesses dezessete anos, o futebol brasileiro mudou muito – algumas coisas para melhor. Clubes como Vasco, Galo e Corinthians foram rebaixados, algo que jamais aconteceria nos anos 80.
Mas certas coisas persistem.
Ainda prevalece o estigma de que os times do Rio (e o Flamengo, em especial) são sempre “ajudados”, mesmo depois do que se passou no 30 de junho de 2004. Mesmo depois de Botafogo e Fluminense terem perdido no Maracanã finais da Copa do Brasil para os pequenos Juventude (1999) e Paulista (2005).
Se flameguistas e santistas usam respectivamente as orgulhosas lembranças dos times de Zico e de Pelé como mecanismos de defesa psíquica contra uma realidade melancolicamente vazia, torcedores do Galo – e de outros times também, claro – evocam as maquinações pró-Mengo como maneiras de não assumirem as limitações flagrantes de seus times. Como se o gol olímpico de Petkovic contra o Galo em 2009 não fosse fruto do seu extraordinário talento, mas sim de uma decisão de cartolas gordos e corruptos.
Cada torcida se vira como pode para suportar a mediocridade de seus times.
* Durante muito tempo, a cotovelada que quebrou a mandíbula do Rondinelli foi atribuída a Éder Aleixo. Mas, mais tarde, esclareceu-se que foi Palhinha quem cometeu o crime.
Nos anos que se seguiram a 1992, a torcida rubro-negra, atônita, assistiu à degradação pública do seu time, do seu clube, da sua cidade.
O Flamengo e o Rio degeneraram-se, numa assustadora simbiose de terror e indigência, enquanto o Brasil avançava.
O Plano Real derrotou a inflação, veio a estabilidade econômica e as instituições nacionais se modernizaram com um funcionalismo público jovem e competente. O Brasil ganhou visibilidade internacional. Elegemos um presidente de esquerda e de barba – e o Flamengo continuava sob os desmandos de uma corja retrógrada e despótica. No futebol, recuperávamos gloriosamente a supremacia do futebol mundial, com as conquistas de 1994 e 2002. O Brasil, enfim, vencia seus fantasmas; o Flamengo permanecia assombrado.
O Rio, igualmente espectral, padecia nas mãos de Garotinhos, de Kléber Leites e de Euricos Miranda.
A cidade prendia o fôlego em um pesadelo contínuo, como se o seqüestro do ônibus 174 se eternizasse e nunca chegasse a um desfecho.
Por muito tempo, o Rio difundiu ao planeta a delicadeza poética de Vinícius e Jobim; agora, exportava a brutalidade de suas tragédias cotidianas, personificadas em Zé Pequeno e no Capitão Nascimento.
Mesmo o canto da torcida empobreceu: antes, as arquibancadas cantavam Jorge Ben. Em 2008, cantavam o Créu.
O Rio e o Mengo se perderam, cada vez mais reféns de bandidos e de corruptos que conspurcaram sua beleza, sua história, sua cultura.
Restou ao carioca evocar as maravilhas de outrora, vivendo em um passado que se fora há muito. Era tudo o que se tinha, era tudo o que se podia fazer: rememorar. O carioca virou um saudosista, em perpétuo exercício mental de trocar a realidade pelo passado utópico – é esse contínuo exercício que lhe permite sobreviver.
Ao escutar o funk do Tigrão, o carioca sonha o violão de João Gilberto; nos morros em que se penduram favelas, evoca a Mata Atlântica; no time que escala Cleisson, lembra Bebeto.
Lembro-me da final da Copa do Brasil de 2003, que assisti na torcida rubro-negra, no Mineirão: um frio na espinha me tomou quando, no começo do segundo tempo (o Flamengo perdia por 3 a 0) todos começamos a gritar, um a um, os nomes dos jogadores da equipe de 81. Era como uma sessão espírita. Invocávamos apaixonadamente os heróicos antepassados e suplicávamos que seus espíritos baixassem naqueles cabeças-de-bagre que tentavam o impossível: bater o Cruzeiro de Alex na sua própria casa.
Semelhantemente, houve uma esperança milenarista quando, lá pelos idos de 1994, surgiu na Gávea um menino franzino e habilidoso: a nação rubro-negra viu em Sávio um novo Zico, que iria restaurar o reinado rubro-negro no Brasil. O messias voltara.
Mas o messias não voltou.
Não havia enlevo: em 1992, a torcida do Mengo iniciou seu lento e inexorável martírio, acompanhada da ferida narcísica, da dolorosa metamorfose: passamos de orgulhosos e temidos protagonistas a figurantes desacreditados e chacoteados.
A imagem que milhões de flamenguistas faziam de si mesmos e do seu time se metamorfoseava – uma mudança de percepção que foi acompanhada também por torcedores de todos os times.
No rastro das pífias administrações, com sua dívida astronômica, seus salários atrasados, suas contratações mirabolantes, o Mengo, de temor respeitoso, passou a ser motivo de piadas.
Tornamo-nos uma auto-paródia que corre atrás de uma bola.
Uma paródia que teve seu ápice no patético centenário, quando colocaram Vanderlei Luxemburgo na TV pedindo que a torcida telefonasse para decidir se o time que ele dirigia deveria investir no Estadual ou na Copa do Brasil.
Perdemos os dois, claro.
Naquele ano, sofremos com Sávio, Romário, Edmundo: “anda um pouquinho, pára um pouquinho, pior ataque do mundo”.Deixamos escapar o título da Supercopa diante de um Maracanã abarrotado. Terminamos o Brasileirão em 21º lugar.
Um a um, caíram os mitos que embalaram a nação rubro-negra por anos a fio, sepultados por fatídicas derrotas: Fluminense e Independiente em 1995, Grêmio em 1997, Palmeiras em 1999, Cruzeiro em 2003, Santo André em 2004, América-MEX em 2008. Sem esquecer a humilhante derrota para o Vasco (4 a 1) nas semifinais do Brasileiro de 97, em que Edmundo tripudiou do time rubro-negro…
O mito da equipe que nunca perdia um jogo decisivo dentro do Maracanã foi esfarelado.
A lenda da torcida que levava o time a fazer proezas impossíveis se pulverizou.
A mítica idéia do “time de chegada” foi pro espaço.
A reputação do Flamengo como time grande, temido e vitorioso, esvaneceu-se no seio da sua torcida e entre rivais apaixonados de todo o Brasil.
Não existiam mais aquele time e aquela torcida que Henfil tão genialmente rabiscava para delírio geral da nação rubro-negra.
Não apenas o futebol carioca, mas todo o campeonato brasileiro perderia brilho no pós-92 – um golpe que, sem dúvida alguma, se fez mais sentido no Rio.
Em 1992, o técnico campeão brasileiro foi Carlinhos, homem de hábitos simples, de fala tranqüila. Em 1993, o treinador vencedor já seria Vanderlei Luxemburgo.
Começava o deplorável processo de endeusamento e supervalorização de técnicos de futebol. Foram-se raposas velhas como Cilinho, Ênio Andrade e Jair Pereira (nosso queridíssimo Joel Santana ainda está aí, representando a turma). Surgiram tecnocratas com pretensão a estrelas, como Luxemburgo, Tite, Autuori e PC Gusmão. Vieram o mau humor de Muricy, a arrogância de Leão, os ternos do Luxemburgo.
(Por princípio, eu não confio em técnico de futebol que usa terno).
O futebol brasileiro perdia o verniz de malandragem que sempre lhe fez bem. Saía de cena Júnior, o lateral que fuma e toca samba. Renato Gaúcho, craque cafajeste que colecionava musas da Playboy, também se retiraria daí a pouco.
Sim, pode-se argumentar que a década de 90 ainda ainda veria bad boys como Edmundo e o capetinha Edílson. Mas os campos de futebol tornaram-se cada vez mais os espaços fashion de metrossexuais como David Beckham e Cristiano Ronaldo. Não teríamos mais as barbas do Afonsinho e do Sócrates, nem as cabeleiras do Biro-Biro e do grande (e bigodudo) Raphael. Apareceram jogadores que entram em campo com cabelo cuidadosamente ajeitado com gel, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro.
E ainda viriam o bom-mocismo de Kaká e o proselitismo religioso barato dos Atletas de Cristo, com suas camisetas de marketing evangélico na hora do gol e suas chatíssimas celebrações nas vitórias.
E os anos 90 viram aprofundar-se a nefasta tendência que esvaziou nossos campos dos nossos melhores craques, exportados cada vez mais jovens para pólos futebolísticos do naipe de Turquia, Ucrânia e Grécia. Em contrapartida, clubes brasileiros passaram a acolher alegremente crepúsculos de craques.
No Rio, a decadência foi maior que alhures. Houve lampejos de brilho, como em 1995, com a mais sensacional final de estadual de todos os tempos. Teve também o excelente Vasco de 1997-2000.
Mas o saldo carioca a partir de 1992 é francamente negativo.
A hegemonia dos anos 80 ficou para trás, e a geopolítica do futebol brasileiro mudou de mando nos anos 90. Até 1992, os times do Rio falavam grosso na cena nacional. Desafiavam de igual para igual equipes fortes como o Galo de Reinaldo, o Inter de Falcão, a Democracia Corinthiana e os Menudos do São Paulo. A partir daquele ano, tudo definharia.
Nos dezesseis anos anteriores a 1992, foram sete títulos nacionais cariocas (Fluminense 84, Vasco 89 e Flamengo 80, 82, 83, 87 e 92): quase um a cada dois anos.
Nos dezesseis anos entre 1993 e 2008, o campeonato brasileiro ficou no Rio em apenas três ocasiões (Botafogo 95, Vasco 97 e 2000) – um título a cada cinco anos.
No mesmo período, três dos quatro grandes cariocas caíram para a segundona, com o Fluminense amargando uma inacreditável terceira divisão. Em São Paulo, apenas dois dos quatro grandes caíram.
O São Paulo alcançaria o inquestionável status de time brasileiro mais vitorioso de todos os tempos, conquistando três títulos continentais, três mundiais e mais três campeonatos brasileiros.
O Palmeiras resgataria o prestígio das décadas passadas, com o esquadrão da Parmalat, que ficaria para sempre na memória dos amantes do futebol-arte. Um time vencedor, que implodiria o jejum de estaduais em 1993 e ainda dominaria o Brasil (Brasileirão 93-94, Copa do Brasil 99) e a América (1999).
O Corinthians, que tinha apenas um solitário título nacional – solitário como o gol de Tupãzinho na final de 1990 – venceria o campeonato por mais três vezes.
O Santos reviveria a chama dos anos 60, na brilhante geração de Robinho, Diego, Léo e Elano, que encantaria o Brasil.
O Internacional despertaria após anos de dominação gremista, e pintaria a América e o mundo de vermelho (2006).
Vieram outros campeões, como o Furacão de 2001.
O Cruzeiro se sagraria como um dos maiores papa-títulos do país, com o tetra da Copa do Brasil (93, 96, 2000 e 2003), o bi da Libertadores (97) e o Brasileiro de 2003, o qual ganhou de forma arrasadora.
Tudo ao redor da Gávea crescia, progredia, evoluía. O arquirival montava o maior time de sua história, vencia o Brasileiro por duas vezes (1997 e 2000) e conquistava a América (1998). Clubes como São Paulo e Cruzeiro modernizaram e profissionalizaram suas administrações. Times pequenos, porém competentes e organizados, ascendiam, como o São Caetano.
Seis mil trezentos e cinquenta dias – entre o 19 de julho de 1992 e o 6 de dezembro de 2009.
Dezessete anos, 4 meses e 18 dias.
Entre o penta e o hexa, um tempo que transformou o inconsciente coletivo da nação rubro-negra, assim como a identidade do Flamengo aos olhos de sua própria torcida e dos rivais de todos os cantos do Brasil.
Naquela tarde em que Júnior erguia a taça do Campeonato Brasileiro de 1992, fechou-se um capítulo não apenas da história do Flamengo, mas da história do futebol do Rio e do Brasil.
Personificada em Júnior, despedia-se toda a geração rubro-negra que compôs um dos maiores esquadrões de jogar bola que o mundo já viu. Era um derradeiro e brilhante espasmo, lindo e triste como o Réquiem de Mozart.
Talvez não soubéssemos ainda: o Rio e o Brasil nos despedíamos também do Rio de Zico, de Dinamite, de Washington & Assis.
No vácuo dos anos que se seguiriam, o Mengo e o Rio submergiriam no pântano da indigência, da truculência, da incivilidade.
E o Flamengo iniciou ali um martírio que mudou para sempre a imagem da massa rubro-negra, diante de si mesma e dos rivais apaixonados.
Os anos mágicos do Flamengo cessaram. Assim como o Rio que, num arrastar cada vez mais espantoso, deixou de ser a maravilha cantada em verso e prosa e perdeu muito de sua charmosa carioquice.
O Rio de Jobim passara.
O Rio de Nélson Rodrigues passara.
Tudo ficou como uma memória fugidia, etérea, como um drible do Mané.
PS 1: A foto que ilustra este texto foi tirada daqui.
PS 2: Este texto inicia uma curta série sobre o Flamengo, o futebol do Rio e do Brasil pós-92.
Cartum nazista: o medo de que os judeus (e suas ideias) dominassem o mundo
Espero não perder meus 5-6 leitores, mas tenho que confessar algo: acesso com freqüência sites de moral duvidosa. Quer dizer, vou ser mais franco: são sites sem moral alguma. Minha esposa talvez nem desconfiasse, pois sempre encontro um jeitinho de camuflar o delito: visito a porcaria quando ela está fora de casa, apago o histórico de navegação e, quando ela toca a campainha, abro-lhe a porta com sorrisos e beijinhos mil.
Para quem não o conhece, Júlio Severo é um cristão evangélico que se notabilizou por fazer todo tipo de invectivas contra homossexuais. É, talvez, a mais ativa voz contra os direitos civis homossexuais no Brasil. Sua postura rendeu-lhe muitos problemas legais, o que motivou que deixasse o país.
O termo “obscurantista”, enfim, parece ter sido feito sob medida para Júlio Severo. Por isso, quando o filósofo astrólogo Olavo de Carvalho disse no seu programa que “o Júlio é uma das melhores pessoas que nós temos no Brasil”, eu fiquei surpreendido: descobrira alguém que conseguia ser mais pessimista do que eu em relação ao nosso país.
O mais triste, porém, é que o Júlio Severo não é vox clamantis in deserto. Seu blog tem quase 600 seguidores e, internet afora, há muitos crentes que defendem e sustentam ideias bastantes semelhantes às do Júlio. Suas posições são bastante representativas de boa parte da comunidade evangélica brasileira (atenção, por favor: escrevi “boa parte” e não “toda”). O acachapante documentário “Jesus Camp” expõe como fenômeno semelhante ocorre nas igrejas dos EUA, centros que historicamente exerceram (e exercem) enorme influência no protestantismo brasileiro.
E é do Júlio que vem mais um exemplo vivo de que anti-semitismo e cristianismo não são duas coisas incompatíveis, mas que podem coabitar harmonicamente na consciência de um indivíduo, às vezes de maneira latente e disfarçada, outras, nem tanto… Tal como a D. Magda e aquela anônima covarde, trata-se apenas de mais uma ilustração de uma constatação histórica: cristãos sinceros podem aceitar ideais nazistas.
“A psicologia reconhece sua necessidade de Cristo? Dificilmente, considerando o fato de que seu fundador Sigmund Freud (um judeu rebelde e revoltado contra Deus) fez questão de não centralizar Deus em sua invenção, nem a criou para glorificar o nome de Jesus.
Freud é para a psicologia o que Karl Marx (outro judeu rebelde e revoltado contra Deus) é para o socialismo.”
Bom, acho que não é preciso muito esforço imaginativo para entender que foram pessoas assim que não se opuseram nem um pouquinho à proibição e à queima de livros judeus na Alemanha nazista, né ?
Que um fanático evangélico destile raiva contra a “psicologia moderna”, não chega a ser surpreendente, é apenas mais um entre os numerosos pensamentos trevosos que cultivam.
Que se contestem os escritos de Freud e de Marx, não há nisso problema algum. É excelente que se o faça. Doutrinas e ideias, sejam da psicologia, da economia ou da religião, devem mesmo ser analisadas criticamente. No caso de Freud (não li Marx), há certamente muitas coisas a serem contestadas à luz das neurociências modernas. Sistemas religiosos podem ser alvo de crítica e de contra-argumentação, como é passível de contestação qualquer conjunto teórico-ideológico, não importa o campo semântico, seja ele na economia (como o marxismo), na biologia (como darwinismo), na psicologia (como a psicanálise freudiana) ou na religião (como a teologia evangélica).
Mas é inaceitável que se refira a Freud e a Marx como “judeus rebeldes e revoltados contra Deus”, porque repercute ipsi literis, com a mesma verve raivosa, com a mesma hidrofobia, a mesmíssima fraseologia anti-semita com a qual durante séculos se satanizou o povo judeu. A ofensa aos judeus como “rebeldes e revoltados contra Deus” perpassa toda a história da cristandade, especialmente a Idade Média. Foram preconceitos implícitos e textos como esses que, explorados com extrema eficiência por Hitler, redundaram na barbárie do Holocausto. Semelhantemente, foi direcionando a homofobia latente em cristãos como Júlio Severo que Hitler enviou milhares de gays aos campos de extermínio…
Para quem tem dúvida do teor racista do que o Júlio Severo escreveu, experimente substituir “judeu” por “negro”.
Se ele tivesse escrito que Freud e Marx são “pessoas” ou “homens” “rebeldes e revoltados contra Deus”, minha acusação não teria lugar. Mas, ao associar uma depreciação àquilo que é algo estruturalmente constitutivo de um indivíduo (sua etnia), as declarações de Júlio Severo são racistas e se inscrevem na longa lista de declarações anti-semitas de pregadores protestantes, como Lutero e Billy Graham.
Praticar o judaísmo, como qualquer religião, é uma opção pessoal e um direito individual inalienável.
Mas ninguém escolhe ser “negro”, “judeu”, “asiático” como ninguém opta por ser “homem” ou “mulher”. No caso da sexualidade, há cada vez mais evidências científicas de que ninguém “escolhe” ser homossexual (veja aqui, cá e acolá).
É intolerável ofender uma pessoa naquilo que não lhe constitui uma opção, naquilo que está incrustado na sua estrutura biológica. Isso não é uma questão de “liberdade religiosa”. Isso é discriminação. É racismo. É crime.
Ah, antes que me esqueça. Você pode contribuir com o “Ministério” do Júlio Severo, através de doações pelo Banco Itaú ou pelo cartão de crédito. Contribua: ele ganha um dinheirinho e o mundo fica um pouco mais intolerante e abrutalhado.
PS1: O título deste post, claro, é uma referência ao famoso “J’accuse” de Zola.
PS2: Agradeço o André Egg (pesquisador e professor de História do Cristianismo e do Protestantismo no Brasil na Faculdade Teológica Batista do Paraná) pelo elogio acerca do meu texto anterior sobre o anti-semitismo cristão.
Agradeço também o Victor Barone, por me incluir entre “as pessoas que têm feito a diferença nesta Babel que é a internet, quando o assunto é a defesa dos direitos civis diante do assalto da fé”.
Alguns apoios vêm na hora certa. Muito obrigado.
PS3: Esqueça a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo e a Notre Dame. Se você vier a Paris, não deixe de visitar o lindíssimo Mémorial de la Shoah, que conta a história do anti-semitismo ao longo dos séculos, até culminar nas atrocidades nazistas.
Nunca fui bom em matemática. No vestibular, meu maior medo era fazer menos do que a pontuação mínima aceitável para ir à segunda etapa do concurso. Felizmente, o tico e o teco aqui no meu cucuruto funcionaram e eu consegui passar.
Mas minhas dificuldades aritméticas sempre persistiram. Por isso, nunca hesito em recorrer à calculadora.
Agora, por exemplo, estou vendo na página de abertura da Veja que “país tem um homicídio a cada 12 segundos” (28 de novembro de 2009 às 14:00h).
Fiquei impressionado, claro. E fui conversar com minha calculadora.
Bem, 1 homicídio a cada 12 segundos dá 5 assassinatos por minuto.
Cinco homicídios por minuto dão 300 homicídios em 60 minutos (uma hora). Trezentos vezes 24 (as horas do dia), são 7200 mortes diárias.
Multiplicando esse valor por 365 (dias do ano), minha calculadora mostra o astronômico número de 2.628.000 mortes anuais.
Ou seja, pelas contas da Veja, uma vez por ano é assassinada no Brasil uma multidão aproximadamente do tamanho da população da Grande Belo Horizonte.
Esse número é cerca de 52 vezes maior do que os dados oficiais, que ficam na casa de cerca de 50.000 mortes por ano.
E eu que achava que era só o tio Rei que alucinava lá na Abril…
Ela sempre chega cedo, bem antes do culto começar. Assenta-se habitualmente em um dos bancos dianteiros, próxima ao púlpito do pastor. Entra com sua Bíblia, cabelos presos em um coque. Retribui com sorrisos afáveis os cumprimentos de quem passa por ela. Embora esteja há muitas décadas no Brasil, vê-se na sua disciplina que é alemã: nunca se atrasa, dá fielmente o dízimo, é assídua na escola bíblica dominical e vai regularmente aos dois cultos de domingo, o matutino e o vespertino. A D. Magda* é, enfim, uma octagenária simpática, de uma fé tranqüila e sólida que todos os seus irmãos presbiterianos respeitam.
Essa era minha opinião sobre essa velhinha cordial.
Até o dia em que o professor do grupo de estudos bíblicos gentilmente oferece a cada um dos alunos um livro de teologia.
Dias depois, D. Magda procurou o professor à porta da Igreja. Entregou-lhe o livro de volta, juntamente com uma carta. Ela lhe escrevera dizendo que lhe devolvia o livro porque não podia admitir em sua casa uma publicação de Dietrich Bonhoeffer. Ela não podia tolerar nada que viesse de uma homem que tentara matar Adolf Hitler. E fez uma defesa apaixonada de Hitler e de como o Führer representara a esperança e a alma germânicas. **
Eu jamais saberia que D. Magda era uma nazista se ela não tivesse se manifestado sobre Bonhoeffer – um teólogo refinado, que foi preso e executado por ter participado de um complô para assassinar Hitler.
A reação de D. Magda – muitos anos após a queda de Hitler, e sem nenhuma pressão externa que a impelisse a tanto – é emblematicamente ilustrativa da ligação entre o cristianismo e o nazismo.
Infelizmente, trata-se de apenas um entre milhões de exemplos da inércia que caracterizou o comportamento dos cristãos alemães diante do nacional-socialismo. Mais do que isso, é um contundente argumento contra aquilo que Steigmann-Gall 1 chama de “um dos maiores truísmos dos últimos 50 anos”: a insistência de que o nazismo foi um movimento anti-cristão – noção que Olavo de Carvalho e Dinesh d’Souza divulgam recorrentemente.
Ao contrário de Stalin – cujo ateísmo é pouquíssimo contestável – a fé de Hitler é algo que suscita grande debate.
Hitler foi criado e educado dentro da religião católica. Isso, é certo, não faz de ninguém um católico, assim como os estudos em um seminário na Geórgia não impediram que Stalin se tornasse ateu. Mas Hitler jamais negou publicamente a fé católica. Muito se discute se isso não seria uma estratégia para melhor manipular as massas. Contudo, ele poderia ter negado a fé a qualquer momento, até porque muitos nazistas proeminentes eram abertamente anti-cristãos. Stalin não perdeu a obediência da população por se afirmar ateu.
O Führer, por inúmeras vezes, usou de linguagem cristã para defender suas ideias. Por exemplo, quando liderou a Noite de Cristais (1938), Hitler evocou a passagem em que Cristo expulsava mercadores do templo (Mateus 21: 12, 13).Em Mein Kampf2, ele escreveu:
“Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.”
É claro, muitos dirão que não se pode levar em consideração que um fanático amalucado como Hitler diga estar seguindo ordens divinas. Ok. Mas por que as pessoas que assim argumentam não vêem problema algum que Josué, Davi e outros “heróis” bíblicos tenham dito coisas semelhantes antes de dizimar jebuseus, cananeus, filisteus, amorreus, etc ?
O que complica ainda mais o entendimento da questão é que Hitler também emitiu várias declarações anti-cristãs, e que atividades religiosas tenham sido restritas na Alemanha Nazista. Mas há evidências que sustentam que Hitler era mais anti-clerical do que propriamente anti-religioso: ele não via com bons olhos que instituições religiosas – como a Igreja Católica ou as Igrejas Protestantes – tivessem uma autonomia que lhe escapasse. O que o incomodava não era a religião em si, mas o fato de que padres e pastores pudessem ter uma ascedência fora do seu controle: tanto assim o era que Hitler estimulou ativamente o movimento protestante Deutsche Christen,liderado pelo pastor Ludwig Müller.
Paralelamente ao estímulo à organização de uma nova denominação reformada, Hitler se encarregou também de assinar acordos com líderes católicos e protestantes, que prestaram lealdade ao Führer e que se silenciaram ante as barbaridades do regime. Segundo Paul Johnson 4, dos 16.000 pastores alemães, pouquíssimos deles foram presos por oposição a Hitler. A Igreja Católica, por sua vez, não excomungou nenhum agente SS pelos seus crimes. Durante todo o regime hitleriano, a Igreja Católica excomungou apenas um líder nazista, Joseph Goebbels. O motivo ? Ter-se casado com uma protestante divorciada. Enfim, as alianças do Vaticano com o Reich e outros regimes totalitários são fartamente documentadas e já foram objeto inclusive de desculpas papais.
Mas a questão que me parece a mais fundamental não é a fé de Hitler, de Goebbels ou de Goring, nem mesmo a posição das lideranças eclesiásticas. Esses são quase que pontos periféricos no debate.
É fato: os líderes nazistas não perpetraram as atrocidades sozinhos. Eles tiveram o apoio de milhões de alemães que eram, na sua esmagadora maioria, cristãos. A pergunta crucial é: por que diabos os cidadãos cristãos colaboraram com o nazismo ?
Antes, porém, convém fazer uma digressão. Um crente logo dirá que não se pode dizer que é um “verdadeiro” cristão quem apóia nazistas. O mesmo argumento pode ser usado por um muçulmano ou um judeu que recusam que o 11 de setembro e o assassinato de Yitzhak Rabin tenham sido respectivamente perpetrados por pessoas pertencentes à mesma religião que eles. O mundo seria um lugar muito bom se só existissem “verdadeiros” cristãos, “verdadeiros” judeus, “verdadeiros” islamistas…
Se uma nazista como a D. Magda se declara cristã, que razão tenho eu para duvidar da sinceridade da sua fé ? Segundo Paul Johnson (historiador católico), 23% dos oficiais da SS eram católicos praticantes (daqueles que se confessam toda semana) 4 – como contestar a fé deles?
Para todas as religiões, há uma dissociação entre o ideal e a prática real. Coppola mostrou isso de maneira magistral na seqüência final d’O Poderoso Chefão I, em que Michael Corleone, um católico convicto, batiza seu filho e reafirma um a um os dogmas católicos – enquanto isso, seus capangas promovem um banho de sangue.
Além do mais, como lembra a historiadora Doris Bergen 3, há uma diferença entre uma categoria histórica/institucional e as definições “ideais” que os grupos estabelecem para seus próprios membros. “Religião” não diz respeito apenas a uma “crença” individual (algo inacessível a historiadores), mas inclui também, e principalmente, ritos, tradições, instituições e a vida em comunidade. Por isso, pode-se dizer que sim, a Alemanha nazista era um país cristão, majoritariamente protestante– os dados estatísticos e históricos o demonstram 3. Sob o regime nazista, quarenta milhões de alemães eram protestantes e vinte milhões eram católicos 4.
Ao se deparar com a história, o leitor honesto constata forçosamente quão inconsistente é a frase malandramente atribuída a Dostoiévski (“se Deus não existe, tudo é permitido”). Não é a devoção a Deus que dá senso moral ao homem – o Padre Tiso (sanguinário ditador eslovaco) que o diga.
A verdade é que qualquer debate sobre a influência da religiosidade sobre o comportamento moral é abortado quando se deixa de reconhecer que crimes hediondos e boas ações foram cometidos tanto por pessoas apegadas a um teísmo (qualquer que seja a religião), quanto ao ateísmo. Estabelecer convenientemente um subgrupo utópico dentro do qual só existem virtudes e jogar todos os vícios para longe da sua própria crença (ou não-crença, no caso dos ateus) não ajuda em nada na compreensão das relações entre a moralidade e a cultura religiosa.
E a história também que mostra que a resistência de cristãos – católicos ou protestantes – foi uma deprimente exceção, e não a regra 6. Os poucos valentes que se rebelaram – como Bonhoeffer, o padre Lichtenberg, ou Marga Meusel – receberam pouco ou nenhum apoio de seus irmãos de fé 6. E não apenas na Alemanha reformada: veja a França de Pétain ou a Espanha de Franco.
Por que tamanha covardia? Por que o silêncio cristão foi a regra?
Por que os católicos e protestantes não agiram como os Testemunhas de Jeová? – esses sim fizeram corajosa oposição a Hitler e, por isso, foramsistematicamente perseguidos. Muitos (um terço deles) morreram nos campos de extermínio4. Por que católicos e protestantes, em sua maioria, colaboraram?
A resposta – se é que existe – pode advir da constatação evidente, mas por demais olvidada, de que não foi Hitler quem inventou o anti-semitismo. O ódio e o desprezo a judeus foi cultivado e incentivado pela Cristandade durante séculos. O caso Dreyfus, na França de 1898, é apenas um exemplo histórico visível do anti-semitismo abraçado por cristãos.
E, na abjeta relação do cristianismo com o anti-semitismo, o protestantismo tem uma parcela de culpa que não cabe aos católicos. Afinal, o próprio fundador da Reforma – Martinho Lutero – foi talvez o anti-semita mais importante da história.
Lutero escreveu um livro (“Sobre os judeus e suas mentiras” 3) dedicado inteiramente a atacar israelitas. Os textos e atitudes de Lutero contra os judeus eram francamente apreciados pelos fascistas e o próprio Hitler tinha profunda admiração por Lutero. A Noite de Cristais não ocorreu por acaso no dia 10 de novembro de 1938 – era o aniversário de Lutero e os nazistas queriam homenageá-lo. Julius Streicher (editor nazista), no julgamento de Nuremberg, chegou a dizer que Lutero estaria ali no banco dos réus se estivesse vivo. E estaria mesmo. Basta ler um pouco do que Lutero escrevera:
“Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas… Em segundo lugar, as suas casas deveriam ser destruídas e arrasadas… Em terceiro lugar, deveriam ser privados de seus livros de orações e do Talmud… Em quarto lugar, seus rabinos devem ser proibidos de ensinar sob pena de serem mortos, se não obedecerem… Em quinto lugar, os privilégios de viagens e de um passaporte deveriam ser absolutamente proibidos aos judeus… Em sexto lugar, deveriam ser impedidos de fazerem agiotagem… Em sétimo lugar, que aos jovens e fortes judeus de ambos os sexos sejam dados manguais, machados, enxadas, pás, rocas e fusos e que eles ganhem o seu pão com o suor de seus rostos… Deveríamos expulsar os preguiçosos velhacos para fora de nosso sistema… Portanto, fora com eles… Para acrescentar, caros príncipes e nobres que têm judeus em seus domínios, se este meu conselho não lhes serve, encontrem então um melhor, de maneira a que vós, e todos nós, sejamos libertos desta insuportável carga diabólica – os judeus.” 3
Portanto, Olavo de Carvalho mente descaradamente ao dizer que o “evolucionismo de Darwin foi o pai do nazismo”. O nazismo bebeu da fonte do anti-semitismo cristão, como o de Lutero. O nacional-socialismo não foi um movimento de uma maioria anti-cristã 3 e a D. Magda está aí para lembrar esse fato. (Fico pensando: se mais de 60 anos depois da queda de Hilter, depois que todas as barbaridades do nazismo foram expostas, a D. Magda ainda defende o Führer ferrenhamente, imaginem o que essa boa prebisteriana não era capaz de fazer nos anos 40…)
O nazismo nunca foi materialista como o stalinismo1, outra ideologia assassina. Olavão quer nos fazer crer que o que um naturalista inglês escreveu sobre tentilhões de Galápagos teve mais influência no surgimento do nazismo do que os textos hidrófobos de Lutero.
Não, não foi à toa que o nazismo surgiu na Alemanha reformada – e o estupendo filme “Das Weisse Band”, do austríaco Michael Haneke, é magistral ao mostrar em que tipo de ambiente religioso cresceu a geração responsável pelo nazismo.
Aliás, não é nem um pouco casual que ainda hoje exista anti-semitismo entre evangélicos. O exemplo mais eloqüente é o de Billy Graham, evangelista que é um dos homens mais respeitados dos EUA e que ficou encalacrado quando uma conversa sua com Nixon veio à tona.
É claro, o anti-semitismo de Lutero não é sequer mencionado naquele filme bonitinho com galã bonitão. Lutero era um facínora hediondo, que pregava o ódio inclusive contra cristãos não-católicos que não se alinhavam com ele. Os anabatistas, grupo que derivou na atual Igreja Batista, foram cruelmente perseguidos por Lutero e por Calvino.
A desonesta hagiografia cinematográfica de Lutero tampouco expõe sua tristemente célebre frase, quando o ex-monge se aliou aos nobres contra lavradores pobres nas revoltas dos camponeses: “Mate-os como cães raivosos!”. Mais de cem mil morreram pela repressão dos soldados luteranos.
Mas deixemos os mortos em paz. Esqueçamos Lutero, Calvino, Hitler, os nazistas e a barbárie anti-semitista. Deixemos D. Magda seguir sua pacata vidinha de fé protestante. Um dia, ela morrerá. O pastor dirá palavras bonitas sobre seu caixão. Como tantos outros, ela também irá para o céu. É para lá, afinal, que vão os crentes sinceros.
Hitler autografa foto para fã cristã (foto daqui).
* O nome da senhora foi mudado.
** Este parágrafo foi modificado em relação ao texto que foi originalmente postado. Na verdade, este blogueiro havia dado uma informação errada. A senhora não rasgara o livro e não enviara a carta por correio. Ela devolveu o livro e entregou a carta pessoalmente ao professor. Peço desculpas pelo equívoco e agradeço ao leitor que me apontou o erro.
Referências
1. Richard Steigmann-Gall. The Holy Reich.
Para todas as seguintes, disponho da versão em pdf e posso enviá-las a quem se interessar:
2. Adolf Hitler. Minha luta (Mein Kampf) (em inglês)
3. Doris L. Bergen. Nazism and Christianity: Partners and Rivals? Journal of Contemporary History Vol 42(1), 25–33.
4. Paul Johnson. The history of Christianity.
5. Martinho Lutero. About the Jews and Their Lies. O trecho citado neste texto foi extraído daqui. Agradeço ao Diego e ao Ravick, proprietários do Os amorais .
6. Victoria Barnett. The role of the churches: Compliance and confrontation. Shoah Resource Center.
O crepúsculo ainda nem tinha terminado de incendiar o final de tarde em Praga. Demoraria um pouco antes que os Rolling Stones entrassem em cena, pegassem aquele incêndio de cores do céu e o jogassem sobre a multidão que os esperava no Letna Park. Eu, bandeira do Brasil enrolada no corpo, aguardava ansioso.
Mas antes que Jagger e sua trupe aparecessem, um senhor surgiu, microfone em punho.
Era Václav Havel.
O homem que liderara a Tchecoslováquia rumo à democracia, sepultando o comunismo, fez um discurso. Não entendi patavina, pois meu domínio do idioma tcheco nunca foi melhor do que minhas habilidades culinárias.
Mas não foi difícil apreender o quê o líder da Revolução de Veludo falara.
Havel tem uma estreita história pessoal com o rock e, em especial, com os Stones.
Foi ele o artífice da lendária apresentação de 1990, a primeira dos Stones no país. A música dos britânicos, acusada de levar a “degeneração moral do ocidente” era proibida na Tchecoslováquia. Mas isso não impediu que o rock lá chegasse: rádios clandestinas, fitas piratas, LPs comprados no mercado negro, não havia cortina de ferro que impedisse o rock de penetrar o país. A prova? As 100000 pessoas que lotaram o Strahov Stadium, meses após a queda do regime, celebrando com faixas: Tanks are rolling out, the Stones are rolling in.
Nas suas memórias “To the castle and back”, Havel explicita sua afinidade com o rock. Ele relata um concerto de Joan Baez, em Bratislava, nos tempos do regime. A polícia comunista tentara evitar que Havel chegasse perto da artista antes da apresentação. Para escapar do cerco, Havel tomou o violão de Baez e se fez de simples carregador para a musa do folk. A polícia não o prendeu, com medo de que Baez denunciasse a prisão à multidão. Contudo, quando a cantora dedicou uma canção a Havel e ao Charter 77, a polícia agiu rapidamente: cortaram a energia elétrica. “Um silêncio fúnebre caiu sobre o estádio”, escreve Havel. Baez protagonizou então um momento ímpar: sem microfone, ela começou a cantar. A acústica do lugar e o silêncio da platéia fizeram sua voz plenamente audível. Seu canto foi muito mais impressionante e comovente do que teria sido se os microfones estivessem ligados.
O combustível que sustenta o amor de Havel pelo rock não é outro senão a chama contestatória que o rock n’ roll traz em si. Desde seus primórdios, o rock tem expressado a contestação de gerações de jovens. Não por acaso, o estilo atrai também o desprezo de reacionários empedernidos, como Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho e o Mr. Burnes.
Porque a essência do rock é servir como contraponto ao status quo, às tradições dominantes, à inteligentsia. E isso os reacionários, à esquerda ou à direita, não toleram.
Porque o rock é dionisíaco, e não apolíneo.
Esse embate de atitudes foi representado por Nietzsche no choque entre o grande dragão “Tu deves” e o espírito do leão: “Eu quero”.
O grande dragão chamado “Tu deves”, grita: “todos os valores foram já criados, e eu sou todos os valores criados. Para o futuro não deve existir o “eu quero”!”
É contra esse dragão que se insurge o rock, contra a subserviência, contra a negação do desejo humano - esse “Tu deves” que a todos massacra. É contra “ogrande dragão a que o espírito já não quer chamar Deus, nem senhor” que apontam as guitarras.
O rock se ergue como expressão dessa revolta, simbolizada por Nietzsche na figura do leão: “Criar novos valores é coisa que o leão ainda não pode; mas criar uma nova liberdade para a nova criação, isso pode-o o poder do leão. Para criar a liberdade e um santo NÃO, mesmo perante o dever; para isso, meus irmãos, é preciso o leão.”
O rock se contrapõe às convenções estabelecidas, ao poder constituído, à hipocrisia das regras sociais propaladas por uma plutocracia incapaz de fazer auto-crítica. Contra tudo, o rock ergue a mais explosiva força humana: o desejo - revestido de espontaneidade, de liberdade, de diversão.
Contra os pastores que dizem que dançar é pecado e leva pro inferno, os Dire Straits conclamam todos os esqueletos a se sacudirem em uma deliciosa “Walk of life“.
Em resposta aos que dizem que gays são depravados morais que não devem ter direitos civis, os Smiths abrem suas feridas em“How soon is now”.
Enquanto uns fazem loas ao grande líder, os cubanos do Porno para Ricardo tripudiam d’El Coma Andante.
Se evangelistas pescam toda sorte de desesperados, John Lennon chega chutando a porta: “God is a Concept by which we measure our pain”.
Contra a truculência policial que mata estudantes, Neil Young destila seu ódio pelos “four deads in Ohio”.
Contra a piedade carola, o rock debocha simulando apreço pelo capeta, como em ”Sympathy for the devil”.
A iconoclastia roqueira não se limita ao conteúdo - ela é também formal. Séculos e séculos de tradições ocidentais são subvertidos quando Harrison grava rock com cítara, quando o Queen funde ópera com heavy metal, quando Fred Mercury dança com o peito nu na Inglaterra ainda tão vitoriana, quando Jimmy Page fusiona na sua guitarra blues com melodias orientais e celtas, quando Ian Anderson toca flauta no seu inconfundível estilo de menestrel ensandecido.
Nesse sentido, o que caracteriza o roqueiro não é propriamente a sua música. É a postura diante do mundo que o rodeia. É sob essa ótica que são todos “roqueiros” grupos com sonoridades tão díspares quanto os Byrds, Radiohead e Deep Purple.
É a visceralidade o denominador comum de Chuck Berry a Nirvana, de Bob Dylan a Pearl Jam. Nada é tão característico do Rock quanto essa força primal, essa selvageria gutural. Sem essa autenticidade, não há rock. É essa franqueza genuína que lhe dá grandeza e veracidade. É o que permite que o rock seja discutido como Arte.
O rock é um grito - e o distintivo do grito não está no volume, mas na sinceridade que ele porta. (Alguns dos gritos mais penetrantes são aqueles que são sussurrados. Mesmo as mais doces baladas românticas do rock são gritos pungentes - quem não concorda, vá escutar Wild horses).
O rock é um berro. De escárnio. De revolta. De dor. De iconoclastia. De irreverência. De visceralidade. De agressividade. De sujeira.
Porque, parafraseando Nelson Rodrigues, não se faz Rock (assim mesmo, em maiúscula) com bons sentimentos.
Que os pops idiotizantes de Sandys e Cláudias Leittes fiquem com seus amores comezinhos, seus sorrisos cheios de dentes clareados, suas peles que recebem creminhos antes de dormir, seus corpos sarados, seus rostinhos bem tratados que saem na Caras. Não me encham o saco. Zé Ramalho e Belchior são muito mais roqueiros do que KLB e CPM 22.
Quero sentir a mesma raiva diante da injustiça que toma Bob Dylan em “The Hurricane”.
Não quero ver jovens serem enjaulados na castidade pelo discurso anacrônico de padres e pastores. Quero Jim Morrison incitando “Come on baby light my fire”.
Não quero a sabedoria dos que têm respostas para tudo: por que sofremos, para onde vamos. Quero encontrar respostas nos meandros da loucura e do Dark Side of the Moon.
Não quero aqueles shows à la Madonna, com logística militar, tempo cronometrado, movimentos previsíveis e ensaiados. Não quero as vozes angelicais dos musicais da Broadway. Não quero a articificialidade repetitiva de solos instrumentais que são sempre os mesmos. Quero o imprevisível, o imponderável, o inusitado. Quero os Beatles resolvendo subir no telhado para fazer um som, atraindo a polícia e tocando o que quisessem.
“Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”
Eu não quero esses seres que “têm sido campeões em tudo”, craques em dominar seus impulsos, em esconder sua sujeira dos outros e de si mesmos.
Quero rock, porque o rock realiza o desejo pessoano e de todos nós que somos “irrespondivelmente parasitas, indescupavelmente sujos”:
“Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.”
Somos todos uns doentes, mes amis. Não adianta buscar salvação e escapismos fáceis para nos ludibriar. Renato Russo tinha mesmo razão ao berrar que “há tempos são os jovens que adoecem”. A juventude padece: de alienação, de iletrismo, de repressão sexual, de indigência cultural, de tortura emocional sob dogmas religiosos nocivos e desumanos.
Roqueiros não tentam nos convencer de que devemos ser super-homens. Não nos aprisionam na culpa, ao projetarem um Ideal irrealizável, um inatingível paradigma moral, em que não se bebe, não se faz sexo, não se faz isso, não se faz aquilo…
(Por tudo isso, o chamado “rock gospel”, modismo evangélico, me soa como um oxímoro de mau gosto. Algo como “democracia comunista”).
Certamente, as coisas não são assim tão límpidas e bonitas. Nem tudo no rock tem a pureza dos desejos genuínos: o rock já foi veículo de racismo e de anti-semitismo; alguns de seus astros estiveram envolvidos em pedofilia, assassinatos, escândalos fiscais, apoio ao terrorismo…
Isso compromete todo o gênero? A resposta é um sonoro “não”. Outras artes também têm seus pecados…
Por outro lado, o rock também é hipócrita. Para alcançar visibilidade, ele precisou se valer do mesmo sistema que tanto critica, como bem disse Chris Novoselic (Nirvana) à Veja: “tive que me conformar com o fato de ter sido aceito pelo sistema, por exatamente tudo aquilo que detestava”.
Muitos se rendem à tentação do pop cantarolável, com suas letras idiotas. Essa é, sem dúvida alguma, uma segura via para se alcançar sucesso entre as massas. Mas eis aqui um bom separador do que é rock daquilo que é Rock: enquanto grupos como Hanson mesmerizam bobos com frases de aluno do Mobral, Jim Morrison dá cores vivas ao complexo de Édipo, John Lennon brinca com Edgar Allan Poe, Robert Smith se inspira n‘O Estrangeiro de Camus para compor Killing an Arabe Humberto Gessinger injeta existencialismo no BRock.
Uma vez no topo, é um tremendo desafio permanecer fiel ao ideário roqueiro original. O som sujo das garagens dá lugar às superproduções; as camas desconfortáveis de pulgueiros de quinta categoria são alegremente substituídas pelos leitos king size de hotéis de luxo.
Poucos, muito poucos, conseguem viver o estrelato com dignidade, mantendo a autenticidade roqueira. Para a maioria, valem as palavras da canção de Belchior: “hoje eu sei que quem me deu a idéia / de uma nova consciência e juventude / está em casa / guardado por Deus / contando o vil metal” . Muitos afundam nas drogas. Outros, como Kurt Cobain, não agüentam a barra e metem uma bala na cabeça. A felicidade é uma arma quente.
O rock, enfim, é feito por gente de carne e osso, por humanos demasiadamente humanos. É um grito pela libertação de todas as tiranias - política, social, religiosa. É a celebração do que temos de humano. É uma música cuja mensagem, se pudesse ser resumida, talvez o seria nas palavras de Zaratustra:
“Desde que há homens, o homem tem-se divertido muito pouco: é esse, meus irmãos, o único pecado original.
E, quando aprendemos melhor a divertir-nos, esquecemo-nos de fazer mal aos outros e de inventar dores”.
Vida longa ao rock’n'roll e a seus pensadores selvagens!
PS: E assim a Terceira Margem do Sena estréia n’O Pensador Selvagem. Desculpem-me pelo tamanho do texto, mas é tão bom falar sobre rock… Agradeço a toda a comunidade pela acolhida e, em especial, ao Rafael Reinehr pela inestimável ajuda no processo de mudança. Nem tudo ainda está pronto por aqui, mas aos poucos vamos arrumando a casa.
PS2: Fiquem com Neil Young e um hino ao rock’n roll: Rockin’ in the Free World