Teve gente que fez um CTRL/C+CTRL/V do livro de Dawkins e evocou os “estudos da reza” para dizer, “ ‘tá vendo?, teve um estudo científico que diz que Deus não existe!” , ‘tá vendo como a ciência pode testar a hipótese da existência de Deus? “
Isso merece um comentário bem detalhado, até para retificar e precisar algumas coisas que eu disse lá na discussão do Bule.
Há uma profusão de “estudos da reza”. Alguns estudos analisaram os efeitos da reza pessoal (quando o paciente reza por si mesmo) e, outros, os efeitos da prece intercessória (quando alguém reza pelo doente). E, na segunda categoria, há aqueles em que os pacientes sabiam que estavam orando por eles e outros, mais polêmicos, em que os pacientes não sabiam que havia alguém orando por eles.
Os primeiros estudos (exemplos aqui e aqui) são evidentemente menos interessantes para quem deseja especular acerca do sobrenatural. Nesses estudos, frise-se bem, a reza é um comportamento observável, mensurável como em qualquer estudo científico (quantas vezes a pessoa rezou, durante quanto tempo, etc). Nesses termos, o rezar é uma atividade cognitiva como qualquer outra; é uma variável tanto quanto aquelas dos estudos que mostraram, por exemplo, que certas atividades cognitivas (tocar instrumento de música, falar outros idiomas…) protegem contra demência (aqui e aqui) ou que mostraram que pessoas que praticam a meditação têm maiores volumes do hipocampo e do córtex orbito-frontal direito. O rezar é uma variável observável de estudo, só isso.
Encontrar um suposto efeito positivo da prece sobre a saúde do paciente não seria inabordável por uma ciência naturalista, nem nos estudos em que o paciente ora por si mesmo, nem nas circunstâncias em que alguém ora pelo paciente na presença dele. Tanto em um, como no outro caso, muitas explicações neurocientíficas poderiam ser dadas sem evocar o sobrenatural.
Bem, mas os estudos mais polêmicos são aqueles em que os pacientes não sabem que estão orando por eles e é a um desses estudos que Dawkins faz referência no seu livro. Nesses estudos, evidentemente, as considerações acima não se aplicam. E aqui cabe uma retificação e umas desculpas: no calor da discussão lá no Bule, eu confundi os trabalhos, dando a entender que alguns dos argumentos acima valeriam para todos os “estudos da reza”, o que evidentemente não se aplica àqueles em que o pacientes não sabem que estão intercedendo por eles.
Um desses estudos é citado por Dawkins em seu livro. Tal estudo (Benson et al, 2006) incluiu 1832 pacientes e concluiu que a reza não tem efeito sobre indicadores de morbi-mortalidade de pacientes cardíacos. Esse estudo foi publicado em um jornal cujo impact factor é 4.36, o que não chega a ser grandes coisas.
Mas houve outros estudos sobre a reza e que dão resultados opostos aos propagandeados por Dawkins. Em um artigo científico, os revisores o obrigariam a citar tais artigos e a discutir o porquê das diferenças dos resultados. Como o livro de Dawkins não passou por uma peer-review, ele simplesmente os ignora e brande alegremente os resultados do estudo de Benson et al. Tomando emprestado um comentário do NPTO, “em um livro que se dirige ao público em geral, do qual não se pode supor que vá atrás da fonte original, isso não é uma manobra argumentativa válida. Isso é muito, muito grave.” Isso não é, enfim, uma atitude verdadeiramente científica: Dawkins deveria ao menos ter mencionado que houve estudos que mostram o contrário do que ele afirma panfletariamente.
Como, por exemplo, o trabalho de Leibovici (2001), publicado no respeitado British Medical Journal (IF bem alto: 13.66). O estudo analisou 3393 pacientes e mostrou que a reza “funciona” em pacientes com septicemia e, horror dos horrores, sugere que a prece deveria ser considerada na prática clínica. Houve também o estudo de Harris et al (1999), que também relatou efeitos favoráveis da reza na prática clínica.
Felizmente, um grupo (Roberts et al, 2009) resolveu fazer o serviço direito e realizou uma metanálise (metodologia bem rigorosa), retomando 10 estudos feitos na área, em um total de 7646 pacientes. Este estudo é posterior à publicação de “Deus, um delírio” e, portanto, ao contrário dos anteriores, não teria como ser citado. A conclusão dessa metanálise foi que os resultados são ambígüos e que não há evidências nem para que se recomende, nem para que se desaconselhe a prática da reza.
A conclusão “agnóstica” dos autores da metanálise é lindamente coerente com os pressupostos de uma ciência naturalista, ao dizer, trocando em miúdos, que tais estudos não têm sentido e que é melhor gastar dinheiro com ciência de verdade do que com especulações acerca do sobrenatural. Além do mais, isso só corrobora Gould: “Não podemos afirmar nem negar isso; apenas não podemos comentar como cientistas. (…) A ciência só pode trabalhar com explicações naturalistas.”
Os autores da metanálise têm total razão. Na verdade, antes de se lançar em qualquer pesquisa, um cientista deve se fazer a pergunta (senão alguém vai fazê-la em um congresso e, olha, dá pra passar uma vergonha grande): qual o rational deste estudo? Quais as bases, em termos de evidências científicas, que me permitem formular a hipótese que pretendo testar?
Os autores dos estudos da reza não se fizeram essa perguntas básicas. Não há rational científico que nos autorize a testar a hipótese de que a intercessão a um ser sobrenatural poderia melhorar o prognóstico de um paciente que não sabe que estão orando por ele. Quem achar que há um rational nisso, “please provide evidence”, como revisores de artigos gostam de escrever.
E, se um estudo não tem um rational robusto, ele não pode usado na argumentação de um cientista que se quer rigoroso. Dawkins diz que o estudo é “patético” (pág. 93) e que “a simples ideia de realizar tais experimentos está aberta a uma boa dose de ridículo” (pág. 95), mas não resiste à tentação de citar o artigo que lhe convém, mesmo sabendo que esse trabalho não tem base científica. Se o próprio Dawkins reconhece o non sense científico do estudo, por que ele o cita, vitorioso? Isso lá é um jeito científico de se argumentar?
Mantenho o que disse antes: o que um cientista tem de mais precioso não são suas publicações, nem os prêmios que recebeu, nem os resultados de suas pesquisas; é seu rigor metodológico, a consistência epistêmica do seu método de investigação. Nada pode ser mais caro ao cientista do que isso.
Se um estudo não tem base científica, um cientista não deve usar seus resultados na sua argumentação, por mais que os resultados lhe convenham. Dawkins vende os resultados do estudo de Benson et al da mesma maneira que um religioso alardeia os resultados do estudo de Leibovici.
Assim como um cientista rigoroso vê de pronto que não há um rational a fundamentar os estudo da reza, ele não incorre em um erro tolo: entender que “os estudos da reza” estavam testando a ação de Deus. Nesses “estudos da reza”, o que se analisou foi a influência do ato de rezar sobre a sobrevida do paciente, não uma suposta interferência divina. Os resultados dos estudos não permitem de maneira alguma deduzir se Deus existe ou não. Mesmo que todos os estudos mostrassem um incontestável efeito favorável da prece sobre o prognóstico dos pacientes, o máximo que um cientista poderia dizer seria algo do tipo: “Os resultados são inequívocos, há mesmo um efeito positivo, mas não sabemos explicar o porquê. Vamos ter que fazer novos estudos, talvez discutir os dados com os físicos, ver se podemos empregar novos métodos de abordagem. É uma lacuna, não vamos preenchê-la com o sobrenatural só porque não temos uma explicação natural.”
Aliás, Dawkins fala brilhantemente sobre essas lacunas (como eu gosto dele nessas horas!):
“Os criacionistas procuram avidamente uma lacuna no conhecimento ou na compreensão atuais. Se uma aparente lacuna é encontrada, assume-se que Deus, por padrão, deve preenchê-la. (…) Os místicos exultam com o mistério e querem que ele continue misterioso. Os cientistas exultam com o mistério por um motivo diferente: ele lhe dá o que fazer” (pág 171)
E, da mesma forma, se todos os estudos “da reza” fossem unânimes em demonstrar a ausência de efeitos da prece, o máximo que o método científico permitiria dizer seria: “os dados sugerem com alto grau de probabilidade que o ato de orar não favorece de modo algum o prognóstico dos pacientes.”
Mas dizer que esses dados demonstram que “Deus não existe”, seja lá em que probabilidade for, isso um cientista não pode dizer – e, a favor de Dawkins, sublinhe-se bem, diga-se que ele não afirma que esse tipo de estudo prova definitivamente que Deus não existe (apesar de alguns de seus leitores mais aficcionados não hesitarem nem um pouco em dar este salto).
Seja como for, a qualquer um que trabalha com ciência, é irritante ler Dawkins dizendo que “mesmo que a existência de Deus jamais seja comprovada ou descartada com certeza, as evidências existentes e o raciocínio podem criar um estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%.” [grifo meu]
Em ciência, “estimativa de probabilidade” é um resultado de uma análise estatística, que se obtém somente após a aplicação de testes estatísticos sobre variáveis bem definidas, com correções estatísticas e tudo o mais. Baseado em que testes Dawkins fala de “estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%”? Qual estudo permitiu sacar essa estimativa, quais foram as variáveis analisadas, quais os testes empregados, como se chegou a essa “estimativa de probabilidade”? Como se alcança uma “estimativa de probabilidade” quando se trata de uma variável que é sobrenatural?
Falar em “estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%” simplesmente não tem qualquer fundamento estatístico. É um non sequitur.
Talvez tudo isso não passe de considerações terminológicas exageradas de alguém que, nos últimos anos, tem trabalhado bastante com pesquisa científica, muito preocupado com o rational dos estudos que lê e que já apanhou muito acerca de estatística em revisões de artigos.
Talvez.
Mas continuo achando que um cientista, ao escrever um livro para leigos, não precisa (e não deve) sacrificar a terminologia e a lógica científicas – até onde vão meus córtices temporais internos, Ernst Mayr, António Damásio e Jay Gould nunca o fizeram.
Continuo achando que Sagan estava coberto de razão ao escrever que “a ciência é mais do que um corpo de conhecimento, é um jeito de pensar”.
E eu continuo achando que um cientista deve ser bastante cioso dos termos e dos argumentos que emprega, mesmo – e sobretudo – em uma obra para leigos, sob pena de tornar menos credível aquilo que mais prezamos: o argumento científico.
PS: Uma nota que talvez só interesse a quem participou da discussão lá no Bule. Um debatedor propôs que uma maneira eficaz de demonstrar a inexistência de um dado deus seria uma análise estatística comparativa entre “Religião X” (“pessoas que seguem o deux X, sendo que tais pessoas vivem mais, têm menos doenças, têm uma vida mais “abençoada”, etc”) e a “Religião Y”, na qual “pessoas Y, que adoram o deus Y, ou que não adoram deus nenhum, têm doenças, vivem menos, e têm a vida menos “abençoada”. “Claramente daria para ver que o deus X existe”, disse o proponente.
É ululante que não “daria para ver que o deus X existe” a partir do estudo proposto. A proposição representa um estudo de design similar a um caso-controle retrospectivo (os grupos são separados segundo a presença ou não de um fator – no caso, a religião – e analisa-se retrospectivamente se há diferença no que diz respeito à ocorrência de um agravo). Os resultados de tal estudo seriam essencialmente descritivos e não explanatórios. E, ainda que se pudesse fazer uma correlação entre um dado observável (a ocorrência de doenças, por exemplo) e um agente sobrenatural, deve-se lembrar que não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre dois fenômenos que coexistem. Em todo estudo correlativo, cabe ao cientista intuir em qual sentido se dá a correlação observada, para depois propor uma pesquisa cujo design permita estabelecer um nexo causal (cronológico) entre as variáveis estudadas. Foi para contornar isso que se criou o modelo de cohorte (prospectivo), em que uma relação de causalidade entre variáveis pode ser explorada com mais rigor, pois os grupos de participantes são separados conforme a exposição a um fator supostamente causal e compara-se, no futuro, a incidência de agravos entre os grupos. E, mesmo em um estudo de cohorte fundamentado na proposta do debatedor, não se poderia estabelecer com fiabilidade qualquer noção da existência do sobrenatural – o que se poderia observar, na melhor das hipótese, é uma noção de causalidade entre práticas religiosas (variáveis observáveis) e a incidência de uma dada doença.