
Urubunildo
E aí chegou a primeira semana de dezembro de 2009.
O Flamengo assumira a ponta do campeonato após vencer o Corinthians e, agora, dependia apenas de si para ser campeão: tinha que bater o Grêmio, no Maracanã.
Sim, aquilo que ninguém imaginava estava prestes a acontecer: o Mengo ser campeão brasileiro, depois de 17 anos.
E chegou ao topo da tabela com uma equipe longe de ser excepcional, embora tenha sido consistente (especialmente no 2º turno), com alguns momentos de fulgor. Esse Mengo de 2009 era um bom time: um goleiro que inspira confiança, dois laterais que apóiam mais do que defendem, um atacante matador, um meia criativo – e, no banco, um técnico averso a invencionices táticas. Era, enfim, um time sobre o qual não se pode dizer que era brilhante, embora tenha feito partidas brilhantes, como contra o Galo e contra o Palmeiras, jogos em que brilhou intensamente o estupendo talento de Petcovic.
E, na iminência do título rubro-negro, na semana que antecedeu ao confronto contra o Grêmio, ressentidos Brasil afora falaram pelos cotovelos.
Houve quem falasse que o iminente título do Mengo já estava marcado pela ajuda da cartolagem: o afastamento de atletas são-paulinos nas últimas rodadas teria sido uma medida para beneficiar o time do Rio – como se apenas o Flamengo estivesse interessado em que o São Paulo chegasse debilitado nos derradeiros jogos. A idiotia esquece o óbvio: em um campeonato de pontos corridos, quando um time fica enfraquecido, vários outros são beneficiados. Palmeiras e Internacional tinham tanto interesse quanto o Mengo em que o tricolor estivesse mais fraco na reta final – e, como a história acabou por confirmar, até o ameaçado Botafogo se beneficiou da suspensão de tricolores. O propalado “STJFla”, dessa vez, foi também STJFogão, STJInter, STJPalmeiras…
Teve também a estória do Corinthians ter “entregado” o jogo para o Flamengo. É verdade que o Timão foi apático contra o Mengo. Mas o Corinthians foi apático o campeonato inteiro. É aquela coisa que eu nunca entendo: ninguém acredita que o Corinthians entregou o jogo ao perder para o fortíssimo Náutico, uma semana antes do jogo do Mengo; mas, se o Timão perdeu pro Mengo, é necessariamente porque os corinthianos “entregaram”… O não mover-se do goleiro Felipe no pênalti cobrado por de Léo Moura simbolizou o desinteresse do Corinthians no campeonato inteiro.
E, naquela primeira semana de dezembro, todo mundo já começava a ensaiar o argumento de que o Grêmio iria entregar o jogo, etc e tal. Se o Grêmio perdesse para o Mengo, a única explicação possível seria uma mala preta. Ora, se o Grêmio tivesse ganhado uma mala preta para cada jogo fora de casa que perdeu nesse campeonato, daria para os gremistas comprarem Messi, Kaká e Steven Gerrard. O Grêmio só venceu uma partida fora de casa no campeonato – mas, se perdesse contra o Mengo, é claro, seria por ter sido comprado…
Bom, seja como for, chegou o domingo 6 de dezembro.
Depois de passar a semana lendo todos os blogs de futebol e tudo que tratava da partida decisiva, era a hora do jogo. Eu estava me borrando de medo, pois, se há um time contra o qual o Mengo estremece, é contra o Grêmio. É certo, houve a vitória em 1982, mas o Flamengo tem um histórico bem negativo contra tricolores gaúchos (1989, 1995, 1997). Se o Mengo jogasse a partida final contra o Barcelona, eu estaria mais tranqüilo.
Já era noite em Paris e fazia um frio da muléstia, quando eu me assentei na cama com o computador, acessei uma rádio do Rio e me conectei a um site pirata que transmitiria a partida (‘tá bom, é errado, eu sei, mas eram dezessete anos, caramba…). E, sobretudo, agarrei-me ao meu amuleto, um urubu de borracha com a camisa do Mengo, carinhosamente chamado de Urubunildo.
E, mal o jogo começou, deu para ver sentir que o Grêmio não tinha ido ao Rio para entregar coisa nenhuma. O Mengo estava mais nervoso do que uma garota na sua primeira noite com um homem. Um horror.
Eu ouvia mais do que via o jogo, pois a transmissão da rádio CBN era muito mais confiável do que as imagens fantasmagóricas que vinham do site pirata.
E foi pela voz do locutor do CBN que chegou até Paris a catástrofe: o Grêmio fizera um gol.
(E tem gente que ainda fala que o Grêmio entregou. “Entregar jogo” é o que fez o Peru contra a Argentina, perde de seis a zero e pronto – time que “entrega” não vai logo fazendo um zero, nem tem um goleiro que faz o que Marcelo Grohe fez naquela tarde.)
Durante alguns minutos, tudo o que eu conseguia balbuciar era a mesma interjeição primal com que os homens das cavernas de Minas Gerais imprecavam os céus depois que um tigre-dente-de-sabre lhes tomava o gliptodonte recém-caçado:
Puta-que-pariu-a-minha-sogra-virgem.
Tudo o que se passava pela minha cabeça era a imagem dos meus amigos de Belo Horizonte se mijando nas calças de tanto rirem ao imaginarem minha cara de frustração.
E foi aí que me veio a luz.
Subitamente, entendi o porquê do Flamengo estar perdendo.
A culpa era toda minha.
Eu estava vendo o jogo no lugar errado. Não podia ser no quarto. Tinha que ser na mesa da cozinha, no mesmo lugar onde eu acompanhara pela internet a arrancada de 2007, o tri estadual 2007-2009 e, sobretudo, o rebaixamento do Vasco. O mesmo lugar onde eu vira o jogo contra o Corinthians, na semana anterior.
Então, como um profeta que se ergue, consciente de seu chamado, peguei o Urubunildo, o computador, saí do quarto e, pálido, com os olhos estatelados, irrompi na cozinha, onde minha esposa estava estudando:
– Me deixe ver o jogo aqui, o Mengo precisa de mim neste lugar.
Assustada com minha cara de tarado psicótico, ela saiu imediatamente, sem pestanejar, e foi estudar no quarto.
E aí a sorte do Mengo começou a mudar.
E, assim como foi necessário um ungido para mudar a história do povo de Israel nos dias do rei Saul, a nação rubro-negra aguardava o ungido que iria mudar a história daquele jogo. Se, nos tempos bíblicos, o escolhido para reerguer Israel não fora o mais forte do hebreus, mas um pastor de ovelhas, o homem que daria uma nova esperança à nação rubro-negra não seria um de seus mais badalados guerreiros, como Adriano ou Petcovic. Seria um homem despercebido ali no meio do time, tal como o pastorzinho estava esquecido entre os filhos de Jessé. Era um homem que tinha o mesmo nome daquele pastorzinho que um dia foi chamado “o homem segundo o coração de Deus” : David.
E David fez segundo o coração da Nação Rubro-Negra. Ante Marcelo, o gigante Golias do Grêmio, David fuzilou o pé tal qual o hebreu disparara sua funda: lançou a pedrada matadora ali, bem no canto do gol gremista.
Na janela para a Paris gelada, meu urro ensandecido foi de raiva, mas também de agonia.
Porque ainda faltava um gol.
Que agonia.
A agonia é maior quando se morre mais perto do objetivo: deixar de ser campeão por faltar só um golzinho era muito muito mais angustiante do que deixar de sê-lo por faltar dois.
E, antes que o cosmos entrasse em colapso, os deuses do futebol intervieram uma vez mais, lá das alturas celestiais em que governam o destino de terráqueos apaixonados por futebol.
Os céus chamaram um de seus santos. Ascenderam-no à glória. Abduzido pelo magnetismo que vem do céu, um anjo se levantou da terra – Angelim, o angélico, ascedeu aos céus, rumo à glória eterna. E, com a pontinha de sua auréola, desviou a bola que veio do escanteio cobrado por Petcovic.
Gol do Flamengo.
Eu, gritando, chorando, caio no chão da cozinha e me ponho a esbofetear o assoalho, como um Nabucodonosor que rasteja bestialmente após ter perdido a razão.
Minha esposa pede para que eu pare: é tarde da noite em Paris, a velhinha do andar de baixo não gosta de barulho e pode chamar a polícia do Sarkô.
Mas o juiz apita o final, o Mengo é hexacampeão. Sigo na minha catarse, vou até a janela, fico pulando na sacada, camisa do Mengo em uma mão e Urubunildo na outra. Os parisienses que passam pela calçada olham para cima e não entendem nada.
Só quem é Flamengo pode entender.

Angelim descende dos céus após desviar a bola com sua auréola.
PS1: Esse foi um relato de um torcedor a mais de 10000 quilômetros do Maracanã.
Para ler o testemunho de um felizardo que esteve presente no Maior do Mundo naquela tarde, leia o delicioso texto do sempre brilhante NPTO.
PS2: Ah, sim: a imprensa francesa considera o Flamengo hexacampeão (aqui e aqui). Nhé.