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De profundis…

Para que não percamos a fé na espécie humana e para que celebremos a virtuosa civilidade do debate político no Brasil, leiamos uma breve compilação de reações do mais elevado patamar moral após a triste notícia sobre a saúde do ex-presidente Lula.

Clique na figura abaixo para ampliá-la e poder ler as ínclitas reflexões, imbuídas do mais pungente humanismo. Essas pérolas de comovido lirismo foram extraídas daqui.

Acabou

Foi um embate duro e leal, uma luta renhida como aquela do pescador de Hemingway para subjugar o enorme peixe.

Mas, enfim, esta até ontem honorável universidade atentou contra seu próprio prestígio e resolveu me conceder o título de doutor em neurociências.

Agradeço comovidamente a todos os amigos do blog que me apoiaram nessa fase terrível.

Por ora, mais não falo porque, do alto deste meu everestizinho pessoal, falta-me oxigênio; sobram-me as lágrimas e um abissal e inelutável esgotamento.

O 31 de março e o braço do Tio Rei

Ô braço difícil de segurar, né tio Rei?

Uma das (muitas!) sacadas geniais de Kubrick em Dr. Strangelove é o braço direito do personagem homônimo, que, à revelia do comando deste, insiste reiteradamente em fazer a saudação nazista.*

O Tio Rei é assim. O bracinho direito está sempre lhe traindo, armando o gesto fascista, expondo-lhe a verdadeira vocação.

No último dia 28 de março, o braço se ergueu pra valer, impossível de passar despercebido: Tio Rei reproduziu – sem qualquer crítica – a íntegra da nota divulgada pelo Clube Militar, acerca da famigerada quartelada do 31 de março.

Entre outras coisas, diz a nota replicada pelo Tio Rei:

“Relembrá-los [os líderes militares do movimento de 1964], sem ódio ou rancor, é, no mínimo, uma obrigação em honra daqueles que, sem visar qualquer benefício em favor próprio, expuseram suas carreiras militares e até mesmo suas próprias vidas em defesa da democracia que hoje desfrutamos.”

Lembrem-se desse post apologista toda vez que o Tio Rei vier posar de paladino da democracia e de baluarte da legalidade constitucional, quando se inflamar em nome da resistência democrática, quando se erguer como defensor do Estado de direito, quando vociferar como opositor feroz de ditaduras, quando se indignar a favor da irrestrita liberdade de imprensa.

Pulha.

O Prof. Hariovaldo tem muito mais classe.

* Semelhantemente, o blogueiro não consegue conter o neurologista: o fenômeno em que o membro não obedece ao comando voluntário é bem conhecido na neurologia sob o nome síndrome da mão alienígena.

Tio Rei, ainda com cabelo, interpretando a si mesmo no filme de Kubrick.

httpv://www.youtube.com/watch?v=iesXUFOlWC0&feature=related

PS: Não deixem de ler a Homenagem aos presos políticos da ditadura argentina, no RS Urgente e o texto do João Villaverde:  Da ditadura.

Guia incompleto de leituras sobre Dawkins e adjacências

Em uma tentativa barata de ser captado pelos mecanismos de buscas do Google, de aproveitar a polêmica em torno de Dawkins e assim aumentar a audiência do blog Afim de promover uma profícua discussão em torno do livro de Dawkins e do atual debate acerca da influência da religião nos mais diversos setores da sociedade, como na educação e na política, deixo a seguir um panorama não-exaustivo de leituras que podem ser preciosas aos que se interessam pelo assunto.

Hélio Schwartsman defendeu o livro de Dawkins em duas colunas: “Santa Ilusão” e “Delírios Divinos”.

Marcelo Coelho (Folha de SP) tratou do livro à época do lançamento: “A ciência contra Deus” (aqui link para blog que reproduz seu texto). Ainda na Folha, Marcelo Gleiser se manifestou duas vezes: “Ateísmo radical” (aqui link para reprodução apócrifa) e “Ateísmo menos radical” (link apócrifo). Também na imprensa, Bárbara Axt escreveu “O aiatolá dos ateus”, na revista Superinteressante.

Sobre essa discussão acerca de ateísmo radical x moderado, o excelente texto do Daniel Lopes “O problema dos religiosos e ateus moderados com os ateus “radicais”” é importante e merece leitura atenta. Ainda nessa questão, Bruno Cava marca com brilho sua posição, como em  “Meu ateísmo radical: Sagan, Dawkins e Woody” e em “Ateísmo em si, causa desfocada”.

Os recentes posts do Alex Castro também valem a leitura: “Como Saber se Você É um Intolerante” e “Definindo Irreligião”.

E, para um pouco de bom humor nessa confusão toda, leiamos “Deus e o diabo”, do recém-aposentado Rafael Galvão.

Idelber Avelar faz sua resenha do livro  “Deus, um delírio”. E, aproveitando o embalo, leiam seu já clássico texto que tem tudo a ver com a polêmica lançada por Dawkins.

O NPTO, também conhecido como Celso de Barros, dedicou vários posts ao livro de Dawkins: introdução e, depois, um, dois, três, quatro, cinco e seis textos;  a bióloga Lúcia Malla também discorreu sobre o livro.

Aqui, n’O Pensador Selvagem, Dawkins foi amplamente discutido.

Começou com o Doni (no Facebook), depois veio o Biajoni (“Dawkins é necessário”), de novo o Doni (“Dawkins é necessário? Tanto quanto Stephenie Meyer”),  depois o Daniel Lopes (“Dawkins é necessário, pode acreditar”), o Doni novamente (“Dawkins é necessário? A questão é acreditar!”) e depois o André (“Mais um pitaco sobre Dawkins ou o ateísmo que desconhece a teologia”) e O Chato (“Um dólar furado para o debate sobre Dawkins”).

Ainda no OPS!, o assunto rendeu uma série de textos neste blog: o primeiro foi “Dawkins, o zagueirão” (que foi reproduzido no Bule Voador) e, depois, seguiram-se outros, que voltaram a alguns pontos suscitados na discussão do primeiro texto: pinceladas sobre os limites da ciência, os “estudos da reza”, os Magistérios Não-Interferentes e a importância de se discutir a definição epistêmica de ciência.

Não tem nenhuma citação a Dawkins, mas, nesse contexto em que se discute a doutrinamento infantil sob dogmas religiosos, o texto do Diego é imperdível “Vozes de uma noite feliz”.

A partir da discussão ocorrida no OPS, O Gato Precambriano também se manifestou: “O Resgate de Dawkins”. Não posso deixar de recomendar também outro ótimo texto do felino: “A Grande Conspiração dos Cientistas Malvados contra os Pobres Criacionistas” .

Carlos Magalhães participa do debate com dois posts: “Qual é o alvo de Deus, um delírio?” e “Ateísmo e Estado laico”; já Paulo Soares escreveu “O ateísmo voltou à blogosfera”.

Enfim, há muito o que se ler, mesmo as críticas de Olavo de Carvalho a Dawkins (“A guerra contras as religiões”, “O deus dos palpiteiros”).

Boas leituras. E fiquem à vontade para indicarem outros textos e blogs que tratem do assunto.

Últimos tostões sobre Dawkins (IV): I rest my case

Alguém lá no Bule, com bom humor e entrando no espírito da metáfora futebolística que propus, disse que eu estava exigindo demais para um zagueiro, que era como se eu cobrasse que o beque afastasse todas as bolas de bicicleta, com firulas sensacionais e outras cristianoronaldices.

Seria bom, é verdade, mas o que eu gostaria mesmo é de algo mais simples: é só um zagueiro que não domina a bola com a canela.

Não, eu não queria que “Deus, um delírio” fosse um artigo para a Nature ou uma tese de doutorado. O livro de Dawkins é criticável não quando é colocado ao lado dos papers da Science – mas quando comparado a outras publicações escritas por cientistas e destinadas ao público leigo, como os textos de Sagan, de Damásio e mesmo os livros anteriores de Dawkins. Porque, em “Deus, um delírio”, Dawkins reveste seu argumento principal de uma justificação científica que ele não tem.

Para alguns, o cerne da minha crítica – o fato de Dawkins tratar a existência de Deus como uma hipótese científica – é um preciosismo. Não é o caso, sobretudo porque estou longe, muito longe, de ser um fino conhecedor de epistemologia científica. Contudo, não é um preciosismo principalmente porque a discussão sobre os limites epistêmicos da ciência é uma questão urgente do nosso tempo.

Não apenas pelos criacionistas, que tentam equiparar o Design Inteligente à ciência.

Mas também porque diariamente há milhares de doentes que arriscam suas vidas em cirurgias espirituais.

Porque há médicos que ludibriam pacientes vendendo como científicas “terapias alternativas” que nada têm de científico e que põem em risco a saúde das pessoas.

Porque, entre os que levam a sério o que diz o astrólogo do jornal, estão milhões de diplomados em cursos científicos, da engenharia à biologia, da geologia à agronomia.

Porque, a cada vez que há um debate público sobre questões delicadas, como a interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, religiosos recorrem à falsa simetria entre o argumento científico e o religioso.

Não é à toa que assistimos a cientistas defendendo com unhas e dentes o criacionismo: as pessoas passam pela Universidade, se formam em carreiras científicas, alcançam títulos e posições de destaque no mercado e na sociedade, mas são incrivelmente vazias no que diz respeito ao pensamento crítico diante de enrolações pseudo-científicas, venham de onde vier. Já vi doutorandos em neurociência trocando conhecimentos e crenças em astrologia, em pleno laboratório de pesquisa.

Se cursos científicos, como medicina, odontologia, engenharia e tantos outros incluíssem em suas grades uma formação básica em filosofia da ciência, talvez pudéssemos reduzir o número de diplomados que se deixam enrolar por mistificações pseudo-científicas.

Por essas e outras, só tenho a elogiar blogs que discutem questões em filosofia da ciência, como o Laudas Críticas e ótimo Polegar Opositor, mantido pelo Thiago Henrique.

“Deus, um delírio” é um livro que embaralha os limites epistêmicos da ciência e, nesse ponto, é criticável. Embora respeite Dawkins pelo brilhante biólogo evolucionista que é e pelo seu vigoroso combate ao obscurantismo religioso, mantenho minhas reservas ao seu livro. Ou, como dizem os americanos, “I rest my case” (Gosto muito dessa expressão e sempre quis usá-la aqui no blog. Agradeço a oportunidade. Um beijo pra Lelequinha).

Mais uns tostões sobre Dawkins (IV): Os Magistérios Não-Interferentes

Se eu fosse um bom blogueiro, eu teria a brilhante capacidade de síntese do Celso de Barros. De certa forma, tudo o que irei argumentar a seguir está dito em uma frase curtinha lá no NPTO, na caixa de comentários de um dos seus textos:

“Nesse caso, o Dawkins peca não por ler mal teologia, mas por ler mal o Popper.”

A frase do Celso refere-se ao fato de Dawkins discordar da tese dos Magistérios Não-Interferentes (MNI) – princípio segundo o qual religião e ciência têm espaços de ação diferentes e se ocupam de questões distintas.

Nisso, Dawkins está errado, redondamente errado. Pela simples razão de que essa é uma vergonha que os criacionistas têm que passar sozinhos.

A primeira crítica a essa posição de Dawkins é de fundo: em “Deus, um delírio”, ele deixa no leitor a impressão de que a questão dos MNI é algo que se refere apenas ao atual debate entre cientistas e religiosos e, pior, que esse é um conceito caro apenas a criacionistas e a outros apologistas da religião: “O MNI só tem popularidade porque não há prova a favor da Hipótese de que Deus Existe. No momento em que houver a mínima sugestão de qualquer prova a favor da crença religiosa, os apologistas da religião não perderão tempo em defenestrar o MNI.”

Na verdade, não é nada disso. Além de ser ferrenhamente defendida também por autores não religiosos, a distinção epistêmica a que se refere os MNI não é “popular” apenas “porque não há prova de que Deus não existe” – ela está presente há muitos séculos na história da Filosofia e vai continuar existindo e sendo debatida ainda que todos os criacionistas do mundo se convençam do ridículo científico do Design Inteligente.

Os “MNI” referem-se a conceitos que antecedem em muito o fragoroso debate dos nossos dias e que antecedem até mesmo a Jay Gould, que cunhou a expressão. Muito antes de ser um imbróglio entre criacionistas e evolucionistas no século XXI, os limites epistêmicos da ciência são um tema antigo na filosofia ocidental. Remonta aos atomistas gregos, passa pelo empirismo baconiano, pelo racionalismo cartesiano, pela demarcação entre ciência e pseudo-ciência proposta por Popper e pela tese da incomensurabilidade de paradigmas proposta por Kuhn. E sem esquecer no meio do caminho a esplêndida frase de Laplace, quando perguntado por Napoleão por que não havia menção a Deus na sua Mecânica Celeste: “Não precisei desta hipótese.”

O sobrenatural que Laplace não considerou cientificamente, Dawkins não hesita em tratar pelo raciocínio científico:  “Por que não devemos comentar sobre Deus como cientistas? E por que o bule de Russell, ou o Monstro do Espaguete Voador, não são igualmente imunes ao ceticismo científico? Como argumentarei daqui a pouco, um universo com um superintendente criativo seria bem diferente de um universo sem esse superintendente. Por que não é uma questão científica?”

Pela simples razão de que Deus, o Dragão na Garagem e o Monstro do Espaguete Voador são sobrenaturais, indefiníveis em termos de tempo e espaço, não podem ser colocados em um tubo de ensaio, não podem ser vistos no microscópio nem no telescópio e nem deixam traços na eletroforese de proteínas. Ou, como explica March, citado por Popper n’A Lógica da Pesquisa Científica:

“Pode-se afirmar, talvez, sem temor de má interpretação… que, para o físico, um corpo só tem realidade no instante em que ele o observa. Naturalmente, ninguém toma posição tão extremada de asseverar que o corpo deixa de existir no momento em que lhe voltamos as costas; mas, nesse momento, ele efetivamente cessa de ser um objeto de investigação para o físico, porque deixa de haver possibilidade de afirmar, a respeito do corpo, qualquer coisa que se baseie em experimento.”

Dawkins alega que um universo sem um Criador seria essencialmente diferente de um universo com um Criador – o que não é sustentável como argumento lógico. O mundo com um Criador poderia ser exatamente igual ao universo em que vivemos, com evolução das espécies, eras glaciais, cometas e o Mengo batendo o Vice da Gama sistematicamente, bastando que o Onipotente decidisse não se deixar documentar pelos instrumentos científicos.

Dawkins avança dizendo que “A Hipótese de que Deus Existe sugere que a realidade em que vivemos também contém um agente sobrenatural que projetou o universo e – pelo menos em muitas versões da hipótese – o mantém, e até intervém com milagres, que são violações temporárias de suas leis grandiosas normalmente imutáveis.” (pág. 89) Mais à frente (pág 92), ele afirma: “Se confrontado com a história dos milagres, Gould provavelmente replicaria na linha da explicação que se segue. O grande ponto do MNI é que ele é uma barganha de duas vias. No momento em que a religião pisa no terreno da ciência e começar a bagunçar o mundo real com milagres, ela deixa de ser religião no sentido que Gould defende, e sua amicabilis concordia é rompida.”

Ao ler isso, um sinal de alerta se ativa em mim: sempre que alguém vem com esse papo de que “se fulano estivesse vivo, ele diria o seguinte: blá-blá-blá”, eu tenho certeza de que estão tentando me enrolar.

O argumento de Dawkins é que, se há um Deus que age interferindo nas leis naturais (os milagres) e, se a religião usa isso o tempo todo para se justificar junto aos fiéis, então esse Deus pode sim ser considerado pela ciência. Como se um Deus “que interfere” fosse menos sobrenatural que um Deus “que não interfere”, como se ambos fossem passíveis de experimentação científica…

Há um erro flagrante no arrazoado de Dawkins: o raciocínio científico não permite (nunca, jamais, em tempo algum) fazer qualquer inferência acerca do sobrenatural a partir de uma observação natural.

A ciência não considera que existam milagres (atos extraordinários de uma divindade), pois considera que todo fenômeno natural é passível de uma explicação naturalista. Contra esse princípio dos MNI, Dawkins diz que, seguindo-o fielmente, só haveria um Deus que não interfere na realidade, que não faz milagres e que esse ente pouco tem a ver com o Deus da crença comum: “Perceba, porém, que a religião sem milagres defendida por Gould não seria reconhecida pela maioria dos teístas praticantes nos bancos de igreja ou nos tapetes de oração.” E daí, né? Então se os religiosos mais estridentes fossem os wiccas e não os criacionistas, Dawkins proporia que, ao invés dos milagres, a ciência deveria se ocupar dos espíritos das florestas? Para que religiosos praticantes “reconheçam” sua religião nesse debate, o que mais, além dos milagres, a ciência deveria passar a considerar: a transmutação de almas, os demônios, a energia das pirâmides? E não é Gould que “defende” uma religião sem milagres. Gould apenas defendia que a ciência não considera a existência de milagres, no que está certíssimo. A ciência não deve  pautar sua investigação pelas assertivas religiosas acerca do sobrenatural, nem deve passar a considerar a existência de milagres apenas porque há religiosos barulhentos que o afirmem.

O que a religião chama de milagres, a ciência trata como eventos passíveis de uma causa naturalista. E, quando não se encontra uma explicação naturalista, a ciência simplesmente diz que mais pesquisas são necessárias. Se amanhã a Lua sair de sua órbita, se encostar na Terra e todo o gelo do Ártico sair voando em direção às crateras lunares, e humanos subitamente se virem dotados de visão de raios-X, ao mesmo tempo em que dinossauros saiam das Fossas Marianas, atravessem os oceanos e cheguem aos continentes, uma multidão ensurdecedora de religiosos gritará que o Armagedom chegou. Mas tenham certeza: os cientistas, dos geólogos aos biólogos, dos astrônomos aos médicos, ficarão entusiasmadíssimos com a empreitada de analisar todos esses fatos sob o crivo da ciência, de imaginar novos experimentos e de tentar dar a melhor explicação naturalista possível a cada um destes eventos. Curiosamente, Dawkins demonstra entender isso muito bem quando escreve corretamente:

“Jesus teve um pai humano, ou sua mãe era virgem na época de seu nascimento? Existiam ou não provas suficientes para decidir, trata-se de uma pergunta estritamente científica com uma resposta definida por princípio: sim ou não. Jesus ressucitou Lázaro dentre os mortos? Voltou ele mesmo à vida, depois de ser crucificado? Há uma resposta para cada pergunta dessas, possamos ou não descobrí-la na prática, e é uma resposta estritamente científica. Os métodos que deveríamos usar para solucionar a questão, na improvável hipótese de provas relevantes um dia se tornarem disponíveis, seriam métodos pura e inteiramente científicos”

Ao não considerar a existência de milagres a ciência está se chocando com a concepção teológica mais prevalente de Deus – a de um agente que interfere na natureza? Sem dúvida alguma que sim. Se para a ciência não há milagres, então sobraria um Deus “espinoziano”, ou uma concepção deísta? A resposta a essa pergunta não é uma questão científica, é teológica, que deve ser resolvida pelos teólogos e pelos fiéis na sua própria espiritualidade – Dawkins e os cientistas não têm nada que se ocupar com isso. Insistir que a ciência tem algo a dizer sobre isso é incorrer em um cientificismo positivista vazio e anódino.

Mas Dawkins não quer nem saber e vai em frente. Se já era questionável julgar como científica a hipótese de um Deus “que interfere”, ele mergulha de vez na inconsistência propondo “que mesmo um Deus não intervencionista, um Deus MNI, embora menos violento e desajeitado que um Deus abrâamico, ainda seja, quando se olha para ele com honestidade, uma hipótese científica” (pág 93).

Ora, se Dawkins sustenta que Deus é uma “hipótese científica como qualquer outra”, ele deveria ao menos propor um paradigma experimental que permita testar essa hipótese. Dawkins, é claro, não expõe esse paradigma em momento algum. Porque um tal paradigma é cientificamente inconcebível. Mesmo Sam Harris (que fez doutorado em neurociências), no seu interessantíssimo artigo publicado no Annals of Neurology (baita jornal), não coloca em momento algum a noção de se pretender testar cientificamente a (in)existência de Deus, mas de explorar as bases neurobiológicas da crença religiosa. Porque Harris, todo cientista e qualquer pesquisador sabe que se trata de uma hipótese não-falseável e que partir do natural e inferir qualquer coisa acerca do sobrenatural é dar um salto impossível no raciocínio científico. Se Dawkins defende mesmo que a existência de Deus é uma “hipótese científica como qualquer outra”, ele deveria escrever e submeter à Nature um artigo com um rational robusto (com referências da PNAS, da Science), propondo e testando um paradigma experimental que busque verificar a existência de Deus. E que depois nos dissesse o que o editor lhe respondeu…

Por que se ater a esse princípio naturalista na “hard science” é tão importante? Primeiro, porque foi esse método que trouxe as mais extraordinárias conquistas científicas. Segundo, porque é esse método que nos mune de conhecimentos científicos para refutar com propriedade a ladainha criacionista, despejando sobre ela todas as evidências que sustentam o argumento científico e expondo o ridículo científico da tese criacionista (ótimo texto do NPTO aqui). E, terceiro, e talvez o mais importante nessa discussão: porque se há uma coisa que os criacionistas defendem virulentamente, é exatamente isso: o “direito” epistêmico de inferirem o sobrenatural a partir do natural e de chamarem isso de ciência. É isso o que eles mais criticam: “a balela da suposta ciência objetiva”, como um criacionista me disse certa vez (será que ele confia em médicos e mecânicos de aviões que não seguem “a balela da ciência objetiva”?).

Por isso, se algum dia os editores da Science, da Nature ou do New England Journal of Medecine aceitarem um artigo científico que tenha no cerne de sua hipótese de trabalho um agente ou fenômeno não-natural, ou que faça qualquer inferência acerca do sobrenatural a partir de um fato natural, eu deixo minha barba crescer, largo minha esposa e minha família, troco de identidade, mando às favas meu temperamento conciliatório e fundo o Comando Revolucionário Steven Jay Gould, que vai seqüestrar editores de jornais científicos e sabotar laboratórios que se aventurem a pesquisar o sobrenatural. Hasta la victoria, siempre!

Mais uns tostões sobre Dawkins (III): Os “estudos da reza”

Teve gente que fez um CTRL/C+CTRL/V do livro de Dawkins e evocou os “estudos da reza” para dizer, “ ‘tá vendo?, teve um estudo científico que diz que Deus não existe!”‘tá vendo como a ciência pode testar a hipótese da existência de Deus? “

Isso merece um comentário bem detalhado, até para retificar e precisar algumas coisas que eu disse lá na discussão do Bule.

Há uma profusão de “estudos da reza”. Alguns estudos analisaram os efeitos da reza pessoal (quando o paciente reza por si mesmo) e, outros, os efeitos da prece intercessória (quando alguém reza pelo doente). E, na segunda categoria, há aqueles em que os pacientes sabiam que estavam orando por eles e outros, mais polêmicos, em que os pacientes não sabiam que havia alguém orando por eles.

Os primeiros estudos (exemplos aqui e aqui) são evidentemente menos interessantes para quem deseja especular acerca do sobrenatural. Nesses estudos, frise-se bem, a reza é um comportamento observável, mensurável como em qualquer estudo científico (quantas vezes a pessoa rezou, durante quanto tempo, etc). Nesses termos, o rezar é uma atividade cognitiva como qualquer outra;  é uma variável tanto quanto aquelas dos estudos que mostraram, por exemplo, que certas atividades cognitivas (tocar instrumento de música, falar outros idiomas…) protegem contra demência (aqui e aqui) ou que mostraram que pessoas que praticam a meditação têm maiores volumes do hipocampo e do córtex orbito-frontal direito. O rezar é uma variável observável de estudo, só isso.

Encontrar um suposto efeito positivo da prece sobre a saúde do paciente não seria inabordável por uma ciência naturalista, nem nos estudos em que o paciente ora por si mesmo, nem nas circunstâncias em que alguém ora pelo paciente na presença dele. Tanto em um, como no outro caso, muitas explicações neurocientíficas poderiam ser dadas sem evocar o sobrenatural.

Bem, mas os estudos mais polêmicos são aqueles em que os pacientes não sabem que estão orando por eles e é a um desses estudos que Dawkins faz referência no seu livro. Nesses estudos, evidentemente, as considerações acima não se aplicam. E aqui cabe uma retificação e umas desculpas: no calor da discussão lá no Bule, eu confundi os trabalhos, dando a entender que alguns dos argumentos acima valeriam para todos os “estudos da reza”, o que evidentemente não se aplica àqueles em que o pacientes não sabem que estão intercedendo por eles.

Um desses estudos é citado por Dawkins em seu livro. Tal estudo (Benson et al, 2006) incluiu 1832 pacientes e concluiu que a reza não tem efeito sobre indicadores de morbi-mortalidade de pacientes cardíacos. Esse estudo foi publicado em um jornal cujo impact factor é 4.36, o que não chega a ser grandes coisas.

Mas houve outros estudos sobre a reza e que dão resultados opostos aos propagandeados por Dawkins. Em um artigo científico, os revisores o obrigariam a citar tais artigos e a discutir o porquê das diferenças dos resultados. Como o livro de Dawkins não passou por uma peer-review, ele simplesmente os ignora e brande alegremente os resultados do estudo de Benson et al. Tomando emprestado um comentário do NPTO, “em um livro que se dirige ao público em geral, do qual não se pode supor que vá atrás da fonte original, isso não é uma manobra argumentativa válida. Isso é muito, muito grave.” Isso não é, enfim, uma atitude verdadeiramente científica: Dawkins deveria ao menos ter mencionado que houve estudos que mostram o contrário do que ele afirma panfletariamente.

Como, por exemplo, o trabalho de Leibovici (2001), publicado no respeitado British Medical Journal (IF bem alto: 13.66). O estudo analisou 3393 pacientes e mostrou que a reza “funciona” em pacientes com septicemia e, horror dos horrores, sugere que a prece deveria ser considerada na prática clínica. Houve também o estudo de Harris et al (1999), que também relatou efeitos favoráveis da reza na prática clínica.

Felizmente, um grupo (Roberts et al, 2009) resolveu fazer o serviço direito e realizou uma metanálise (metodologia bem rigorosa), retomando 10 estudos feitos na área, em um total de 7646 pacientes. Este estudo é posterior à publicação de “Deus, um delírio” e, portanto, ao contrário dos anteriores, não teria como ser citado. A conclusão dessa metanálise foi que os resultados são ambígüos e que não há evidências nem para que se recomende, nem para que se desaconselhe a prática da reza.

A conclusão “agnóstica” dos autores da metanálise é lindamente coerente com os pressupostos de uma ciência naturalista, ao dizer, trocando em miúdos, que tais estudos não têm sentido e que é melhor gastar dinheiro com ciência de verdade do que com especulações acerca do sobrenatural. Além do mais, isso só corrobora Gould: “Não podemos afirmar nem negar isso; apenas não podemos comentar como cientistas. (…) A ciência só pode trabalhar com explicações naturalistas.”

Os autores da metanálise têm total razão. Na verdade, antes de se lançar em qualquer pesquisa, um cientista deve se fazer a pergunta (senão alguém vai fazê-la em um congresso e, olha, dá pra passar uma vergonha grande): qual o rational deste estudo? Quais as bases, em termos de evidências científicas, que me permitem formular a hipótese que pretendo testar?

Os autores dos estudos da reza não se fizeram essa perguntas básicas. Não há rational científico que nos autorize a testar a hipótese de que a intercessão a um ser sobrenatural poderia melhorar o prognóstico de um paciente que não sabe que estão orando por ele. Quem achar que há um rational nisso, “please provide evidence”, como revisores de artigos gostam de escrever.

E, se um estudo não tem um rational robusto, ele não pode usado na argumentação de um cientista que se quer rigoroso. Dawkins diz que o estudo é “patético” (pág. 93) e que “a simples ideia de realizar tais experimentos está aberta a uma boa dose de ridículo” (pág. 95), mas não resiste à tentação de citar o artigo que lhe convém, mesmo sabendo que esse trabalho não tem base científica. Se o próprio Dawkins reconhece o non sense científico do estudo, por que ele o cita, vitorioso?  Isso lá é um jeito científico de se argumentar?

Mantenho o que disse antes: o que um cientista tem de mais precioso não são suas publicações, nem os prêmios que recebeu, nem os resultados de suas pesquisas; é seu rigor metodológico, a consistência epistêmica do seu método de investigação. Nada pode ser mais caro ao cientista do que isso.

Se um estudo não tem base científica, um cientista não deve usar seus resultados na sua argumentação, por mais que os resultados lhe convenham. Dawkins vende os resultados do estudo de Benson et al da mesma maneira que um religioso alardeia os resultados do estudo de Leibovici.

Assim como um cientista rigoroso vê de pronto que não há um rational a fundamentar os estudo da reza, ele não incorre em um erro tolo: entender que “os estudos da reza” estavam testando a ação de Deus.  Nesses “estudos da reza”, o que se analisou foi a influência do ato de rezar sobre a sobrevida do paciente, não uma suposta interferência divina. Os resultados dos estudos não permitem de maneira alguma deduzir se Deus existe ou não. Mesmo que todos os estudos mostrassem um incontestável efeito favorável da prece sobre o prognóstico dos pacientes, o máximo que um cientista poderia dizer seria algo do tipo: “Os resultados são inequívocos, há mesmo um efeito positivo, mas não sabemos explicar o porquê. Vamos ter que fazer novos estudos, talvez discutir os dados com os físicos, ver se podemos empregar novos métodos de abordagem. É uma lacuna, não vamos preenchê-la com o sobrenatural só porque não temos uma explicação natural.”

Aliás, Dawkins fala brilhantemente sobre essas lacunas (como eu gosto dele nessas horas!):

“Os criacionistas procuram avidamente uma lacuna no conhecimento ou na compreensão atuais. Se uma aparente lacuna é encontrada, assume-se que Deus, por padrão, deve preenchê-la. (…) Os místicos exultam com o mistério e querem que ele continue misterioso. Os cientistas exultam com o mistério por um motivo diferente: ele lhe dá o que fazer” (pág 171)

E, da mesma forma, se todos os estudos “da reza” fossem unânimes em demonstrar a ausência de efeitos da prece, o máximo que o método científico permitiria dizer seria: “os dados sugerem com alto grau de probabilidade que o ato de orar não favorece de modo algum o prognóstico dos pacientes.”

Mas dizer que esses dados demonstram que “Deus não existe”, seja lá em que probabilidade for, isso um cientista não pode dizer – e, a favor de Dawkins, sublinhe-se bem, diga-se que ele não afirma que esse tipo de estudo prova definitivamente que Deus não existe (apesar de alguns de seus leitores mais aficcionados não hesitarem nem um pouco em dar este salto).

Seja como for, a qualquer um que trabalha com ciência, é irritante ler Dawkins dizendo que “mesmo que a existência de Deus jamais seja comprovada ou descartada com certeza, as evidências existentes e o raciocínio podem criar um estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%.” [grifo meu]

Em ciência, “estimativa de probabilidade” é um resultado de uma análise estatística, que se obtém somente após a aplicação de testes estatísticos sobre variáveis bem definidas, com correções estatísticas e tudo o mais. Baseado em que testes Dawkins fala de “estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%”? Qual estudo permitiu sacar essa estimativa, quais foram as variáveis analisadas, quais os testes empregados, como se chegou a essa “estimativa de probabilidade”?  Como se alcança uma “estimativa de probabilidade” quando se trata de uma variável que é sobrenatural?

Falar em “estimativa de probabilidade que se afaste dos 50%” simplesmente não tem qualquer fundamento estatístico. É um non sequitur.

Talvez tudo isso não passe de considerações terminológicas exageradas de alguém que, nos últimos anos, tem trabalhado bastante com pesquisa científica, muito preocupado com o rational dos estudos que lê e que já apanhou muito acerca de estatística em revisões de artigos.

Talvez.

Mas continuo achando que um cientista, ao escrever um livro para leigos, não precisa (e não deve) sacrificar a terminologia e a lógica científicas – até onde vão meus córtices temporais internos, Ernst Mayr, António Damásio e Jay Gould nunca o fizeram.

Continuo achando que Sagan estava coberto de razão ao escrever que “a ciência é mais do que um corpo de conhecimento, é um jeito de pensar”.

E eu continuo achando que um cientista deve ser bastante cioso dos termos e dos argumentos que emprega, mesmo – e sobretudo – em uma obra para leigos, sob pena de tornar menos credível aquilo que mais prezamos: o argumento científico.

 

PS: Uma nota que talvez só interesse a quem participou da discussão lá no Bule. Um debatedor propôs que uma maneira eficaz de demonstrar a inexistência de um dado deus seria uma análise estatística comparativa entre “Religião X” (“pessoas que seguem o deux X, sendo que tais pessoas vivem mais, têm menos doenças, têm uma vida mais “abençoada”, etc”) e a “Religião Y”, na qual “pessoas Y, que adoram o deus Y, ou que não adoram deus nenhum, têm doenças, vivem menos, e têm a vida menos “abençoada”. “Claramente daria para ver que o deus X existe”, disse o proponente.

É ululante que não “daria para ver que o deus X existe” a partir do estudo proposto. A proposição representa um estudo de design similar a um caso-controle retrospectivo (os grupos são separados segundo a presença ou não de um fator –  no caso, a religião – e analisa-se retrospectivamente se há diferença no que diz respeito à ocorrência de um agravo). Os resultados de tal estudo seriam essencialmente descritivos e não explanatórios. E, ainda que se pudesse fazer uma correlação entre um dado observável (a ocorrência de doenças, por exemplo) e um agente sobrenatural, deve-se lembrar que não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre dois fenômenos que coexistem. Em todo estudo correlativo, cabe ao cientista intuir em qual sentido se dá a correlação observada, para depois propor uma pesquisa cujo design permita estabelecer um nexo causal (cronológico) entre as variáveis estudadas. Foi para contornar isso que se criou o modelo de cohorte (prospectivo), em que uma relação de causalidade entre variáveis pode ser explorada com mais rigor, pois os grupos de participantes são separados conforme a exposição a um fator supostamente causal e compara-se, no futuro, a incidência de agravos entre os grupos. E, mesmo em um estudo de cohorte fundamentado na proposta do debatedor, não se poderia estabelecer com fiabilidade qualquer noção da existência do sobrenatural – o que se poderia observar, na melhor das hipótese, é uma noção de causalidade entre práticas religiosas (variáveis observáveis) e a incidência de uma dada doença.

Mais uns tostões sobre Dawkins (II): “Yes, a ciência can!”

“Ocasionalmente, lemos uma declaração empolgada demais de que a ciência pode achar a solução para todos os nossos problemas. Todo bom cientista sabe que isso não é verdade. Algumas das limitações da ciência são práticas, enquanto outras são uma questão de princípio.” (Ernst Mayr, in Isto é Biologia)

O cerne da minha crítica ao livro de Dawkins está na proposta que ele faz: “sugerirei que a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra” (…) “a existência ou inexistência de Deus é um fato científico sobre o universo, passível de ser descoberto por princípio, se não na prática.” (pág. 79, edição da Cia das Letras), ou, ainda,  “sugiro que mesmo um Deus não intervencionista, um Deus MNI, embora menos violento e desajeitado que um Deus abrâamico, ainda seja, quando se olha para ele com honestidade, uma hipótese científica” (pág. 93).

Sustento que a proposta é um non sense científico, porque a ciência simplesmente não dispõe de meios epistêmicos e práticos para testar a existência ou a inexistência de Deus.

A partir dessa minha crítica, muitos “defensores” da ciência me viram como se eu fosse um detrator dela. Falaram-me das coisas incríveis que a ciência descobriu, dos avanços im-pres-sio-nan-tes que há 100 anos ninguém poderia imaginar, disseram que um dia haverá um novo método que vai “provar de vez” a farsa divina, que a ciência vai encurralando Deus progressivamente até o golpe final… Só faltou um “você viu a nova descoberta que passou no Fantástico no domingo?”, etc e tal.

Há nisso uma profunda incompreensão do que seja “ciência”* e o método científico. A começar pela expressão “a ciência prova” tal coisa. Na verdade, como lembra Mayr, não é “a ciência” que “faz”, são os cientistas que “fazem”, isso é uma metonímia. Mas, mais importante, a ciência nunca “prova” nada, na acepção de fazer uma demonstração definitiva e inapelável. As observações amealhadas pela ciência corroboram ou não um dado modelo teórico proposto a partir de observações anteriores. O máximo a que a ciência se permite é fazer previsões com alto grau de probabilidade, mas que sempre poderão ser colocadas em xeque por uma nova observação (aí acontecem as revoluções paradigmáticas de Kuhn…).**

Mas tergiverso.

Sim, a ciência faz mesmo grandes e incríveis coisas. Mas todas essas gigantescas realizações foram feitas no espaço de trabalho da ciência: o mundo natural, observável. Dentro desse escopo, é possível que se desenvolva um comprimidinho que cure de uma vez só o câncer, a AIDS e o Alzheimer, ou, quem sabe, um, sei lá, canhão protônico que permita o teletransporte. Ao menos epistemicamente, essas possíveis invenções “fantásticas” são plausíveis a partir dos métodos científicos. Mas há coisas que a ciência não pode, há questões que ela não tem como responder: qual a minha lembrança mais doce? Qual a personagem mais sensual de Nélson Rodrigues? Deus existe ou não? Todas essas são questões que não podem ser exploradas pelo método científico e que só podem ser respondidas evocando o gosto pessoal, a subjetividade, a fé, coisas que não têm nada a ver com o método científico.

Entendam um coisinha – e aqui me dirijo também aos pastores que gostam de falar lá do púlpito, com insuportável empáfia, que “a ciência não pode tudo”: a ciência não é nem 0,0001 micronanômetro menor por não poder responder a questões acerca do sobrenatural. A ciência não se propõe a isso, não quer nem saber disso, ela deixa essas questões para o astrólogo do jornal do bairro, para o criacionista da escola dominical ou para as apostilas do Mackenzie. É exatamente por isso é que a ciência é o colosso que é; é porque ela se recusa terminantemente a se meter no sobrenatural é que ela enche nossas vidas com as facilidades da tecnologia e que ela encanta nossos intelectos com o deslumbre diante do gênio científico.

 

 

 

* Definir “Ciência” não é tarefa das mais fáceis; para facilitar a comunicação, neste post e nos seguintes refiro-me à “hard science” (física, biologia, química, etc…)

 

** Duas abordagens sobre o “provar”: a primeira, um texto do Hélio Schwartsman.

     A segunda, a explicação de Maurício Tuffani a partir do partir do critério da falseabilidade proposto por Popper:

 

“Do ponto de vista estritamente lógico, ele [o critério da falseabilidade] se resume a verificar se um enunciado de primeira ordem (predicado que se aplica a objetos) é universal, ou seja, se ele tem a forma:

‘Para todo objeto ou fenômeno x, vale o predicado P(x)’.

Se o enunciado tem esse formato, ele é falseável. Ele se torna verdadeiro caso a caso, à medida que se identificam objetos x1, x2, x3, … xn que satisfazem ao predicado P(x). Mas não é possível dizer que ele é universalmente verdadeiro, pois isso exigiria testá-lo infinitamente. Ele não é, portanto, comprovado por x1, x2, x3,…xn, mas corroborado por esses n objetos. Sempre haverá a possibilidade de um objeto ou fenômeno para o qual não seja verdadeiro esse predicado.”

Mais uns tostões sobre Dawkins (I)

O texto anterior (“Dawkins, o zagueirão”), sobre Richard Dawkins e seu livro “Deus, um delírio”, gerou acalorado debate no Bule Voador, onde foi reproduzido com a devida citação (valeu, Alex!). Como em toda acirrada discussão, houve inevitáveis excessos (inclusive deste blogueiro), mas certas questões importantes foram levantadas a partir da obra de Dawkins. Considerando que alguns desses pontos merecem uma análise um pouco mais detalhada, os textos seguintes retomarão algumas das questões evocadas lá no Bule.

Os desdobramentos da publicação de “Deus, um delírio” ainda palpitam na blogosfera e serão em breve assunto em um dos mais importantes espaços de debate da internet brasileira, O Biscoito Fino e a Massa, como anunciou Idelber Avelar.

Em um tempo em que religiosos tentam legitimar o criacionismo como ciência e no rastro de uma campanha eleitoral que expôs claramente as perigosas e complexas relações entre religião e política na sociedade brasileira, a obra de Dawkins merece ser amplamente discutida.

Espero que o texto anterior, assim como os seguintes, contribuam um pouquinho para este necessário debate.

Dawkins, o zagueirão

Quem curte futebol vai entender o que quero dizer. É de encher os olhos ver a precisão de um zagueiro como Gamarra, a visão de jogo de um Mauro Galvão, ou a classe de um Luisinho. Mas há partidas em que esses não são os beques que têm que ser titulares. Porque nem sempre os rivais do outro lado são um Romário ou um Van Basten. Quando no outro time os atacantes são do naipe do Serginho Chulapa, o time precisa de um Ronaldão para bicar a bola para fora do estádio, ou de um xerifão como Baresi para não deixar o centroavante passar.

Dawkins é esse zagueirão. E, enquanto os centroavantes da religião forem os Pat Robertson da vida, a posição de titular é incontestavelmente do Dawkins.

Não dá para ser sutil com o atacante que quer emplacar gols que significam a lavagem cerebral infantil sob dogmas atrozes, o abuso sexual de crianças, a recusa de pesquisa com células-tronco, o ódio a homossexuais, a oposição à interrupção da gravidez de fetos anencéfalos, ou uma cafajestagem pseudo-científica chamada criacionismo. Entendam uma coisa: essa gente não entra em campo para jogar futebol; é como o atacante que simula pênalti, que empurra ao invés de driblar, que fica passando a mão na bunda do goleiro na hora do escanteio. Tem que ter um Passarela para isolar a bola e dizer pro atacante que por ali ele não vai passar de jeito nenhum.

Esse cara é o Dawkins.

Ou vocês queriam o quê? Colocar Stephen Hawking para discutir cosmologia com Adauto Lourenço? Convidar António Damásio para discutir as bases neurobiológicas da sexualidade humana com Júlio Severo? Promover um debate entre Umberto Eco e Silas Malafaia sobre Filosofia da Moral? Ou, talvez, organizar um colóquio entre Alan Badiou e Sarah Pallin sobre o papel da Igreja no Estado?

Quando os centroavantes forem Chesterton, Plantinga e Bonhoeffer, aí o Dawkins tem mesmo que ficar no banco e ver se aprende alguma coisa com uma zaga formada por Russel, Ehrman e Sartre. Mas, enquanto o ataque religioso vier de gente como o RR Soares, Dawkins é necessário, pode acreditar.

Essa contextualização é muito importante antes de qualquer crítica a “Deus, um delírio”, controverso título do biólogo inglês. É o próprio Dawkins quem esclarece, logo no início do livro, a quem acusa que ele “persegue oportunistas grosseiros e incendiários como Ted Haggard, Jerry Falwell e Pat Robertson, em vez de teólogos sofisticados como Tillich ou Bonhoeffer”: Se o predomínio fosse só dessa espécie sutil e amena de religiosidade, o mundo sem dúvida seria um lugar melhor, e eu teria escrito um outro livro”. Por isso, antes de dizer que Dawkins não é necessário, pense em ver o Pr. Piragine, todos os criacionistas e padres pedófilos jogando livres na área, sem marcação alguma. Não pode, gente. E não há ninguém com tanto fôlego e tenacidade quanto o Dawkins para não deixar essa turma encostar na bola. Não se deveria nem discutir: diante da malta que está do outro lado, é evidente que Dawkins é necessário.

Isso posto, a despeito dos centroavantes contra os quais ele se bate, Dawkins poderia – e deveria – ter evitado algumas botinadas de “Deus, um delírio”.

Sob alguns aspectos, “Deus, um delírio” é um livro tolo. Perpassa nas suas páginas uma busca de exaustividade que só os ingênuos cultivam, ainda mais em um tema complexo e multidisciplinar. É uma mal disfarçada tentativa de escrever “o” livro (ou “o” tratado) definitivo contra Deus e a religião. Dawkins não esconde que ele quer derrubar todo e qualquer argumento que sustente a ideia de Deus. Para tanto, ele ataca um a um os diversos sustentáculos de Deus e da religião: critica os argumentos teológicos, trata de Hitler e de Stálin, fala de história, cita trabalhos em neurociências, aborda a teodicéia, denuncia os crimes da Igreja, e, ufa, ataca o Design Inteligente. O problema é que Dawkins não é brilhante quando sai da sua área de excelência, a biologia evolutiva. Ninguém pode ser brilhante em tudo (e, se Dawkins assim o fosse, ele seria Deus, brincou Idelber).

Esse afã violento é algo absolutamente compreensível, quando nos lembramos de todas as patifarias que são feitas há mais de dois mil anos em nome da religião. Contudo, o que é realmente grave na volúpia desenfreada de Dawkins para derrubar Deus, é que ele comete uma barbaridade contra aquilo que ele mais preza: a ciência.

Dawkins dedica um capítulo de seu livro a “provar” cientificamente que Deus não existe (Cap. 4, “Por que quase com certeza Deus não existe”). No capítulo 2, intitulado “Por que quase com certeza Deus não existe” “A hipótese de que Deus existe”*, ele afirma que “a existência de Deus é uma hipótese científica como qualquer outra” e que “mesmo sendo difícil de por à prova na prática, ela pertence à mesma categoria de ATP [agnosticismo temporário na prática], ou agnosticismo temporário, quanto as controvérsias sobre as extinções do Permiano e do Cretáceo. A existência ou inexistência de Deus é um fato científico sobre o universo, passível de ser descoberto por princípio, se não na prática.” [Grifos meus ]

Tratar a existência de Deus como uma hipótese científica é um gravíssimo erro epistemológico. Tanto a hipótese da existência de Deus quanto a hipótese da não-existência de Deus não são falseáveis. A ciência, segundo os pressupostos de Kuhn e Popper, não lida com hipóteses que considerem um agente não-natural. A ciência não considera um fator que não pode ser definido nem circunscrito em termos de espaço e tempo – mesmo fora de uma concepção não-convencional de espaço/tempo, como na física quântica, lida-se com agentes naturais. O Deus cuja inexistência Dawkins quer provar é invisível, eterno, onipresente e não-natural, sendo, portanto, não redutível às características manipuláveis pela metodologia científica. A ciência não trabalha com agentes sobrenaturais, os quais não sejam passíveis de  se documentar nem pela observação direta (a olho nu ou não), nem, ao menos, pelos registros indiretos de sua ação/existência, de modo a inferir inequivocamente a existência de um agente com certos atributos como única hipótese para explicar um dado fenômeno natural. Stephen Jay Gould já deixara isso bem claro:

“Para dizer isso a todos os meus colegas pela zilhonésima vez: a ciência não pode, por seus métodos legítimos, julgar o tema sobre a possível superintendência de Deus na natureza. Não podemos afirmar nem negar isso; apenas não podemos comentar como cientistas. (…) A ciência só pode trabalhar com explicações naturalistas.”

Não há paradigma experimental que possibilite “comprovar” ou não a existência de Deus. E não haverá nunca porque, quando (e se) for registrado um agente que “criou” e que “governa” a natureza, esse ente terá um estatuto epistêmico tão “divino” quanto o dos hormônios tireoidianos que “governam” o nosso metabolismo.

Sobre os criacionistas, Dawkins diz: “Longe de respeitar a separação do terreno da ciência, os criacionistas gostam mesmo é de pisoteá-lo com suas botas sujas e com travas na sola.” É triste constatar, mas é verdade: ao violar os pressupostos epistêmicos da ciência, Dawkins iguala-se aos criacionistas, prestidigitadores hábeis quando se trata de tornar nebulosas as bases epistêmicas da ciência. O arrazoado de Dawkins para provar “Por que quase com certeza Deus não existe”, não tem o menor fundamento científico e não pode ser feito em bases científicas. O precedente aqui aberto serve inteiramente à causa criacionista: se, pelos meios da ciência, podemos tentar “provar” a inexistência de Deus, pode-se também tentar “provar” sua existência, ou tentar “provar” que Ele criou o mundo em 6 dias…

No seu desenfreado afã ateísta, Dawkins negligencia algo importantíssimo: o que um cientista tem de mais precioso não são suas publicações, nem os resultados de suas pesquisas: é seu rigor metodológico, a consistência epistêmica do seu método de investigação. Nada pode ser mais caro ao cientista do que isso. Desse modo, as perorações pseudo-científicas de Dawkins para afirmar “Por que quase com certeza Deus não existe” são um avilte à ciência. Quando a ciência passa a lidar com agentes não-naturais, ainda que em termos especulativos, como Dawkins propõe, ela deixa de ser ciência e se junta à astrologia, ao criacionismo/design inteligente e a outras charlatanices pseudo-científicas.

E, para além da epistemologia científica, vale lembrar, Kant já fez todo o trabalho pra gente: a existência ou a inexistência de Deus não podem ser demonstradas categórica ou irrefutavelmente.

Se Dawkins atropela aquilo que mais exalta, a ciência, não se pode esperar muito respeito de sua parte por algo que despreza, como a teologia. Ao abordar os argumentos teológicos da existência de Deus, Dawkins adota uma atitude simplificadora, reduzindo os argumentos teológicos a um punhado desconexo de justificativas vazias. Isso funciona para contestar arapucas pífias, como a aposta de Pascoal, mas, não funciona, por exemplo, para derrubar o conceito teológico de Deus em São Tomás de Aquino. Mesmo que o status epistêmico da teologia seja algo altamente criticável, se Dawkins deseja refutar os conceitos teológicos, a primeira coisa a fazer é estudar a fundo autores como, por exemplo, Santo Agostinho e São Tomás. E isso Dawkins visivelmente não fez (eu também não, que fique claro). E, se não fez, ele deveria ter se resguardado de atacar o conceito teológico de Deus. A noção teológica de Deus e o teísmo podem ser criticados à luz da teologia, mas, para tanto, tem que estudar. Se não estudou, não simplifique a coisa, porque isso é desonesto. Nas suas críticas teológicas, Dawkins aniquilou o conceito teológico de Deus tanto quanto alguém que pensa ter vencido um debate contra o evolucionismo com a máxima “a teoria da evolução é só uma teoria, não é uma lei”. Compreendo perfeitamente bem que estudiosos de teologia se irritem com a postura de Dawkins que, com suas infundadas críticas de quem é ignorante em teologia, pensa ter destruído o conceito teológico de Deus – eu também fico profundamente irritado quando um mané solta o lero-lero do 747 e sorri vitorioso, imaginando ter acabado com a teoria da evolução.

E a retórica de Dawkins tem momentos de pura antipatia, como quando compra a ideia de que ateus sejam chamados de “brights” (“brilhantes”), ou quando critica os teístas que são evolucionistas e que combatem o criacionismo – Dawkins não quer qualquer apoio de teístas, mesmo que evolucionistas, e se justifica com uma referência a Chamberlain, primeiro-ministro britânico que, no período entreguerras, adotou uma política conciliatória com Hitler. Esse ponto foi rebatido com justiça por Alister e Joanna McGrath no livro “O delírio de Dawkins”: comparar criacionistas a nazistas é mesmo apelação.

No fundo, o que “Deus, um delírio” mostra é que a crítica à religião e sobre seu papel na vida das pessoas e da sociedade é muito mais pertinente quando feito a partir de uma leitura filosófica, e não biológica. Dawkins faz o que pode na luta contra o obscurantismo religioso, e deve ser reconhecido por isso, mas colocá-lo para fazer uma contra-argumentação filosófico-teológica da questão é como colocar Garrincha para jogar de lateral-esquerdo. Por isso, acho muito mais consistente a abordagem de um Hitchens ou de um Umberto Eco.

Apesar das suas botinadas, “Deus, um delírio” tem momentos ótimos. O livro é repleto de citações excelentes e Dawkins se sai muito bem em diversas passagens. Explora com competência o problema da teodicéia. E, retomando narrativas bíblicas, ele faz uma crítica muito boa do tipo de moralidade que há nas Escrituras e detona a ideia de que uma leitura simbólico-metafórica resolveria os impasses morais (e científicos) presentes na Bíblia. Com linguagem fluida e uma retórica afiada, ele demonstra que nossa prática moral pouco depende da Bíblia – aí incluídos aqueles que dizem pautar sua vida única e exclusivamente pelas recomendações bíblicas.

O capítulo em que Dawkins aborda o doutrinamento religioso de crianças é magnífico. É forte, convincente, perturbador: é o ponto alto do livro, deixando na cabeça do leitor, seja ele teísta ou não, um profundo incômodo ante a lavagem cerebral que é feita nas mentes infantis em nome de religiões de todos os tipos.

E, é claro, Dawkins é, como sempre, primoroso na defesa do darwinismo e na crítica ao criacionismo, embora aqui ele seja menos brilhante do que o foi em “O relojoeiro cego”, que é realmente um livro excepcional.

“Deus, um delírio” é, enfim, um trabalho que representa de modo emblemático a maneira como tem se dado o debate sobre a existência de Deus e o papel da religião no ocidente pós-11 de setembro. Por mais redundante que seja dizê-lo, “Deus, um delírio” é, sobretudo, um livro de Dawkins: escrito com estridência, com deliciosas tiradas de humor ferino, com apelo à biologia e às neurociências e sem muita familiaridade com a filosofia. Ali podemos ver o zagueirão Dawkins fazendo o que sabe: jogar com vigor, alternar lances geniais com outros toscos e, sobretudo, chegar perto do alambrado, bater a mão no peito e inflamar a torcida apaixonada. Que receba os aplausos efusivos dos espectadores – são muito merecidos.


* As duas primeiras frases deste parágrafo foram modificadas no dia 14/02/2011:  O trecho de Dawkins citado no texto está no capítulo 2 (“A hipótese de que Deus existe”, na pág. 79 da edição da Cia das Letras), e não no capítulo 4 (“Por que quase com certeza Deus não existe”).  Peço desculpas pelo equívoco.