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“Não cessaremos nunca de explorar”

Há três anos, um pequeno texto inaugurava a Terceira Margem do Sena. Foram três anos em que me meti em discussões acaloradas e em que escrevi um punhado de besteiras aqui e blogosfera afora. 

Foram três anos em que, no contato com tantos blogueiros, confrontei-me com meus próprios preconceitos. Revi posições, deixei de lado algumas visões, reforcei outras, melhorei meus argumentos. Mas, sobretudo, foi um período em que encontrei pessoas incríveis, algumas das quais tive o prazer de conhecer ao vivo. 

Agradeço a todos os que, usando a blogosfera, contribuíram para que eu me tornasse uma pessoa com idéias e valores mais consistentes e mais nobres. 

Um grande agradecimento à Sandra, à Deborah, à Fran e ao Catatau, pelas conversas tão preciosas e amigas, nos blogs, nos emails e nos momentos em que nos encontramos, no Brasil ou na França. Um grande obrigado também ao Victor Barone, à Sílvia, ao Fernando, ao Gato Précambriano, ao Rafael, ao Zé Costa e ao Daniel Lopes (ainda vou lhe mandar os textos que lhe devo…). Muito obrigado ao André Egg, pela amizade dadivosa. Obrigado ao William e ao Maurício, pela leitura e pelos comentários aos meus textos. E um comovido obrigado ao Diego, amigo extraordinário e inestimável, por tudo. Obrigado a todos vocês, de coração: vocês fazem de mim uma pessoa melhor. 

Nesses últimos doze meses, houve três acontecimentos de proporções cósmicas: o primeiro foi o título do Mengão em 2009. Os outros, muito mais significativos e felizes, foram os nascimentos dos filhinhos do Fernando e do Rafael. Que nos próximos 12 meses haja mais novos papais corujas e mais títulos pro Mengão! 

Deixo-os na companhia de Elliot… 

“(…)
Com o impulso deste Amor e a voz deste Apelo
   Não cessaremos nunca de explorar
   E o fim de toda a nossa exploração
   Será chegar ao ponto de partida
   E o lugar reconhecer ainda
   Como da primeira vez que o vimos.
   Pela desconhecida, relembrada porta
   Quando o último palmo de terra
   Deixado a nós por descobrir
   Aquilo for que era o princípio.
   Nas vertentes do mais longo rio
   A voz da cascata escondida
   E as crianças na macieira
   Não percebidas porque não buscadas
   Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude
   Entre duas ondas do mar.
   Depressa agora, aqui, agora, sempre
        –  Uma condição de absoluta simplicidade
   (Cujo custo é nada menos que tudo)
   E tudo irá bem e toda
   Sorte de coisas irá bem
   Quando as línguas de flama estiverem
   Enrodilhadas no coroado nó de fogo
   E o fogo e a rosa forem um.”

T.S. Eliot (“Little Gidding”)

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O técnico e o governador

E Muricy Ramalho não aceitou o convite para ser técnico da seleção brasileira. O motivo? Porque ele tem um contrato com o Fluminense e porque ele preza muito os compromissos que assume.

Não é nada, não é nada, é muita coisa.

Em 2004, José Serra, então candidato a prefeito de São Paulo, disse que, se eleito, não deixaria a Prefeitura em 2006 para concorrer ao Governo do Estado ou à Presidência. Chegou a assinar um compromisso em cartório e, ao ser perguntado se deixaria o posto, usou termos fortes: “Só se Deus me tirar a vida. Só saio se houver uma desgraça que me envolva” (fonte: Folha de São Paulo).

Pois Serra ganhou aquelas eleições e, em 2006, no comando da maior cidade do país, desligou-se do cargo municipal e se candidatou ao governo estadual.

Desconfie de quem, para dar credibilidade à sua própria palavra, evoca situações grandiloqüentes (“só se Deus me tirar a vida”, “só se houver uma desgraça”). Duvide de quem lavra um documento em cartório para assegurar a própria palavra.

E dê crédito a homens que não precisam desses artifícios para que acreditemos neles. Homens como Muricy.

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“– Me conta aquela do Garrincha?”

Eram muitas, lindas histórias. Que construíram na minha mente infantil um imaginário de heróis, de pelejas épicas, de disputas conduzidas por homens cheios de valores nobres, como honra, dignidade, coragem. Que compunham um universo no qual eu adentrava ao dizer palavras simples, porém, mágicas: “conta mais uma, pai!”

E ele me contava, sabendo que eu me deliciava com cada uma daquelas epopéias do mais magnífico dos esportes, o futebol.

E, de todas, a que eu mais gostava de ouvir era aquela:

“– Conta de novo a final de 58, pai!”.

E ele me contava. Falava de como o Brasil tomou um gol logo no início da partida. Um gol já aos 4 minutos, o terrível fantasma de 50 que voltava às mentes dos jogadores, os suecos que jogavam em casa diante de uma torcida que delirava: uma pressão asfixiante sobre os brasileiros. E, então – essa era parte que eu mais gostava de ouvir – imediatamente depois do gol sofrido, Didi pega a bola debaixo do braço, caminha tranqüilamente até o meio de campo, e diz mansamente aos seus companheiros: “vamos virar esse negócio” (dá para ver a cena aos 2:48 do vídeo acima).

Hoje a cena do lendário Didi – que Nélson Rodrigues chamava de “O Príncipe Etíope” – me vem à mente quando penso no fracasso brasileiro na Copa sul-africana.

Faltou um Didi. Um cara que chamasse o time à serenidade após ter sofrido o primeiro gol dos holandeses. Um cara que dissesse algo do tipo: “está no começo do segundo tempo, a gente errou, não vamos errar de novo e vamos marcar outro gol. Vamos ganhar esse negócio.”

Antes da técnica apurada, da tática envolvente, o futebol é um jogo que se ganha nas mentes. As grandes equipes são aquelas que têm nervos titânicos, que sabem transformar raiva em agressividade produtiva, que dominam suas emoções, que têm frieza para suplantar o que o adversário tem de melhor. As grandes equipes da história foram as que tinham um caráter de aço.

O Uruguai de 50, liderado pelo grande Obdúlio, arrancou uma vitória épica após começar perdendo o jogo em um Maracanã ensandecido. A Itália de 82, que três vezes esteve em desvantagem* contra o time mágico de Zico, Sócrates e Falcão – e  mesmo assim nos superou três vezes. E há, é claro, os alemães, esse admirável povo de neurônios inoxidáveis: alemães que em 74 tomaram um gol a um minuto de jogo e que viraram a final para cima dos assombrosos holandeses; alemães que também derrubaram o então imbatível excrete húngaro de Puskas, em 1954, após estarem perdendo por 2 a zero (esse jogo virou um filme magnífico, “A batalha de Berna”). Diga-se o que quiser do time brasileiro de 94, mas era uma equipe que tinha completo domínio emocional: lidaram com o peso dos 24 anos sem título, venceram os EUA em um jogo complicadíssimo em pleno 4 de julho, despacharam a Holanda quando tudo parecia ir pro brejo após o empate holandês, derrubaram os italianos na roleta-russa dos pênaltis. Mesmo o Brasil de 70, cujo talento não se cansa de incensar, só ganhou porque tinha sangue frio: um time que tinha Félix no gol tinha que ter controle emocional… Quando Félix deu o primeiro gol para os uruguaios em plena semifinal, Pelé & Cia foram lá buscar a vitória. Antes, no tenso jogo anterior, contra os ingleses (seguramente a partida mais difícil daquele mundial), a Seleção já provara ser formada por atletas com domínio emocional absoluto, como bem o demonstra o único gol brasileiro (para mim, o mais lindo de todos os tempos): o gênio de Tostão lapida a jogada em gestos secos e exatos; Pelé, com aquela clarividência dos deuses que torna tudo simples, rola a bola para Jairzinho, que arremata com um golpe certeiro no único lugar fora do alcance daquele colosso chamado Gordon Banks. Um gol feito por homens de talento, de inteligência, mas também de muito autocontrole.

A Seleção de Dunga em momento algum demonstrou esse temperamento de aço que se exige dos campeões.

O regime imposto por Dunga à seleção não propiciava a formação de protagonistas aptos a lidarem com o adverso. Pelo contrário. A tiranocracia de Dunga foi uma estufa de despreparados irascíveis, como nas ditaduras políticas ou nos grupos religiosos de moralidade estrita e controle policialesco. A receita é conhecida: enfurnar jovens em comunidades fechadas, impor-lhes uma moral rígida e inquestionável, ensinar-lhes que divergências se resolvem com gritos e não com diálogo, isolar-lhes das “influências nocivas do mundo”, fazê-los aprender que se responde com intolerância a tudo o que se desvia do código daquele grupo. Tudo, é claro, sob o véu sagrado de palavras nobres, escritas com maiúsculas, devidamente precedidas de seus artigos definidos: “a” Verdade, “a” Coerência, “o” Grupo, “o” Plano, “o” Comprometimento.

A história político-religiosa mostra bem: a deificação da virtude engendra o ódio como reação mais fácil. Se os acontecimentos confortam a ideologia moralista, os jovens reagem com afabilidade… Mas basta algo sair do programa, para que o ódio venha à tona: repressão vira perversão – Haneke produziu um filme inesquecível sobre isso, A Fita Branca.

E o reflexo desse ambiente em que se forjou a Seleção de Dunga é que a cena mais comum do time nessa copa foi ver jogadores brasileiros berrando ensandecidos com árbitros e atletas rivais pelos motivos mais banais. Lúcio, “atleta de Cristo” e capitão do time, era o primeiro a se exasperar, em um redemoinho de destempero alucinado que tragou Robinho e Kaká: um time que só sabia lidar com a dificuldade na base da truculência, do berro, da intimidação. Caíram diante dos holandeses, esse povo que o puritanismo dunguista chamaria de depravado moral, mas que aprendeu a superar suas dificuldades com diálogo, tolerância e força solidária. Pois os holandeses, esses frouxos liberais, bateram os obedientes soldados dunguistas.

Dunga selecionou os mais subservientes, os mais “coerentes”. Entronizando a experiência e a submissão, Dunga montou uma equipe vetusta e sem brilho – tão diferente da melhor equipe desse Mundial, a Alemanha, com sua garotada que joga um futebol insolentemente bonito e que tomou cerveja no vestiário após sapecar os modorrentos ingleses. E, no final, os “experientes” de Dunga foram muito mais inexperientes do que a molecada germânica, pois fizeram uma Copa pautada pelo descontrole emocional…

O Brasil de Dunga é a antítese da nossa brasilidade, da nossa alegria besta, do nosso talento que explode no imprevisível, da espontaneidade de Ronaldinho Gaúcho, da cafajestagem de Romário. O Dunga é o anti-Garrincha. Garrincha, alcoólatra, de pernas tortas, o jogador que, para entrar em campo, tinha que ser arrancado da cama onde curava sua ressaca, o cara que fugiu da concentração na Suécia para se deitar com uma loiraça e fazer um filho por lá, o jogador que nem sabia o que era “coerência”, esse mantra dunguista – pois foi esse mesmo Garrincha que fez muito mais pela seleção do que todos os coerentes autômatos dunguistas.

Arre, chega de Dunga!

“– Pai, me conta aquela do Garrincha?”

* Antes que me corrijam: a Itália esteve sim três vezes em desvantagem contra o Brasil, porque o empate classificava os brasileiros. Para poderem passar, os italianos tiveram que desempatar três vezes: quando o jogo estava zero a zero, 1 a 1 e 2 e 2. A famosa cabeçada de Oscar, no final do jogo, salva por Zoff, empataria o jogo em 3 a 3 e eliminaria o time de Paolo Rossi.

PS: Um texto que já não é recente, mas que é imperdível: “Jesus, amor, etc”, de José Geraldo Couto (Folha de SP, 27/12/2007), que fala do suposto bom mocismo de Kaká. Não deixe de lê-lo.

 

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“Voltemos à teologia”

Yersinia pestis (foto: NIAD Biodefense Research)

 

Nos bancos de igrejas protestantes, já assisti a dezenas de horas de seminários, sermões e aulas sobre os primeiros capítulos do Gênesis, que narram a Criação. Em tudo o que ouvi, nada me causou uma impressão tão forte quanto as palavras de um professor que conduzia uma série de estudos sobre o tema. Ao ser perguntado sobre como ele situava o evolucionismo no relato bíblico, ele disse: “A teoria da evolução é uma teoria científica. A minha abordagem aqui é teológica, não é científica, e, por isso, prefiro me abster de falar sobre darwinismo e sobre os conhecimentos que a ciência produziu sobre a origem da vida e do universo. Não estou cientificamente preparado para esse debate e, por isso, abstenho-me de dar minha opinião sobre a evolução. Minha análise, repito, é teológica e não científica. Voltemos à teologia.”

Sim, um dos maiores exemplos de honestidade intelectual que presenciei não veio da academia, mas da escola bíblica dominical. A referência ganha amplitude ainda maior não somente porque o professor se recusou a falar daquilo que não dominava, mas também porque ele não enganou a audiência, dando-lhe a impressão de que emitia um parecer sobre evolucionismo com a mesma autoridade com que leciona teologia.

Desde as palavras daquele estudioso dedicado, de inteligência brilhante, eu nem sequer pisco quando alguém diz que “não aceita o evolucionismo porque acredita na Bíblia e que não há argumentos bíblicos a favor do evolucionismo”. Porém, se alguém diz que o Design Inteligente (DI) é uma teoria científica mais consistente do que o evolucionismo, aí sim eu tenho o direito de questionar o interlocutor.

Nem todos têm a sabedoria e a prudência daquele professor. Na verdade, trata-se de uma correção intelectual raríssima no meio evangélico. O Prof. Solano Portela * demonstrou que não é uma dessas raras vozes dotadas de ponderação intelectual quando o assunto é darwinismo. Em texto recente, no qual comenta a entrevista de Daniel Dennet à Folha de SP, o Prof. Portela – presbiteriano de inequívoca seriedade e autor calvinista de valor – cometeu uma série de equívocos ao abordar o tema “evolucionismo”.

Aqui cabe um parêntesis. Em discussões sobre a evolução versus DI, adeptos do último dizem que uma das táticas dos darwinistas é “chamar o debate para a ciência e eles se mostrarão ignorantes”. Não obstante o fato de que o debate sobre o darwinismo já está de antemão epistemologicamente situado na ciência, sem que ninguém precise aí colocá-lo, note-se que foi o próprio Prof. Portela quem, de livre e espontânea iniciativa, fez críticas “científicas” ao evolucionismo – ele, portanto, decidiu se imiscuir no debate científico.

Avant-propos

A primeira objeção não é propriamente de conteúdo científico, mas de estilo. O Prof. Portela, de escrita normalmente austera, produziu um texto deselegante, com um tom de irritação temperamental e depreciativa contra os alvos de suas críticas: “os ateus, coitadinhos”. Ficou parecendo um texto do Dawkins.

E talvez nada no seu texto atente tanto contra a sua própria habitual galhardia quanto o que ele escreveu ao se referir à analogia feita por Dennet, entre as discriminações sofridas por ateus e aquela sofrida por homossexuais:

“Não vou entrar no mérito da companhia que o Dennett escolheu para se identificar, cada um sabe a quem se comparar, mas (…) “

Aqui ele sugere claramente um desprezo moral por homossexuais, como se fosse indigno equivaler-se ao grupo, mesmo em uma comparação: revela-se a obtusa execração moral dos gays, que não cede mesmo com o crescente corpo de evidências que demonstram a importância de fatores biológicos na orientação sexual (aqui, ali e acolá).

Mas passemos à evolução.

Qual a contestação científica?

O Prof. Portela diz que a teoria de Darwin “vai ficando a cada dia mais difícil de ser sustentada, cientificamente.” Entretanto, ele não apresenta nenhuma evidência que dê crédito à sua afirmação e ao seu discurso de crítica científica ao evolucionismo.

Pelo contrário:

É constrangedor que um debatedor que pretenda convencer o leitor de que a evolução tenha poucas bases científicas diga, no seu arrazoado, que a Yersinia pestis seja um vírus.

Yersinia pestis é uma bactéria.

E o exemplo que ele cita, o do flagelo bacteriano, não é um ponto frágil na teoria darwiniana. Pelo contrário, a origem do flagelo é muito bem explicada pela evolução (recentes artigos científicos aqui e aqui e aqui). As supostas “complexidades irredutíveis” do flagelo bacteriano e do TTSS são inclusive desmontadas cientificamente por um cristão devoto: o cientista Kenneth Miller, no seu livro Finding Darwin’s God.

Pastores não podem ser cobrados em taxonomia de microorganismos, nem sobre a origem do flagelo. Contudo, se o Prof. Portela se põe voluntariamente a falar sobre esses assuntos, com o objetivo de criticar cientificamente o evolucionismo, ele tem que se preparar para tanto. E aqui ele mostra que não está preparado para a crítica científica do evolucionismo, da mesma forma que eu não estou qualificado para escrever sobre teologia calvinista: ninguém o está desqualificando, é ele mesmo quem está se desqualificando para essa discussão.

Segue o texto:

“Argumentando pelo Design Inteligente, à semelhança de Michael Behe e outros, ele  [Dr. Scott A. Minnich] aventa a possibilidade de que se Darwin possuísse esse conhecimento, talvez não tivesse apresentado sua teoria, que vai ficando a cada dia mais difícil de ser sustentada, cientificamente.”

Sugerir que “Darwin não teria proposto sua teoria se tivesse os recursos atuais” tem tanto sentido quanto dizer que, se Pedro Álvares Cabral tivesse um Boeing 747, ele teria desembarcado no Brasil não em precárias caravelas, mas no conforto de um avião. A História diz respeito ao que os homens fizeram com os instrumentos que tinham à sua época, no limite dos seus intelectos e do conhecimento de seu tempo, não ao que eles teriam feito se tivessem outros meios. Não cabem “ses”.

E o “se” aqui não cabe mesmo, de jeito nenhum, porque o conhecimento atual, longe de invalidar o darwinismo, consolida-o com evidências crescentemente robustas. Uma boa amostra disso está no dossiê especial da Nature, umas das revistas científicas mais rigorosas do mundo, com evidências da teoria darwiniana vindas de áreas tão distintas quanto a genética, a paleontologia e a bioquímica (pdf aqui).

Rigor metodológico e a suposta perseguição

O texto do Prof. Portela insiste em um ponto: o de que existe uma interdição a que se promovam pesquisas que não se adequem ao evolucionismo, como se houvesse uma inquisição contra pesquisas que não “se encaixam no molde politicamente correto da academia”.

É verdade que as agências estatais de fomento se recusam a financiar pesquisas em DI. O motivo, contudo, não é perseguição pura e simples. A recusa de financiamento é simplesmente porque o DI não preenche os critérios epistemológicos para que seja aceito como uma teoria científica. Qualquer projeto de pesquisa que inclua uma causa final na formulação de sua hipótese de trabalho, e que não lide com hipóteses falseáveis, é sistematicamente rejeitado. O cientista criacionista citado pelo Prof. Portela (Dr. Minnich) seria incapaz de mencionar um único artigo científico seu que tenha sido publicado em uma revista correta e que apresente hipóteses de trabalho não-falseáveis.

Não se trata de “politicamente correto”: é rigor metodológico. É por isso que não somente os projetos em DI são refutados, como também todo eventual projeto de pesquisa em cientologia, por exemplo. Se esse princípio for deixado de lado, criacionistas teriam que, por coerência metodológica, considerar também como “científico” um projeto de pesquisa que vise a estudar, por exemplo, a influência de espíritos malignos nas crises epilépticas.

Se os defensores do DI querem mesmo sustentar a tese da “perseguição” – como pretende Expelled, filme panfletário especialmente produzido com este propósito – eles têm que apontar um único projeto de pesquisa que tenha sido financiado e abraçado pelos cientistas e que tenha no cerne do seu embasamento teórico uma causa final, ou que trabalhe com uma hipótese não-falseável. Só configuraria “perseguição” se eles demonstrassem que houve um único projeto com essas premissas que tenha sido apoiado pela comunidade científica e pelas agências de fomento. Aí sim haveria discriminação ou perseguição. Aí sim eles poderiam dizer: “se eles foram apoiados, por que não nós?”

Pinceladas de epistemologia e uma mancada de Dawkins

A questão se situa, portanto, na definição epistemológica do que seja ciência. Criacionistas insistem que a definição epistemológica de ciência seja dogmática e hermética. Em certo sentido, definições servem para isso mesmo: para circunscrever um conceito e torná-lo operacional. Há, por exemplo, uma definição epistemológica, cara a pastores reformados como o Prof. Portela, do que seja “teologia calvinista”. Um dos princípios da teologia calvinista é o “Sola Scriptura”, no qual se incluiu também o princípio de que as Escrituras devem ser interpretadas à luz das próprias Escrituras. Uma afirmação teológica que se queira “calvinista” tem que respeitar esse princípio. Qualquer assertiva teológica que não derive desse princípio e que não seja resultado da aplicação desse pressuposto não pode ser epistemologicamente chamada de calvinista. Por isso, um calvinista reage prontamente diante de alguém que se reclame calvinista, mas que defenda a reencarnação sob o argumento de que a mesma pode ser biblicamente defendida, a partir da aplicação dos pressupostos epistêmicos calvinistas. Acontece que não é possível sustentar a reencarnação a partir de uma epistemologia calvinista, porque uma leitura que nega o princípio da Sola Scriptura não é calvinista, porque se trata de um princípio que faz parte da definição de calvinismo. Dizer-se calvinista, mas negar o princípio “Sola Scriptura” é um non sequitur. Que se defenda a reencarnação, mas chamar isso de teologia calvinista, não pode. Da mesma forma, considerar o DI como “ciência” é uma violação epistêmica dos princípios que definem o que seja ciência. É um non sequitur.

Não é científica nenhuma teoria que introduza no seu cerne um pressuposto como a interferência de uma agente sobrenatural. E, se criacionistas consideram esse pressuposto por demais “naturalista”, e que é limitado por não incluir a metafísica (sobrenatural), por que não se considerar outras metafísicas além da protestante?

Se se diz que a epistemologia de Khun-Popper nega a metafísica (sobrenatural), e que isso é um pressuposto que pode estar errado – no que concordo, do ponto de vista puramente lógico – pode-se dizer também que partir apenas de um pressuposto de uma metafísica bíblica também é um pressuposto que pode estar errado, porque existem outras metafísicas que deveriam ser consideradas.

Para sermos rigorosos, então, teríamos que considerar todas as cosmovisões. Pergunto: estariam os criacionistas dispostos a considerar cientificamente a interferência de outros agentes sobrenaturais além de Deus? Aceitariam que se financiem pesquisas para “provar” não somente que o Gênesis está certo, mas também para “provar” que outros textos sagrados também são exatos?

Não, a ciência não lida com o pressuposto de um agente sobrenatural, como ensina Stephen Jay Gould:

“Para dizer isso a todos os meus colegas pela zilhonésima vez: a ciência não pode, por seus métodos legítimos, julgar o tema sobre a possível superintendência de Deus na natureza. Não podemos afirmar nem negar isso; apenas não podemos comentar como cientistas. (…) A ciência só pode trabalhar com explicações naturalistas.”

Tão lamentável quanto perceber que o rigor epistemológico de Gould (amparado por Khun e Popper) não é assimilado por criacionistas, é ver que um expoente da ciência como Dawkins também viola os pressupostos epistêmicos do método que tanto defende, a ciência. Em seu “Deus, um delírio”, ele escreve:

“Ao contrário de Huxley, sugerirei que a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra. Mesmo sendo difícil de por à prova na prática, ela pertence à mesma categoria de ATP [agnosticismo temporário na prática], ou agnosticismo temporário, quanto as controvérsias sobre as extinções do Permiano e do Cretáceo. A existência ou inexistência de Deus é um fato científico sobre o universo, passível de ser descoberto por princípio, se não na prática.”

E assim Dawkins segue, chegando mesmo a dar como título de um capítulo: “Por que quase com certeza Deus não existe”. Afirmar que “a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra” revela um profundo e absolutamente ridículo desconhecimento filosófico de sua parte, a ponto de violar as fronteiras epistemológicas da ciência, o que é inadmissível em um cientista de seu nível. Se ele tivesse ao menos consultado o que a Wikipédia traz sobre Kant, ele veria o tamanho da bobagem em que se meteu (mas isso é outra estória, estou há tempos devendo uma resenha de “Deus, um delírio”, qualquer dia ela sai).

O fato é que é inaceitável que Dawkins ou criacionistas distorçam as fronteiras epistêmicas da ciência. Se criacionistas pretendem substituir a teoria da evolução por outro construto teórico científico, então há que se respeitar as definições epistêmicas do que seja uma teoria científica – e a causa final não faz parte dessas definições. A evolução certamente não explica todos os fenômenos biológicos relacionados à origem e ao desenvolvimento da vida na Terra. Mas o evolucionismo só será descartado quando houver outra teoria científica, falseável e testável, com significativo corpo de evidências a lhe dar sustentação empírica – e isso o DI simplesmente não fornece. E enquanto isso não ocorrer, de nada adianta o Prof. Portela reclamar que…

“Qualquer aluno de escola de primeiro grau sabe que a visão majoritária, no mundo da ciência é a evolucionista.”

… porque a educação nas escolas continuará a ser darwiniana, da mesma forma que ela é pasteuriana, copernicana, etc…

A ciência de maneira alguma fecha as portas para que ocorra uma revolução paradigmática (Khun) que derrube a teoria da evolução. Muitas teorias já foram substituídas na história da ciência. Mas a regra da ciência é clara: a derrubada só pode ser feita com ciência. Não há problema algum que haja “mais de 600 cientistas em todo o mundo que contestando a evolução”. Evolução não é dogma, pode ser contestada. Contudo, se eles quiserem mesmo derrubá-la, eles sabem como devem proceder: fazer experimentos, coligir evidências, elaborar uma teoria que atenda aos pré-requisitos da ciência, preparar artigos e defendê-los em congressos científicos.

Ateísmo e evolucionismo

Outra postura condenável no texto do Prof. Portela é o fato de vincular o ateísmo à aceitação do evolucionismo, como se um fosse decorrente do outro. Não é. O evolucionismo é aceito por pessoas de todas as crenças, inclusive por evangélicos como ele. Importantes cientistas como Asa Gray, Charles Walcott e Theodosius Dobzhansky eram cristãos sinceros e defendiam ferrenhamente o evolucionismo. Com a palavra, Francis Collins, brilhante geneticista e cristão piedoso, no seu “A linguagem de Deus”:

“(…) o processo de evolução e de seleção natural permitiu o desenvolvimento da diversidade biológica e da complexidade durante espaços de tempo muito vastos; (…) os humanos fazem parte do processo, partilhando um ancestral comum com os grandes símios”.

Poucas coisas dizem tanto sobre o caráter não-científico do criacionismo bíblico quanto o fato de que, para ser criacionista, é preciso, antes, ser cristão. O entendimento do criacionismo depende da assimilação pessoal de um estrito pressuposto religioso, definido pela Bíblia. A compreensão da evolução independe da fé e, por isso, há evolucionistas protestantes, católicos, muçulmanos, judeus…: pessoas que entendem perfeitamente a sabedoria das palavras daquele professor presbiteriano que tanto admiro:

– Voltemos à teologia.

  • Leia a ótima crítica do Gato Pré-Cambriano ao texto do Prof. Portela. Como bom felino, ele foi mais ágil do que eu e reagiu antes de mim.
  • Outro texto neste blog sobre o criacionismo está aqui.
  • Evidentemente, a caixa de comentários está aberta ao Prof. Portela.
  • The same for you, Dawkins. (Meu inglês pé-quebrado vai dar um nó na sua cabeça)

* O texto originalmente publicado continha um equívoco. O Prof. Portela não é um pastor reformado, apesar de ser um profundo conhecedor de teologia calvinista.  Ele é, na verdade, um presbítero (oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil). Agradeço ao Maurício por ter me indicado o erro. Ao longo do texto, substituiu-se “Rev. Portela”  por “Prof. Portela.”

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Ainda a boa velhinha: protestantismo e nazismo

Em uma discussão sobre um tema delicado, em que sua posição é duramente questionada – nem sempre com argumentos justos –,  é tremendamente reconfortante quando você encontra ao seu lado um argumentador honesto e consistente, com o qual há uma convergência, senão completa, ao menos importante nos pontos fundamentais.

Foi essa a sensação que tive ao ler “Pela alma do povo: omissões coletivas e bravuras individuais”, do excelente Paulo Brabo e seu A Bacia das Almas.

Brabo faz uma análise do livro For the soul of the people: Protestant protest against Hitler [Pela alma do povo: Protesto protestante contra Hitler], da historiadora Victoria Barnett.

O texto traz importantes elementos para que se entenda a relação entre a igreja protestante e o nazismo. Esse espinhoso tema foi abordado neste blog (“Uma boa velhinha”), em novembro último, e suscitou comentários acalorados, a favor e contra, aqui neste espaço e fora dele. Alguns blogueiros recomendaram a leitura, outros o criticaram (com destaque para o ótimo André Tavares, vale a pena lê-lo: “Batendo na meretriz”).

Aos interessados no assunto, recomendo efusivamente o texto de Brabo. Como aperitivo, destaco alguns trechos:

  • Sobre a postura geral dos protestantes
“O título do livro [For the soul of the people: Protestant protest against Hitler] é ao mesmo tempo enganador e significativo porque, como a autora vai deixando agonizantemente claro, não houve protesto protestante contra Hitler. Não na Alemanha nazista. Não quando era necessário. Não quando um protesto poderia fazer diferença. Não com qualquer ênfase ou visibilidade, não por parte de um grupo significativo e certamente não por parte da instituição como um todo.
O que houve, e disso a história fornece redentora e incômoda evidência, foi protesto individual de protestantes contra Hitler.”

 

  • Omissão e crença na instituição
“Na história como apresentada por Barnett é terrível constatar o tempo que perde, esperando alguma reação ou posicionamento da igreja formal, o punhado de pessoas realmente disposta a se levantar contra o regime – ou, talvez ainda mais importante, disposta a ajudar quem está sendo prejudicada por ele. Mesmo os militantes mais radicais da resistência protestante na Alemanha nazista demoraram anos até passarem a questionar a omissão do sistema eclesiástico em público e em privado; todos, mesmo os terrivelmente lúcidos como Bonhoeffer, simplesmente queriam que a instituição funcionasse. Muitos deles ficaram querendo até o último momento.”

 

  • O papel da instituição
“A verdade que esta parábola deixa evidente é que a instituição não existe para defender uma causa ou sua coerência ideológica interna, mas para garantir sua própria perpetuação – pelo que seu modo de operação mais fundamental é a cautela. Quando o governo nazista decretou que os judeus estavam a partir de determinado momento desclassificados para determinadas posições públicas e privadas, não ocorreu à igreja questionar esse julgamento, mesmo quando os que queriam comprovar a sua ascendência ariana recorreram em massa aos arquivos eclesiásticos, que detinham os registros de nascimento – e cujos responsáveis tiveram de trabalhar em dobro (e em alguns casos contratar assistentes e secretários) a fim de suprir a nova demanda de verificação racial gerada pelo estado.
Quando os judeus convertidos ao cristianismo se tornaram um embaraço inequívoco também dentro das igrejas, muitos sugeriram singelamente que uma solução amorosa seria que esses cristãos de origem “não-ariana” abrissem uma igreja só para eles, onde não representariam ameaça para outros além de si mesmos. Isso enquanto toda uma ala da igreja evangélica alemã, a dos chamados “Cristãos Germânicos”, propunha a sumária eliminação do Antigo Testamento de todas as Bíblias, de modo a sinalizar sem margem de dúvida o rompimento do cristianismo com a herança judaica.”

 

  • Sobre tradição protestante e atitude política
“O cerne do problema parece ter residido no fato de que, numa tradição que se estendia praticamente até Lutero, igreja e líderes eclesiásticos alemães haviam durante séculos sido incentivados a declarar mútua lealdade para com “o trono e o altar”. Nessa visão de mundo governo e igreja eram considerados sistemas independentes, mas unia-os um acordo tácito pelo qual um se comprometia a não interferir nos negócios do outro, e pelo qual ambos se comprometiam a fornecer ao outro legitimidade. Em outras palavras, a igreja não se sentia particularmente devedora a qualquer manifestação do Estado, mas sentia-se menos ainda inclinada a a interferir em negócios que diziam respeito a “outro domínio” que não o espiritual. Seu papel cristão era, muito declaradamente, pregar o evangelho e distribuir os sacramentos. Insurreição, resistência, desobediência civil – numa palavra, protesto – não desempenhavam qualquer papel no vocabulário prático da tradição protestante.”

 

  • Sobre o legado
“É algo ao mesmo tempo belo e terrível que a história do protesto protestante contra Hitler só tenha para contar omissões coletivas e bravuras individuais. A segunda metade do século XX e sua extensão no terceiro milênio são resultado sem escalas da experiência coletiva da Segunda Guerra, e sobreviver a ela ensinou-nos não só a questionar incessantemente qualquer ideologia (porque tememos outro Hitler), mas a duvidar da eficácia e da legitimidade de soluções intermediadas/institucionais.
Essa, no entanto, é uma lição de humildade que o terreno beligerante da tradição cristã irá até o último momento recusar-se a absorver. Prova disso é o que aconteceu logo depois – porque Barnett, para minha surpresa, não termina sua história com o final da guerra.”
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Perguntinha

Você confia em uma revista que diz que Henry “teria ajeitado” a bola com a mão, no lance do gol da França contra a Irlanda ?

Uma publicação que se refere ao episódio mais escandaloso do futebol mundial nos últimos tempos como se esse fosse algo discutível é capaz de publicar qualquer coisa.

Se a Veja não é cuidadosa com a verdade factual nem quando trata de uma cena vista e revista pelo planeta inteiro, como levar a sério seus artigos sobre política e antropologia ?

Atualização 2 de junho, 14:22h: A Veja mudou lá no site (não sei como está na edição impressa): pôs “depois de Henry ter ajeitado a bola com a mão”. Só não vi o “erramos”. Bonito, né?

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Da mentira como método

Vão dizer que é implicância de minha parte, que estou exagerando. Mas vamos lá. A “carta ao leitor” da Veja desta semana, intitulada “A riqueza sem culpa” (acima), começa com uma afirmação:

“ ‘É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus’, escreveu o evangelista Marcos”.

Na imagem que ilustra o editorial, um retrato sacro de São Marcos (o evangelista, não o goleiro), com os seguintes dizeres: “São Marcos, evangelista, e a condenação dos ricos: na estagnação, enriquecer é pecado; no crescimento, é virtude”.

Ora, a famosa advertência (“é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”) não é de São Marcos. Trata-se, sabemos todos, de uma reflexão cujo autor é Jesus Cristo e que foi registrada por Marcos no seu evangelho (10:25). Um leitor que desconhecesse completamente que o livro de Marcos é um registro da vida e dos sermões de Jesus, e que não soubesse que a frase  foi também registrada pelos evangelistas Mateus (19:24) e Lucas (18:24), naturalmente suporia que sua autoria é de Marcos, e não do Cristo. Atribuir a assertiva a Marcos seria como se eu tivesse escrito, digamos,  uma biografia de Vinícius de Moraes, e mais tarde a Veja publicasse: “Lelec escreveu: as feias que me desculpem, mas beleza é fundamental”.

Sim, claro, Lelec não é São Marcos, nem Vinícius é Jesus Cristo, mas o meu ponto é o seguinte: se a Veja não é exata nem quando cita Jesus Cristo, como esperar que o seja quando faz referência a um simples mortal? Se a Veja não prima pelo rigor nem quando menciona um texto acessível como o Evangelho, como é que podemos confiar quando cita artigos acadêmicos de antropologia?

Se, no editorial desta semana, a revista atribui a Marcos uma frase que não é dele, na reportagem “A farra da antropologia oportunista”, Veja faz exatamente o mesmo, mas com Eduardo Viveiros de Castro: atribui-lhe uma declaração, colocando-a entre aspas, como se a mesma tivesse sido afirmada diretamente aos repórteres da Abril:

” ‘Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente de cultura indígena original’, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.”

Eduardo Viveiros de Castro é um dos maiores antropólogos brasileiros (senão o maior). Goza de enorme prestígio internacional: lecionou em renomadas universidades estrangeiras, foi diretor de pesquisas no CNRS (Conseil National de la Recherche Scientifique) e presta consulta ao magnífico museu parisiense de artes primitivas, no Quai Branly.

Viveiros de Castro não deu entrevista aos jornalistas da Veja, nem jamais escreveu coisa semelhante ao publicado na revista, como reitera em carta enviada à Abril, e divulgada amplamente na internet (aqui, via NPTO):

“A matéria de Veja cita, entre aspas, duas frases que formam um argumento único, o qual jamais foi enunciado por mim. Cito, para memória, a atribuição imaginária: ‘Não basta dizer que é índio para se transformar em um deles. Só é índio quem nasce, cresce e vive num ambiente cultural original’. Com isso, a revista induz maliciosamente o leitor a pensar que (1) a declaração foi dada de viva voz aos repórteres; (2) ela reproduz literalmente algo que disse. Duas grosseiras inverdades.”

A Veja sequer publicou a contestação do antropólogo na seção de cartas dos leitores. Não pediu desculpas. Não reparou o erro. Não o fez porque, além de não querer, ela não consegue.

Não consegue porque dentro da Veja não há ninguém – ninguém – capaz de manter um debate sério sobre antropologia com Viveiros de Castro.

Não consegue porque a mentira é um método dessa publicação. Porque o diálogo é raso e, se alguém contesta o que publicam, logo aparece o Tio Rei para chamar de petralha e para acusar o interlocutor de delinqüência moral – é o que lhes sobra fazer: se não podem refutar o argumento, denigrem o argumentador.

O crime que a Veja cometeu não é discordar das posições antropológicas de Viveiros de Castro. É algo muito mais sério do que isso: é afirmar que ele disse uma coisa que ele jamais disse. Isso é mentira. Qualquer um pode discordar das teses de Viveiros de Castro, mas deturpar seu argumento é desonestidade intelectual da pior espécie.

O que está em discussão não é a visão que a revista tem das questões agrária e indigenista. É evidente que há muitos abusos na distribuição de terras a indígenas. Tampouco me simpatizo com as ações do MST, nem satanizo o agronegócio. Mas a Veja tem a obrigação de defender sua posição com dados consistentes, não com afirmações distorcidas. E não deveria usar o menosprezo nervosinho (típico do Tio Rei) como método de diálogo com quem dela discorda, como se fosse detentora de uma verdade inquestionável.

Na França, há três grandes jornais: o Libération (esquerda), o Monde (centro-esquerda) e o Figaro (direita). Em questões sensíveis (como a imigração), esses jornais são absolutamente discordantes. Mas a divergência se dá em argumentos, não em desonestidade; não se troca o justificar pelo rotular o interlocutor com etiquetas cheias de desprezo boçal. Um leitor do Figaro não diz que os jornalistas do Libé são analfabetos e delinqüentes morais, nem o assinante do Monde esperneia dizendo que o Figaro publica mentiras: os leitores discordam veementemente da perspectiva político-econômica, mas não colocam em xeque a idoneidade editorial do jornal de que discordam. É isso que enriquece o debate político-cultural. Isso é democracia. A Veja não está preparada, nem contribui, para esse tipo de jornalismo. Um cara como Reinaldo Azevedo só sobrevive em um ambiente em que não há uma revista semanal que tenha força editorial para fazer contraponto ideológico à Veja. Apenas em um país em que o debate político é rasteiro um livro como “O país dos petralhas” pode ser best-seller. Fosse na França, ou nos EUA, o melhor trabalho que restaria ao Tio Rei seria redigir o folhetinho da paróquia que ele freqüenta.

O NPTO lançou um repto: “nenhum acadêmico brasileiro, de nenhuma área, tem direito de dar entrevista para a Veja, ou colaborar com a revista de que forma seja, enquanto não houver um pedido de desculpas a Eduardo Viveiros de Castro”. NPTO tem razão. Que haja adesão imediata e irrestrita. Pena que a Regininha Poltergeist, em entrevista à Veja desta semana, tenha furado o pacto. Mas convenhamos: para o nível jornalístico da revista, uma intelectual do porte da Regininha está mais do que apropriado.

 

PS: Em um incompreensível atentado contra a excelência do seu coletivo Amálgama, o Daniel publicou este texto por  lá. Valeu, Daniel! 

     Por enquanto, a caixa de comentários de lá está mais movimentada do que aqui…

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Pedofilia em Roma: Tio Rei e Olavão, quem diriam, “petralharam”

Charge de Barrigue

Direito leitor, endireitada leitora, você que lê Olavo de Carvalho e que tem aí na sua cabeceira uma edição autografada d’ “O país dos petralhas”, solicito-lhe um pouco de sua atenção. Aliás, o que quero mesmo lhe pedir é um pouco da sua imaginação, para me ajudar a entender como seriam as reações do Olavão e do Reinaldo Azevedo diante da seguinte e hipotética situação.

Imagine que um órgão de imprensa revele que um militante petista abusou sexualmente de um menino, há muitos anos. Aliás, vamos supor que dezenas e dezenas de casos de pedofilia em diretórios do PT em todo o país sejam revelados pela imprensa. Suponha que o presidente do PT, ao invés de entregar os acusados à Justiça, decida apenas por nebulosos inquéritos internos. Imagine que a cúpula petista remaneje os acusados, transferindo-os de seus diretórios de origem para outros bem distantes, tudo para acobertar os criminosos.

Direitíssimo leitor, endireitadíssima leitora, pergunto-lhe: como o tio Rei e o Olavão reagiriam diante desses fatos?

Você sabe como eles reagiriam.

Acontece que a situação acima descrita não aconteceu no PT. Todos sabemos onde aconteceu (resumão aqui).

O mais revelador na reação do Olavo de Carvalho e do Reinaldo Azevedo diante dos escândalos na instituição que cegamente defendem é que eles reagem do mesmíssimo modo como (conforme eles insistem) os “petralhas” reagem a escândalos no PT. Querem ver?

Segundo o tio Rei e o Olavão, “petralhas”, quando apanhados em escândalos, reagem dizendo que “tudo é conspiração da mídia golpista”, como disse certa vez o tio Rei:

“Todos já esperávamos, claro!, essa gritaria de petistas. Afinal, a gente sabe: quando as acusações colhem seus adversários políticos, trata-se de uma questão de cidadania. Quanto os enrolados são os companheiros, tudo não passa de uma vil conspiração.” (fonte)

Aí vem o escândalo da pedofilia e o tio Rei diz:

“tenta-se arrastar o próprio papa para o centro do furacão: seu irmão, também sacerdote, teria protegido um padre pedófilo. E isso não vai acabar tão cedo. Aproveita-se a fragilidade da Igreja para tentar pôr a igreja de joelhos — diante do laicismo, não de Deus” (fonte)

Já o Olavão foi mais explícito:

“Chamar isso, como a mídia o chama, de “pedofilia epidêmica”, é evidentemente uma fraude, mas como pode a população percebê-lo se não tem acesso a outro critério comparativo senão aquele que lhe é fornecido pela própria mídia segundo o recorte de uma agenda politicamente interesseira?” (fonte)

“Não tenham dúvida: a Igreja é acusada e humilhada porque está inocente. Seus detratores a acusam porque são eles próprios os culpados.” (fonte)

Pois é, a Igreja é inocente, tão inocente quanto os menininhos “supostamente” violentados. Os padres pedófilos não existem, são uma invenção da mídia. Mutatis mutandis, Olavão emprega aqui o que o tio Rei chama de “esquema petralha para resolução de crises”.

Mas a retórica desonesta não fica por aí.

Segundo o tio Rei, “petralhas” não se preocupam muito em banir a safadeza do partido. Ao contrário, ficam felizes quando se descobre uma bandidagem alhures, para dizer, afinal, “que os outros também roubam”:

“O que é surto exultório”? É quando um petralha bate palminha de satisfação anunciando para o mundo: “Estão vendo? Não somos os únicos corruptos. Outros também são”. Eles acham que isso os torna pessoas mais decentes.” (fonte)

Só que o Olavo de Carvalho está fazendo a mesma coisa na questão da pedofilia dentro da Igreja Católica: longe de cobrar uma punição severa e exemplar aos padres molestadores, ele apenas diz que o problema da pedofilia é maior fora da Igreja do que dentro dela. Nem uma linhazinha para exigir a punição dos tarados:

“Em artigo recente, o sociólogo italiano Massimo Introvigne mostrou que, num período de várias décadas, apenas cem sacerdotes foram denunciados e condenados na Itália, enquanto seis mil professores de educação física sofriam condenação pelo mesmo delito. Introvigne citou os professores de educação física apenas como grupo-controle. Poderia ter mencionado dezenas de outros: no conjunto, os casos de padres pedófilos revelariam ser as raridades que são, contrastando dramaticamente com a disseminação alarmante do crime de pedofilia na sociedade em geral. (…)

Não há um só jornal ou grande revista, por exemplo, que gradue o destaque dado às denúncias de padres pedófilos pelo exame comparativo de casos similares em outros grupos sociais. Esse exame mostraria, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que o número de delitos é muito, muito menor entre padres católicos do que em qualquer outra comunidade humana, embora o destaque dado na mídia a esses casos induza a população a crer o contrário.” (fonte)

Eu pergunto: se estudos epidemiológicos revelarem que há efetivamente menos pedófilos entre padres do que entre professores de educação física, em quê isso eximiria a responsabilidade do Vaticano? Isso tornaria decente a maneira como o Vaticano lida com os pedófilos dentro da Igreja?

Ora, o que se exige de Roma não é um estudo epidemiológico, mas punição severa contra a depravação moral.

É incrível também que o tio Rei não se indigne com o fato da Igreja não enxotar padres pedófilos, mas de lhes dar “outra oportunidade” em outras paróquias — seria o de se esperar de um cara que critica o PT assim:

“Alguns pecadilhos, no PT, como os listados acima, não têm grande importância. (…) Como a gente nota, no PT, os que cometeram todos aqueles crimes, merecem uma segunda chance.” (fonte)

Por que diabos Reinaldo Azevedo, que usa sua verve histriônica para acusar os petralhas…

- O que me incomoda no PT é a moral que cria para si mesmo e a moral que defende para os outros — a exemplo de Dilma, anteontem, na festa dos mensaleiros do PT a atacar o mensalão de Arruda. (fonte)

… não se esforça nem um pouquinho para ser coerente com a postura da qual se arvora, a saber, a de baluarte da moral e do legalismo constitucional, a de paladino contra “o relativismo moral”? Por que não exige severa punição dos padres molestadores, tal como cobra de mensaleiros? Por que não mostra a mesma indignação nervosinha contra os molestadores sexuais? Cadê seus textos furibundos, acusando os padres pedófilos de “delinqüência moral”, como acusa petistas? Quando vai escrever cobrando a aplicação da lei nesse caso? É o próprio tio Rei  quem diz: “a melhor forma de ser exemplar é seguir a lei.” Estou de acordo: por que não aplicar a lei nesses tarados de batina?

Tio Rei e Olavão não vão cobrar a lei contra isso, porque encarnam aquilo de que eles mesmos acusam os “esquerdopatas”: são “relativistas morais”. Se fosse em qualquer outra instituição, ergueriam a voz, exigindo a lei e a punição, mas, como os acusados usam batina, aí muda de figura…

Nem na maneira de explicar a ocorrência da pedofilia no seio da Igreja, tio Rei e Olavão são originais. Dizer que é “um afastamento da doutrina ideal, que é essencialmente virtuosa” é recorrer à mesmíssima explicação que comunistas jurássicos dão para as barbaridades históricas do comunismo.

Tio Rei e Olavão provavelmente me incluiriam no Comando de Caça ao Crucifixo, dizendo que estou na turma dos que lutam para “acabar com o cristianismo e com as raízes da civilização ocidental.” Rotulam como anti-religiosos quem defende que escolas ensinem ciência (e não criacionismo), quem aponta o erro de uma declaração papal sobre preservativos, assim como o cientista que faz pesquisa com células tronco. E agora chamam de anti-religioso quem defende que maníacos pedófilos não devam ser acobertados, mas julgados e punidos. Quer dizer que assumir essas posturas e não se silenciar diante dessas barbaridades é ser anti-religioso e ir contra valores histórico-culturais do ocidente? É ser contra a essência do cristianismo? É ser anti-ocidental? É ser anti-católico?

A coprocefalia grave de Reinaldo e Olavo lhes impede de perceber que, ao lançarem essas acusações, eles estão afirmando como “valores ocidentais” e “cristãos” coisas como o obscurantismo anticientífico, o uso sistemático da mentira e o acobertamento de depravados sexuais. Não percebem que, enquanto forem coniventes com mentiras, crimes e guerra anti-ciência, contribuirão enormemente para que cada vez mais pessoas pensem que aquilo que o tio Rei escreveu sobre o PT:

“- O que me incomoda no PT, a despeito de seus “universitários”, é a apologia permanente da ignorância, do obscurantismo militante, da barbárie das ruas.

… se aplique, na verdade, a outra instituição, bem mais antiga e poderosa que qualquer partido brasileiro.

PS: Se você quer ouvir como o Olavão se auto-define, vá aqui (via NPTO). É impagável!

PS2: Ontem à noite, a sede d’O Pensador Selvagem, situada na lua florestal de Alderan, na galáxia de Cassiopéia, foi alvo de um covarde ataque perpetrado por rebeldes venusianos. Todos os blogs do condomínio (inclusive este) ficaram fora do ar durante algumas horas. Nosso cavaleiro jedi mor, Rafael Reinher, pegou sua nave X-Wing, foi até Alderan e botou todos os meliantes para correr, restituindo a paz e a acessibilidade no Universo. Somos todos gratos ao grande jedi Reinher. Que a força esteja seja com você, Rafael, e que você esteja sempre conosco para resolver nossos problemas.

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O Rio pede socorro. Ajude.

Fonte da foto: A Tarde

Quem já bisbilhotou este blog sabe que sou um estranho caso de mineiro nascido em Niterói.

 

Pois a cidade em que nasci está passando por um dos momentos mais terríveis de sua história, por causa das chuvas que assolaram o Estado do Rio e que deixaram mais de duas centenas de mortos e milhares de desabrigados. Há muita gente que perdeu tudo o que tinha.

 

Niterói e o Rio precisam de ajuda.

 

Contribua com o que lhe for possível. Há postos de doações nos supermercados do Grupo Pão de Açúcar e nas lojas da rede Walmart. Para que está no Estado do Rio, confira aqui os muitos pontos de doação espalhados pelo Estado. Para quem está longe, há a opção da contribuição por depósito bancário:

Prefeitura Municipal de Niterói (fonte)

caixa Econômica Federal, agência: 0174, Conta: 006-126/7

Bradesco, agência: 309, Conta corrente 12000-6

 

Viva Rio (fonte)

Banco do Brasil. Ag.: 1769-8. C/c.: 411396-9. CNPJ: 00343941/0001-28

 

Banco do Brasil – SOS Niterói (fonte)

Agência: 4767-8

Conta corrente: 50.000-3 -  em nome da Prefeitura Municipal de Niterói

 

Banco do Brasil – SOS Rio (fonte)

Agência: 2234-9

Conta corrente: 10.000-5 – em nome da Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil

 

Itaú-Unibanco / CARE Brasil (fonte)

Agência: 0170
Conta corrente: 74337-1
CNPJ: CARE Brasil – 04.180.646/0001-59

 

 

Ajude como puder. O Rio precisa muito de socorro.

 

PS: Visite o portal Projeto Enchentes (de onde parte das informações aqui exibidas foram extraídas), capitaneado por Alex Castro. Radicado em Nova Orleans, nos EUA, Alex estava lá quando o Katrina devastou a cidade. O drama do furação evidenciou algo que temos muito a aprender com os norte-americanos: a cultura da doação. Este texto do Alex é emblemático do espírito solidário que une os EUA em momentos de crise.

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Aê, Di Caprio

– Di Caprio, olhe só, ele fez um post pra você.

Di Caprio, cara, este post vai pra você. É para lhe dizer que foi mal aí e que, bem, eu estava errado a seu respeito. Redondamente enganado. Nunca o achei um ator de verdade, mas agora mudei de opinião. Sim, assumo: sempre o vi como um cara que as meninas acham bonitinho, que deu certo em Hollywood. Nada mais do que isso. O cara endinheirado que pegava a Giselle Bündchen e que andou saindo com aquele monumento chamado Bar Rafaeli.

Não que eu tivesse aversão a você e a seus filmes, longe disso. Apenas, para ser sincero, achava-o um ator no mesmo nível de qualquer pirralho de 7 anos que participa do teatrinho do colégio. Eu achava que você estava nos filmes apenas para atrair adolescentes histéricas e aumentar a renda do filme.

Convenhamos, você se arrepende daquela cena patética de “I am the king of the world!”, né? E ainda por cima com a música da Celine Dion. Na boa, Di Caprio, converse com poderosos, mobilize os atores, chantageie diretores, apele, sei lá, mas faça qualquer coisa para que se institua a pena de morte para o diretor que puser música da Celine Dion num filme.

Depois vieram outros filmes e as coisas foram melhorando pro seu lado. Passou a filmar com gente que sabe e gosta de cinema, como Spielberg, Sam Mendes, Riddley Scott e, é claro, Scorcese. Não filme mais com o Cameron. Você viu Avatar ? A Ju Dacoregio está certa: o negócio do Cameron não é cinema. O que ele queria mesmo fazer na vida era videogame pra Nintendo. Mas não conseguiu e foi ser diretor de cinema. Ele faria ótimos jogos eletrônicos – na medida em que um videogame pode ser ótimo, sei lá, tem gente que curte.

Teve aquele filme, o Agarre-me se puder. Ali eu gostei mesmo do seu desempenho. Você realmente deu autenticidade e credibilidade ao personagem, em um filme que é bem divertido. Mas, francamente, isso não lhe exigiu grande esforço interpretativo, né? Afinal, você fazia seu próprio papel: o bonitão esperto que engana todo mundo e ainda fica com um monte de garotas. De fato, achava que você era um pouco como o Brad Pitt: um ator que só funciona quando interpreta a si mesmo, quando não assume um personagem que não aquele da sua vida real. O Brad Pitt do último Tarantino, ou daquele dos irmãos Cohen, é perfeito: o binômio fortão-bobão. Já o Brad Pitt de Benjamin Button não me convenceu.

Veja, Di Caprio, sua participação no longa do Sam Mendes, Revolutionary Road. O filme é ótimo (e a Kate Winslet, hein?), a trama é boa, os diálogos fortes, e você se sai muitíssimo bem na primeira metade do filme: o jovem cheio de sonhos, que quer vir a Paris sem projeto profissional concreto, apenas para, sei lá, ficar vagabundeando pelos cafés. Aí vem a segunda metade e você é devorado pela atuação da Kate (‘tá bom, isso a gente desculpa): você tenta fazer o pai de família responsável, que ama os filhos, que pensa em estabilidade profissional, essas coisas que não colam na sua cara de colegial de 17 anos. Não dá. Sério, não dá.

Bom, mas tudo mudou nesse último filme do Scorcese. Que filmão, hein? A sua atuação foi excelente, e em um papel bastante difícil, que nada tem a ver com os meninos inconseqüentes e sonhadores que você tantas vezes protagonizou. Agora, seu personagem é sombrio, angustiado, ambíguo. E é justamente a ambigüidade que dá o tom do filme: uma ambigüidade na qual o espectador desliza e na qual será submerso.

Shutter Island se move na penumbra da indefinição, colocando o espectador na encruzilhada onde se achava a neuropsiquiatria em meados dos anos 1950 – o confronto entre a psicanálise e a farmacologia, entre a terapia cognitiva e a psicocirurgia. Um conflito que me acerta em cheio, no meu choque entre Damásio e Freud, entre a neuropsicologia experimental e a psicanálise: o cara que hesita entre os experimentos em ressonância magnética funcional e o escutar psicanalítico como as melhores maneiras de se entender a mente humana.

É interessante ver que os avanços das neurociências resolveram algumas questões problemáticas da psiquiatria dos anos 50 – a “lobotomia”, por exemplo, foi abandonada. Mas outros impasses persistem. E ainda vieram outros dilemas. Na medida em que são elucidadas as bases neurobiológicas da moralidade, da sexualidade, da afetividade, novos problemas éticos vêm à tona. Mais do que nunca, as ciências precisam voltar a dialogar com a filosofia, como era na Grécia antiga.

E essa necessidade de aproximação entre cientistas e pensadores foi bem ilustrada no diálogo que seu personagem trava com a psiquiatra na caverna (aliás, é muito simbólico que a conversa se dê em uma caverna). Talvez seja o clímax de ambigüidade do filme. O ápice de uma trama em que há muita verdade e pertinência nos discursos dos loucos, por mais delirantes que sejam; um filme em que a psicanálise, a farmacologia, e as neurociências vêem seus limites e méritos serem apontados, em um jogo de luzes e sombras.

Em tudo isso, Di Caprio, você se saiu muitíssimo bem, encarnando com propriedade todas essas indefinições, caminhando firme e sem titubear. Você sequer se intimidou em outro grande momento do filme, em que você se defrontou com ninguém menos do que Max Von Sydow. Quando o psiquiatra alemão (personagem de Sydow) lhe pergunta se você acreditava em Deus, você retruca, fulminante, como que possuído por Ivan Karamázov: “o senhor já esteve em um campo de concentração?”. Eis uma soberba homenagem de Scorcese a Bergman: Von Sydow, o cavaleiro que, n’O Sétimo Selo, vislumbrou o silêncio de Deus diante da Peste que dizimava a Europa medieval, agora, uma vez mais, se confronta com o mesmo silêncio, na lembrança do Holocausto. Mais karamazoviano, impossível (confesse, vai, essa do Scorcese você não tinha sacado).

Bom, é isso, Di Caprio. Parabéns mesmo pelo filme. Quando vier a Paris, dê um toque, eu lhe pago uma cerveja e a gente sela nossa amizade. Ah, e não se esqueça de trazer a Bar Rafaeli, quero muito conhecê-la… (Ai, Lelequinha, não belisca, é brincadeira…).

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