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Criacionistas de confusão

Angeli (Folha de São Paulo, 15/12/2008)

A propósito da barafunda sobre o ensino do criacionismo nas escolas, que agitou a internet nesse último mês, Reinaldo Azevedo (Darwin e Deus, 10/12/2008) escreveu :

“Prefiro assim: que, na aula de biologia, se faça a melhor exposição possível da teoria darwinista e também da concepção criacionista. Aliás, acredito que, NO QUE CONCERNE À FORMAÇÃO INTELECTUAL DOS ALUNOS [as maiúsculas são do próprio Reinaldo], isso poderia ser feito tanto nas escolas laicas como nas religiosas.”

Estou de inteiro acordo com o colunista. Afinal, a escola pode ser um espaço de doutrinamento, desde que seja o nosso, né Tio Rei? E não venham nos acusar de “obscurantistas” ou de “trevosos”. É verdadeiramente da mais alta relevância intelectual que o professor de Biologia faça uma explanação detalhada do criacionismo. Quem me dera eu tivesse tido a ventura dessa oportunidade nos meus anos colegiais. Teria sido uma valiosa ocasião para que fossem respondidas algumas dúvidas que criacionista algum jamais conseguiu me responder:

- Por qual mecanismo foi possível que já no primeiro dia da Criação houvesse luz (Gênesis 1:3), e as demarcações “tarde” e “manhã” (Gênesis 1:5), se o sol só foi criado no quarto dia (Gênesis 1:16) ?

- O que é exatamente a estrutura “firmamento” que faz separação entre águas e águas, entre águas debaixo do firmamento e as águas sobre o firmamento (Gênesis 1:6,7) ? Diz-se que se chama “céus” (Gênesis 1:8). Mas há tanto vapor d’água flutuando no ar que fica difícil imaginar uma separação entre águas acima do céu e abaixo do céu. Aparentemente, essa estrutura era mesmo tão complexa que demandou um dia inteiro de serviço do Criador.

- O Criador faz a relva, as árvores e as ervas no terceiro dia (Gênesis 1:11). O sol só seria criado no quarto dia (Gênesis 1:16). Como as plantinhas faziam fotossíntese na ausência de luz solar? Como elas se nutriam?

- Como explicar o versículo de Gênesis 2:5, que afirma que “não havia ainda nenhuma planta do campo na terra”, se as mesmas já haviam sido criadas, conforme Gênesis 1:11?

- O relato do Gênesis diz que todas as aves (1:21) foram criadas antes dos répteis e dos demais animais (1:24). Por que então nunca se encontrou sequer um único fóssil de ave que seja mais antigo do que o do anapsídeo (primeiro réptil)?

- A julgar por Gênesis 1:30, todos os animais da terra são herbívoros. Quer dizer que os crocodilos eram originalmente pacatos lagartinhos que comiam graminha? De minha parte, que sou um carnívoro inveterado, fico feliz por não ter vivido naquelas priscas eras.

- Deus trouxe diante de Adão todos os animais do campo e todas as aves do céu para que ele lhes desse um nome (Gênesis 2: 19-20). Até hoje estamos descobrindo novas espécies e as nomeando, sendo que, segundo a narrativa bíblica, Adão já as tinha nomeado todas. Por que Adão deixou um serviço incompleto? Isso pouparia o trabalho de abnegados biólogos que passam muito tempo de suas vidas embrenhados em matas, catalogando novos bichinhos… Mas eu entendo Adão: se eu estivesse sozinho com a Eva, naquele jardim tão bonito, a última coisa que eu faria era perder tempo dando nome para tudo quanto é criatura…

- Muita pesquisa tem sido feita sobre a replicação gênica e técnicas de clonagem, para fins terapêuticos (como produzir órgãos para transplante). Mas os resultados ainda estão longe de serem ótimos. Talvez devamos tentar uma técnica alternativa, que, segundo o relato de Gênesis 2: 21-23, é seguramente mais eficaz. Trata-se de empregar a costela masculina para criar outro ser, ao invés do DNA.

- Por que, na taxonomia divina, o morcego é classificado como “ave do céu” (Levítico 11:13-19)?

- Como eram os insetos de “quatro pés” (Levítico 11:20-21)? Que criaturas bizarras eram essas? Quando é que os insetos passaram a ter seis patas?

- Como couberam na Arca de Noé todas as espécies da Terra (Gênesis 6: 19,20)? Quanto tempo levou para que o ornitorrinco, um desengonçado mamífero australiano, chegasse até o Oriente Médio, onde Noé fizera a Arca? E o adorável bicho preguiça das matas brasileiras: em quanto tempo ele fez o percurso até Noé? Os dinossauros também entraram na Arca? Como Noé fez para impedir, durante mais de 300 dias e em um espaço exíguo, que os tigres e onças atacassem as galinhas e os cordeiros?

- A hipótese abaixo pode explicar o desaparecimento dos dinossauros?

Mas não é apenas na disciplina de Biologia que a proposta de Reinaldo Azevedo – e de outros criacionistas – representa um inefável valor intelectual. Abre-se um precioso precedente para que outras questões fundamentais sejam também abordadas:

- O professor de Matemática discorreria sobre a Numerologia, ao invés de ensinar equações, geometria e matrizes.

- Poderíamos acrescentar a Atlântida entre as regiões do mundo (Europa, Ásia, etc) a serem estudadas pela História e pela Geografia.

- As aulas de Física serão um espaço para que se debata a astrologia, quando se ensinarem as leis gravitacionais e a mecânica celeste.

- O professor de Química dará aos alunos um antigo problema dos alquimistas: como transformar metais em ouro?

- A cadeira de Filosofia abordará a Patafísica e o Humanitismo, do grande filósofo Quincas Borba.

- Quando forem dadas noções sobre a formação das rochas e dos minerais, o professor se encarregará de dar “a melhor explanação possível” sobre o poder dos cristais e das pedras.

- O já sobrecarregado professor de Biologia terá também que desenvolver o tema “Florais de Bach”, quando tratar da Botânica com os estudantes.

- Além de mestres do romantismo e do realismo, as aulas de literatura incluiriam o estudo de obras psicografadas. O currículo de Línguas poderia também ser adaptado para que se abordasse a gramática daquelas “línguas estranhas” que certos devotos falam quando estão em transe espiritual.

A atual discussão sobre o lugar do Criacionismo nas aulas de biologia em uma escola laica remete a uma polêmica na qual se lançou o poeta Bruno Tolentino, em 1996. À época, ele se indignou com o fato de que a escola de seu filho ensinava letras do Caetano Veloso como se fossem alta literatura. Tolentino, que passara 30 anos na Europa, assustou-se então com o ensino nas escolas brasileiras. Reinaldo Azevedo que, como eu, tanto aprecia a poesia de Tolentino, deveria reler a famosa entrevista a que o escritor concedeu à Veja e colocar as barbas de molho antes de propor que o criacionismo seja ensinado nas escolas brasileiras:

“Não posso educar filho em escola daqui. Foi minha mulher [a francesa Martine, neta do poeta René Chair] quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto.

A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business. (…)

Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais.

Ele [Caetano] está também virando tese de professores universitários. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show bizz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura. Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?”

Semelhantemente, é inadmissível que se permita a confusão entre criacionismo e Ciência na cabeça de uma criança. A Bíblia é o Livro da Fé dos cristãos. Ponto. Não é um livro de história. Não é um tratado de biologia ou de história natural.

E vale lembrar aos piedosos criacionistas: ensinar os dogmas do criacionismo é se chocar frontalmente com um precioso mandamento cristão. É aquele que está escrito em Êxodo 20:16 que diz: “Não dirás falso testemunho contra teu próximo”. Falando abertamente: não minta.

PS: Muitos falaram e estão falando sobre o debate “criacionismo na escola”. Tudo começou com a matéria de Marcelo Leite, que denunciou que o Instituto Presbiteriano Mackenzie está ensinando criacionismo a seus jovens, nas aulas de biologia. Depois dele, muitos se manifestaram: Christiano P. Neto (da Associação Brasileira para Pesquisa da Criação), Márcio Campos no seu Tubo de Ensaio e até mesmo o Tony Belotto.

Mas ninguém o fez melhor e com mais propriedade do que Maurício Tuffani, em dois textos( aqui e aqui).

17 Comentários on “Criacionistas de confusão”

  1. #1 Zé Costa
    on Dec 28th, 2008 at 00:14

    Exercitando a ironia, caro Lelec, Parabéns!

    Como já disse alhures, infeliz daquele que desperta sua verve demolidora, mesmo que essa pessoa seja um medalhão como o Reinaldo Azevedo.

    Quando eu dava aulas para crianças de 5a série, em escolas laicas, diga-se, mostrava para ela que havia duas teorias sobre a origem da humanidade. Uma baseada no evolucionismo e a outra no criaciosnismo. Procurava, dentro de minhas limitações e das limitações dos pequenos, elencar os principais presupostos de cada uma, mas, SEMPRE, eles me perguntavam: “o senhor concorda com qual, professor?”

    Tentava explicar que como cristão eu não admitia um mundo sem Deus e que portanto, tudo o que existe na natureza que não era obra do engenho humano, só podia ser obra de Deus. Que a ciência, por mais que avance, sempre chegará num ponto onde, sem admitir Deus, não prosseguirá mais.

    Por outro lado, dizia eu aos pequenos, as descobertas científicas tem parâmetros, métodos, regras e que rejeitá-las a priori era sinal de ignorância.

    Os alunos, atentos tanto quanto alunos de 5a série podem ser, insistiam: “o senhor, professor, concorda com qual?”

  2. #2 Lelec
    on Jan 4th, 2009 at 07:43

    Olá Zé,

    Muito obrigado pela sua leitura e pelo comentário.

    Imagino que você deva mesmo ter passado por uma situação delicada. Não deve ser fácil.

    Na minha opinião, o professor (seja de História, Biologia ou o que for) deve sempre apresentar as teorias que são respaldadas pela ciência, ou seja, teorias que estejam fundamentadas em premissas falseáveis e não contingentes (ver Russel, Thomas Khun e Karl Popper). As explicações oriundas da religião não preenchem esses critérios.

    Entendo que seja natural que os alunos lancem perguntas, por exemplo, sobre o criacionismo. Nesse caso, o professor deve ser rigoroso e expor porque o criacionismo não é ciência, mas religião. E religião é assunto de foro íntimo.

    Mas essa é uma discussão que vai longe…

    Abraço e feliz 2009 para você e sua família!

    Lelec

  3. #3 Silvia
    on Jan 5th, 2009 at 12:10

    O livro A Gênese de Allan Kardec traz a explicação com a qual eu concordo e que é impossível resumir em poucas palavras. Bjs e feliz 2009!!!!

  4. #4 Lelec
    on Jan 6th, 2009 at 12:40

    Olá Sílvia,

    Obrigado pela visita e pelo comentário.

    Gostaria de conhecer a visão kardecista sobre a origem da vida na Terra. Seria muito legal se você a explicasse, seja aqui ou lá no seu blog.

    Beijo e feliz 2009 para você e toda sua família!

    Lelec

  5. #5 Fernando Sampaio
    on Jan 8th, 2009 at 17:48

    Este é um diálogo de cegos e surdos…

    Que se ensine criacionismo na aula de religião (as escolas religiosas) e evolucionismo na aula de biologia, deixando bem claro o que é mito e o que é comprovadamente ciência.

    E cada um no seu quadrado.

    Agora Deus deve ter criado o ornitorrinco enquanto dava um espirro, puta bicho sem jeito aquele.

  6. #6 Fernando Sampaio
    on Jan 8th, 2009 at 17:51

    Ah vale a pena ler Joseph Campbell também.

    Ele fala de como os mitos são importantes em nossas vidas.

  7. #7 osrevni
    on Jan 15th, 2009 at 22:22

    Léo, demolidor como sempre.

    Sobre religião ser questão de foro íntimo… sei não. Religião sempre foi e sempre será um fenômeno social. Aliás, está na etimologia da palavra: religio é o ato de renovar a ligação com os antepassados. Esse é um dos motivos pelos quais o multiculturalismo é de tão difícil implantação: exige mesmo do mais religioso dos membros de uma sociedade que, a partir de um certo ponto, ele pise fora de sua crença e estabeleça em outras bases o fundamento da sociedade.

    Aliás, é interessante notar que só muito recentemente alguns teóricos políticos conseguiram estabelecer suas teorias em bases que não mencionem Deus (ou deuses). E olha que muitos tentaram, desde os gregos até Montesquieu, Hobbes e Rousseau.

    O que faz a força e o terror das religiões monoteístas é justamente seu caráter exclusivista… enquanto os romanos falavam de “nossos deuses” e “deuses dos bárbaros”, que muitas vezes acabavam se absorvendo mutuamente, o cristão e o muçulmano falam em Deus, exclusivo e, segundo um trecho do Antigo Testamento que você saberá citar melhor do que eu, “ciumento”. Eis por que essas religiões se expandiram tanto, eis por que elas brigaram tanto.

    O ensino do criacionismo nas escolas poderia ser ensinado com duas frases: “Algumas religiões acreditam que o mundo foi criado diretamente por Deus. Se você for membro de uma dessas religiões, pergunte a seu sacerdote.”

    Abraço

    Diego

  8. #8 Lelec
    on Jan 18th, 2009 at 15:52

    Olá…
    Fernando: Desculpe-me a petulância, mas não acho que isso se trate de um diálogo entre cegos e surdos, mas entre aqueles que enxergam e aqueles que não enxergam (e que ainda querem cegar os outros também).

    Concordo que precisamos conhecer muito bem nossos mitos. Não dá para entender a arte e a literatura ocidentais sem ter lido a Bíblia.

    Quanto a Campbell, seu trabalho é mesmo interessantíssimo, tendo servido de ponto de partida para que George Lucas concebesse a saga mítica de Star Wars. Abraço!

    Diego: Muito obrigado pela sua visita e pelo comentário!

    Sempre entendi (porque assim me ensinaram) que “religio” era religar-se a Deus, visto que a comunhão edênica havia sido quebrada no pecado original. Jesus seria, então, o “religare” divino, para reestabelecer a comunhão com Deus.

    Mas sua leitura de “religar-se aos antepassados” é absolutamente pertinente e explica muito da força da religião.

    Gostaria que você desenvolvesse o processo de como os filósofos conseguiram passar a formular suas ideias na ética e na política, contornando Deus (acho que isso mereceria um texto lá no seu blog…).

    Ah, adorei: “Algumas religiões acreditam que o mundo foi criado diretamente por Deus. Se você for membro de uma dessas religiões, pergunte a seu sacerdote.”

    Abraço, mon ami!

  9. #9 Blogildo
    on Feb 11th, 2009 at 07:28

    Não leve o Gênesis ao pé da letra! Ele não foi escrito para ser usado em aulas de Biologia como bem observou você e o Reinaldo.

    Mas também não é o caso de descartá-lo. A maioria dos grandes cientistas do passado acreditavam no Gênesis. E, até onde posso ver, isso não atrapalhou-os em nada.

  10. #10 Lelec
    on Mar 2nd, 2009 at 18:20

    Olá Blogildo, muito obrigado pela visita. Volte sempre!

    Não sou eu quem leva o Gênesis ao pé da letra. São os criacionistas.

    Não considero o Gênesis um tratado de história natural, mas isso não significa que eu o descarto. O Gênesis é um importantíssimo texto literário e fonte de inspiração para bilhões de judeus e cristãos do mundo todo. Não se pode descartá-lo, até porque isso prejudicaria nosso entendimento do mundo em que vivemos.

    Quanto aos cientistas do passado, muitos acreditavam mesmo no Gênesis. Isso mudou desde Darwin. Uma pesquisa em 1998 mostrou que menos de 8% dos membros da Academia Americana de Ciências criam em Deus. A maioria dos cientistas hoje é formada por ateus ou agnósticos.

    Abraço e volte sempre.

  11. #11 Francisco Razzo
    on Jul 28th, 2009 at 20:16

    Caro Lelec.

    Como você já percebeu sou Cristão Católico, e me considero até bastante “conservador” e “tradicionalista”.

    De qualquer maneira, gostaria de dizer que achei teu texto sobre Criacionismo bastante pertinente. Há uma confusão muito grande mesmo diante desse tema e nem todos os cristãos – longe disso – endossam o debate dessa forma.

    Quando se fala em “criação” no contexto da fé cristã – inclusive se fundamentarmos o assunto só pelo livro do Gênesis – jamais poderíamos falar de livro de ciência natural, nem Sto Agostinho, um dos maiores filósofos cristão, jogou a coisa por esse prisma. Para se ter uma idéia o termo “criacionismo” não aparece nenhuma única fez no Catecismo da Igreja Católica.

    http://www.catequista.net/catecismo/

    E muito menos no “Credo”:

    “Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, factorem caeli et terrae, visibilium omnium et invisibilium.”

    Cremos em um único Deus, Pai todo-poderoso, CRIADOR do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis.

    A palavra “criador” não está no texto original. No entanto, é a idéia de “criação” que está implícita no “todo poderoso”, e por isso, só por isso, o problema é teológico-filosófico!

    Como você mesmo observou, o conceito de criação está longe de ser um conceito biológico, mas é um conceito metafísico, filosófico e, sobretudo, teológico! Incauto aquele que faz da Bíblia um livro de ciências naturais! Insistir nisso é uma tolice descabida!

    Olha que diz Ratzinger num texto a respeito desse assunto:

    “A fé na criação pergunta pelo fato do ser como tal; o seu problema é por que existe alguma coisa e não temos o nada absoluto. O pensamento evolucionista, pelo contrário, pergunta por que existem precisamente essas coisas e não outras, donde receberam a sua determinação e como se relacionam coerentemente umas com as outras formações. Portanto, filosoficamente se diria que o pensamento evolucionista se acha no nível dos fenômenos, ocupa-se com os seres do mundo que ocorrem realmente, enquanto a fé na criação se move no nível ontológico, questiona num plano anterior às coisas individuais, admira o milagre do ser mesmo, procurando dar-se conta do enigmático que predicamos universalmente de todas as realidades que ocorrem. Também poderíamos dizer que o conceito de criação se refere à diferença entre o nada e algo; a idéia de evolução, pelo contrário, àquela entre um e o outro”. (Ratzinger, 2005).

    Bom, é isso!

    Um abraço

    Francisco

  12. #12 Lelec
    on Jul 29th, 2009 at 19:33

    Caro Francisco

    Muitíssimo obrigado pelo precioso comentário e pela citação papal. Bento XVI foi de lucidez ímpar ao apontar para o nível ontológico da “criação”, contrapondo-o à evolução e a seu sentido científico.

    Sua mensagem confirmou em mim uma impressão que eu tinha, transformando-a em certeza: a de que o evolucionismo não é problema para os católicos, mas para os evangélicos. Tenho formação protestante e sei do arrepio que os crentes sentem ao ouvirem falar de Darwin, dado à literalidade com que lêem as Escrituras. Jamais vi isso em um católico.

    A propósito, fiquei a pensar em uma coisa e gostaria de saber se estou certo.

    O “criacionismo” (a leitura literal do Gênesis), penso eu, é uma invenção evangélica. Enquanto a leitura e a interpretação das Escrituras estiveram restritas ao clero (pré-Reforma), nunca se falou de Criacionismo. Quando pessoas leigas e comuns passaram a ler e a interpretar a Bíblia por conta própria, todas as interpretações foram possíveis (inclusive as radicalmente literais), pois não havia mais um eixo unificador e supervisor. Daí, surgiram coisas esdrúxulas, tal qual ler o Gênesis como um livro de biologia, ou religiosos fanáticos que querem apanhar cobras venenosas pela cauda (todos os anos morrem pessoas por causa disso nos EUA). Isso não acontece entre católicos, nunca ouvi falar. Seria isso um efeito colateral e nefasto da Reforma?

    O que acha disso que falei? Faz sentido? Tem base histórica?

    Muito obrigado se puder me esclarecer.

    Fico honrado por ter um leitor do seu nível, de verdade.

    Grande abraço

    Lelec

  13. #13 Francisco Razzo
    on Jul 30th, 2009 at 13:54

    Caro Lelec, muito obrigado pelas palavras.

    Sobre sua pergunta, dê uma olhada nesse comentário da Pontifícia Comissão Bíblica, sobre a interpretação literal, denominada também de fundamentalista, esse texto é um valioso documento sobre como a Igreja Católica compreende a interpretação bíblica, disponível nesse link.

    http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_19930415_interpretazione_po.html

    “F. Leitura fundamentalista”

    A leitura fundamentalista parte do princípio de que a Bíblia, sendo Palavra de Deus inspirada e isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. Mas por « interpretação literal » ela entende uma interpretação primária, literalista, isto é, excluindo todo esforço de compreensão da Bíblia que leve em conta seu crescimento histórico e seu desenvolvimento. Ela se opõe assim à utilização do método histórico-crítico, como de qualquer outro método científico, para a interpretação da Escritura.

    A leitura fundamentalista teve sua origem na época da Reforma, com uma preocupação de fidelidade ao sentido literal da Escritura. Após o século das Luzes, ela se apresentou no protestantismo como uma proteção contra a exegese liberal. O termo « fundamentalista » é ligado diretamente ao Congresso Bíblico Americano realizado em Niagara, Estado de New York, em 1895. Os exegetas protestantes conservadores definiram nele « cinco pontos de fundamentalismo »: a inerrância verbal da Escritura, a divindade de Cristo, seu nascimento virginal, a doutrina da expiação vicária e a ressurreição corporal quando da segunda vinda de Cristo. Logo que a leitura fundamentalista da Bíblia se propagou em outras partes do mundo ela fez nascer outras espécies de leituras, igualmente « literalistas », na Europa, Ásia, Africa e América do Sul. Esse gênero de leitura encontra cada vez mais adeptos, no decorrer da última parte do século XX, em grupos religiosos e seitas assim como também entre os católicos.

    Se bem que o fundamentalismo tenha razão em insistir sobre a inspiração divina da Bíblia, a inerrância da Palavra de Deus e as outras verdades bíblicas inclusas nos cinco pontos fundamentais, sua maneira de apresentar essas verdades está enraizada em uma ideologia que não é bíblica, apesar do que dizem seus representantes. Ela exige uma forte adesão a atitudes doutrinárias rígidas e impõe, como fonte única de ensinamento a respeito da vida cristã e da salvação, uma leitura da Bíblia que recusa todo questionamento e toda pesquisa crítica.”

    (continua)

  14. #14 Francisco Razzo
    on Jul 30th, 2009 at 13:55

    “O problema de base dessa leitura fundamentalista é que recusando de levar em consideração o caráter histórico da revelação bíblica, ela se torna incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus. Ele se recusa em admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado palavra por palavra pelo Espírito e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada em uma linguagem e uma fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá nenhuma atenção às formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.

    O fundamentalismo insiste também de uma maneira indevida sobre a inerrância dos detalhes nos textos bíblicos, especialmente em matéria de fatos históricos ou de pretensas verdades científicas. Muitas vezes ele torna histórico aquilo que não tinha a pretensão de historicidade, pois ele considera como histórico tudo aquilo que é reportado ou contado com os verbos em um tempo passado, sem a necessária atenção à possibilidade de um sentido simbólico ou figurativo.

    O fundamentalismo tem muitas vezes tendência a ignorar ou a negar os problemas que o texto bíblico comporta na sua formulação hebraica, aramaica ou grega. Ele é muitas vezes estreitamente ligado a uma tradição determinada, antiga ou moderna. Ele se omite igualmente de considerar as « releituras » de certas passagens no interior da própria Bíblia.

    No que concerne os Evangelhos, o fundamentalismo não leva em consideração o crescimento da tradição evangélica, mas confunde ingenuamente o estágio final desta tradição (o que os evangelistas escreveram) com o estágio inicial (as ações e as palavras do Jesus da história). Ele negligencia assim um dado importante: a maneira com a qual as próprias primeiras comunidades cristãs compreenderam o impacto produzido por Jesus de Nazaré e sua mensagem. Ora, aqui está um testemunho da origem apostólica da fé cristã e sua expressão direta. O fundamentalismo desnatura assim o apelo lançado pelo próprio Evangelho.

    O fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão, pois ele considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque encontra-se expressa na Bíblia; isso impede o diálogo com uma concepção mais ampla das relações entre a cultura e a fé. Ele se apóia sobre uma leitura não-crítica de certos textos da Bíblia para confirmar idéias políticas e atitudes sociais marcadas por preconceitos, racistas, por exemplo, simplesmente contrários ao Evangelho cristão.

    (Continua)

  15. #15 Francisco Razzo
    on Jul 30th, 2009 at 13:58

    “Enfim, em sua adesão ao princípio do « sola Scriptura », o fundamentalismo separa a interpretação da Bíblia da Tradição guiada pelo Espírito, que se desenvolve autenticamente em ligação com a Escritura no seio da comunidade de fé. Falta-lhe entender que o Novo Testamento tomou forma no interior da Igreja cristã e que ele é Escritura Santa desta Igreja, cuja existência precedeu a composição de seus textos. Assim, o fundamentalismo é muitas vezes anti-eclesial; ele considera negligenciáveis os credos, os dogmas e as práticas litúrgicas que se tornam parte da tradição eclesiástica, como também a função de ensinamento da própria Igreja. Ele se apresenta como uma forma de interpretação privada, que não reconhece que a Igreja é fundada sobre a Bíblia e tira sua vida e sua inspiração das Escrituras.

    A abordagem fundamentalista é perigosa, pois ela é atraente para as pessoas que procuram respostas bíblicas para seus problemas da vida. Ela pode enganá-las oferecendo-lhes interpretações piedosas mas ilusórias, ao invés de lhes dizer que a Bíblia não contém necessariamente uma resposta imediata a cada um desses problemas. O fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento. Ele coloca na vida uma falsa certeza, pois ele confunde inconscientemente as limitações humanas da mensagem bíblica com a substancia divina dessa mensagem.”

    Sobre a abordagem Católica da Bíblica:

    “III. DIMENSÕES CARACTERÍSTICAS DA INTERPRETAÇÃO CATÓLICA

    A exegese católica não procura se diferenciar por um método científico particular. Ela reconhece que um dos aspectos dos textos bíblicos é o de ser a obra de autores humanos, que se serviram de suas próprias capacidades de expressão e meios que a época e o ambiente deles colocavam-lhes à disposição. Consequentemente, ela utiliza sem subentendidos todos os métodos e abordagens científicos que permitem melhor apreender o sentido dos textos no contexto linguístico, literário, sócio-cultural, religioso e histórico deles, iluminando-os também pelo estudo de suas fontes e levando em conta a personalidade de cada autor (cf Divino afflante Spiritu, E. B., 557). Ela contribui ativamente ao desenvolvimento dos métodos e ao progresso da pesquisa.”

    Depois gostaria de comentar sobre a equivocada origem do conceito de criacionismo no âmbito biológico.

    Forte Abraço

    Francisco

  16. #16 Lelec
    on Jul 31st, 2009 at 12:55

    Caro Francisco,

    Desculpe-me pela demora em lhe responder.

    Muito obrigado pelo texto que muito me esclareceu.

    Tive minha formação religiosa fundamentada no princípio “Sola Scriptura”, da fé protestante.

    E, infelizmente para mim, demorei para entender que tal noção era fundamentalista e que “o fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento”.

    Mais do que isso, mais tarde descobri que o princípio “Sola Scriptura” traz não somente dano intelectual, mas, sobretudo, existencial.

    Talvez esteja nisso o ponto zero de minha revolta.

    Seu texto me deu um bom embasamento teórico e histórico para compreender todo esse processo.

    Muito obrigado.

    Sinta-se à vontade para falar aqui sobre os erros do conceito de criacionismo no âmbito da biologia. Como sempre, lerei suas palavras com muita atenção.

    Forte abraço,

    Lelec

    PS: Nunca pensou em ter um blog? Você tem boas idéias e bastante conhecimento e curte uma boa discussão. Seria muito bom lê-lo em um espaço só seu. Pense nisso.

  17. #17 Pedofilia em Roma: Tio Rei e Olavão, quem diriam, “petralharam” – A Terceira Margem do Sena
    on Jan 31st, 2011 at 19:57

    [...] ocidental.” Rotulam como anti-religiosos quem defende que escolas ensinem ciência (e não criacionismo), quem aponta o erro de uma declaração papal sobre preservativos, assim como o cientista que faz [...]

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