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Ainda o racismo, a latrina moral

Há pelo menos duas maneiras de se combater o racismo.

Uma delas é com poesia, com sutileza de reflexão.

Shakespeare assim o fez, no seguinte diálogo de Hamlet, Príncipe da Dinamarca:

“(HAMLET) — O verme é o único imperador da dieta; cevamos todos os animais para engordar-nos e engordamo-nos a nós mesmos para cevar os vermes. O rei gordo e o mendigo esquálido nada mais são do que serviços distintos, dois pratos, porém de uma mesma mesa: eis tudo.

(REI) – Ai! Ai!

(HAMLET) — Um homem pode pescar com o verme que se alimentou de um rei e comer o peixe que se nutriu daquele verme.

(REI) – Que queres dizer com isto?

(HAMLET) — Nada; simplesmente mostra-vos como um rei pode circular ao longo das tripas de um mendigo.”

Eis o talento do bardo inglês a nos lembrar o fim de todo homem; ei-lo a nos apontar que, seja lá quem formos, um dia os vermes levarão nosso pó para dentro das tripas de um vivente qualquer – uma galinha, um bode, um homem desconhecido.

Mas a reflexão sobre a insensatez do racismo proporcionada pelas palavras de Shakespeare tem alcance limitado.

Não pela pena do escritor, longe disso.

É que o debate sobre discriminação racial tem muito pouco de poético. A poesia não fica bem nessa discussão.

É aí que entra a segunda maneira de se combater o racismo: com bordoadas.

Neste caso, o método é simples. Basta expor a truculência, a boçalidade e hidrofobia que o sustentam.

É o que farei hoje.

No texto anterior, de sexta-feira, falei sobre como os franceses discriminam, como rechaçam quem não tem a mesma raiz étnica, os mesmos antecedentes culturais e religiosos.

Esse tipo de preconceito não existe apenas entre franceses.

Ocorre entre gentes de todos os cantos.

Brasileiros, inclusive.

Os exemplos que trago à tona vêm de uma brasileira.

Ela atende pelo nome de Patrícia M. Ela tem um blog, o “Contatos Imediatos de Terceiro Grau“, onde escreve quase que diariamente.

Já freqüentei bastante o blog dela, comentando, discutindo, tentando demovê-la de posições que julgo erradas. Até que um dia não deu mais.

Ela também foi assídua aqui neste blog, durante certo tempo.

É do blog dela e de outros que ela visita que trago os exemplos que ilustram quão tacanha, podre e infeliz é a idéia de que há “raças” humanas superiores umas às outras.

Reitero: todas as citações foram extraídas da blogosfera. Todas estão disponíveis e abertas ao público, pelo menos enquanto ela não as deletar.

Não há nada de secreto, nada do gesto traiçoeiro de quem fuça gavetas alheias. É tudo do blogonauta que quiser ler. Simples assim.

Peço desculpas antecipadas aos freqüentadores e visitantes deste espaço, por expô-los à leitura de um material tão repugnante e asqueroso.

O choque pelo nojo é uma estratégia para se escancarar o quão odioso é o racismo.

No dia 10 de janeiro de 2009, em pleno conflito na Faixa de Gaza, milhares de pessoas foram às ruas de Paris manifestar apoio à causa palestina. Vejam o que a Patrícia M escreveu:

Não Se Iluda

Quando você aí no Brasil, longe daqui, ler uma reportagem como essa, não creia que são os franceses franceses mesmo, francófonos verdadeiros, brancos (grifo meu), nascidos e criados naquela terra há várias gerações. A maioria dos que estão protestando aqui na Europa a favor dos palestinos não são europeus de verdade. São invasores árabes muçulmanos tentando fazer baderna e tentando chamar a atenção para a causa deles.

A mídia obviamente chama esse pessoal de francês, mas eles são mesmo é marroquinos, argelinos e uma minoria de franceses baderneiros. Olha, a França tem a maior comunidade árabe-muçulmana da Europa. Então, você acha que são mesmo franceses que estão lá protestando?

Pffff don’t make me laugh…”

Eis aí a nojenta noção da “pureza” racial. Negros, árabes e muçulmanos estariam conspurcando a essência da França e da Europa.

Gostaria de vê-la dizer isso nos olhos do Teddy Riner, antes de encará-lo no tatame.

Para quem não o conhece, Teddy Riner é francês e atual campeão mundial de judô, categoria pesada.

(Ah, sim: ele é negro)

É claro que ela não lhe diria isso pessoalmente. O racismo é covarde, não dá as caras. É por isso que ela escreve em um blog obscuro, sem assinar o nome completo.

O racismo é uma excrescência. E, como todo dejeto pútrido, habita um esgoto moral onde chafurdam outros excrementos ideológicos.

A Patrícia M não repudia apenas os negros e magrebinos que residem na França

Ela também repudia figadalmente os latinos e considera os africanos a escória da Terra :

Latinos e latinos (Sábado, 12 de Janeiro de 2008)

Os meus amigos portugueses que frequentam o blog que me perdoem, mas latino é mesmo uma racinha porca. Subdesenvolvidos, problemáticos, com tendências socialistas e populistas, chego quase a dizer que formam a escória da Terra se não fosse por umas certas outras nações do continente mais velho do mundo (Mamma África) que são ainda mais selvagens e primitivas.”

Os nordestinos também não escapam do seu desprezo. Ela o demonstrou aqui mesmo, na Terceira Margem do Sena, por ocasião da polêmica sobre o QI dos baianos.

Ela sustenta seu preconceito no seu blog…

“Baiano não quer nada com nada. Se quisesse, já teria se mandado para Sampa. Pfff… “ (E aí, meu rei? - Quarta-feira, 30 de abril de 2008)

… e defende a separação do Brasil entre o “Sul maravilha” e o Norte-Nordeste:

Preto contra preto (Segunda-feira, 19 de Maio de 2008)

“(…) Enquanto isso em terras tupiniquins, quando é que seguiremos a nova moda mundial e nos separaremos finalmente do Norte/Nordeste?”

O texto seguinte foi extraído de um comentário que ela fez no blog do Frodo, a propósito da polêmica decisão do Ministro Temporão de gratuitamente distribuir lubrificantes para sexo anal.

Trata-se de uma emblemática exposição dos valores (?) ético-morais comumente vinculados ao racismo. O “purtuguêiz” é dela mesmo:

“Pior eh o governo (leia-se: contribuinte) pagando coquetel parta aidetico! Por que aidetico tem que ter tratamento de graca??? Se eles incorrem em sexo arriscado, que arquem com as consequencias, oras bolas! “

É isso mesmo que vocês leram: ela considera pior o governo pagar remédios a aidéticos do que fornecer lubrificantes a quem quiser fazer sexo anal.

Ela parece ignorar que a AIDS acomete não apenas quem comete sexo de risco (e que merece nossa compaixão como qualquer outro indivíduo), mas também hemofílicos e bebês de mães infectadas, além de fiéis parceiras (e parceiros) de cônjuges que contraíram o vírus fora do casamento.

Ela também não enxerga que há milhares de trabalhadores honestos que dependem do medicamento dado pelo governo para se tratarem. O tratamento da AIDS não cabe no orçamento doméstico da maior parte dos brasileiros.

É muito caro.

Negar a eles a gratuidade da assistência é condená-los a um sofrimento inimaginável.

Mas quem pensa como ela é, antes de tudo, um utilitarista, um pragmático. E o pragmatismo moral cega. Essas criaturas são incapazes de um gesto empático, de se colocarem no lugar do outro, nem que seja por uma fração de segundo. O mundo é reduzido a simplismos herméticos, profundamente desumanos. O utilitarismo da equação causa-efeito é aplicado impiedosamente, como se observa nesse texto, acerca do dengue que assola o estado do Rio, nos meses de verão:

O Rio e a dengue (Sábado, 22 de Março de 2008)

“Esse pessoal do Rio, heim… Depois de anos (para não dizer séculos) convivendo com a doença, ainda não aprendeu como evitar? Só posso chegar a uma conclusão: vai ser burro lá no quinto dos infernos.

(…) Fora isso, que os cariocas morram de dengue. Se não aprendem a lição, que sofram as consequências, ora ora. Não é novidade nenhuma que o país tem surtos de dengue todos os anos, todos os malditos anos. Aprendam a conviver - e a evitar - a doença e parem por favor de fazer materiazinhas escandalosas nos jornais.”

Se o sofrimento de doentes com AIDS e com dengue hemorrágico não lhe toca em nada, então tolerância religiosa é um preciosismo para os fracos, uma abstração filosófica para os frescos “politicamente corretos”.

Não se pode esperar que quem defenda idéias racistas tenha respeito à religião alheia. Para essas criaturas, a religião nada mais é do que um modo mesquinho de auto-afirmar sua própria arrogância, de arrotar sua empáfia, é a exaltação do desprezo que sente por tudo o que lhe é diferente.

A religião – e aqui pouco importa se catolicismo, protestantismo, judaísmo, ou seja lá o que for – é desprovida de qualquer espiritualidade para essas criaturas.

É apenas o espelho enferrujado no qual ela, embriagada pela própria soberba, se mira, pensando ver suas virtudes, mas não vê nada a não ser sua feiúra, suas pústulas repugnantes, suas chagas infectas.

Eu apoio (sic) o Papa! (Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009)

Eu apoio (sic) o Papa in-con-di-ci-o-nal-men-te. Eu acho que o Papa Bento está mais do que certo ao tentar terminar a cisão dentro da própria Igreja Católica Apostólica Romana do que ficar se aproximando de outras religiões que não nos dizem respeito, como fez o JP II.

Os judeus não gostaram da decisão de reabilitar os bispos ultra-conservadores? So what?

Os muçulmanos não gostam das declarações de Bento a respeito do pedófilo Maomé? So what?

Problema de vocês. Problema de todos vocês, não-católicos! Euzinha católica apostólica romana sinto cada vez mais orgulho do meu Papa e da minha Igreja.

Afinal, o que o Papa diz e o que o Papa faz só interessa a nós. Recolham-se todos vocês a sua própria insignificância e calem o bico. Adoro mesmo esse papa alemão! Só mesmo um alemão para marcar a ferro e a fogo sua passagem por Roma. Ai que já estava cheia daquele polonês em cima do muro…”

Essa é a espiritualidade de quem não vê problema algum em ver sua fé representada por um bispo que nega o genocídio de seis milhões de judeus inocentes. Pelo contrário: ela vê a decisão papal como motivo de satisfação para si e sua Igreja.

Williamson não lhe incomoda. E, se não lhe agride pessoalmente, então não tem problema algum. Mesmo que ofenda a sensibilidade e a memória alheia. Eis o distintivo utilitarista dos porcos morais.

Ela ainda minimiza a negação da Shoah, dizendo que “só” é crime na Alemanha:

É crime sim (Segunda-feira, 09 de fevereiro de 2009)

mas só na Alemanha. Pelo visto não é na Argentina e também não é aqui na Inglaterra. E tenho lá as minhas dúvidas se é crime na Itália ou no Vaticano.

Vem cá, vocês não têm coisa mais interessante a fazer não?

Nota: nós amamos Bento

No dia 15 de maio de 2008, a Patrícia M escreveu lá no blog do Frodo:

“Cara, o que me dá mais nojo é que brazuca no exterior só consegue nos envergonhar ainda mais, cada tipinho podre que a gente esbarra por aí que dá vontade de dizer qualquer mentira quando perguntam de onde somos. Aqui na Europa então ai ai ai. Só tem michê, puta e traveco. Uma tristeza. Fora a fama de vagabunda da brasileira que a gente tem que enfrentar, tsc tsc tsc… Nao foi a brazuca vagabinha que deixou a sua alteza real inglesa enfiar a mao no meio dos peitos e depois ainda vendeu a foto com cara de “olha eu sou bacana, fui bolinada por um principe”?

Já disse, o dia que conseguir outro passaporte queimarei o brasileiro em uma fogueira bem grande e dançarei qualquer coisa de tão contente, e quem vir a cena achar que estou louca varrida.”

Nas minhas andanças pela Europa, freqüentemente topo com brasileiros expatriados. Ao contrário da Patrícia M, não encontro “só michê, puta e traveco”… Bem, cada um freqüenta o ambiente que quer, não é verdade? Sei lá que lugares são esses pelos quais ela anda…

Seja como for, sempre fico algo triste quando escuto brasileiros de caráter, trabalhadores e intelectualmente bem formados, dizerem que não querem voltar ao país.

Penso em como pessoas assim nos fazem falta.

Mas nem todos fazem falta. Uns, como a Patrícia M, quanto mais longe estiverem do Brasil, melhor.

Por isso, Patrícia M, pelo menos em uma coisa a gente vai se entender: eu também vou dançar de alegria quando você queimar seu passaporte brasileiro.

Azar dos ingleses ou de quem resolver lhe dar um passaporte.

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7 Comentários on “Ainda o racismo, a latrina moral”

  1. #1 Rui Moura, o Pluto
    on Feb 12th, 2009 at 6:37 pm

    Cara, essa moleca é grave mesmo.

    Ela “tem problema”, como se diz lá na minha terra. Não sei de onde ela tira tanta raiva.

    O blog dela é o maior amontoado de entulho ideológico que já vi na internet.

    E não dá para conversar com ela não! Já tentei, não dá.

    Ela merecia um bom processo judicial para aprender que o que ela escreve tem conseqüências.

    Você faz muito bem em expor a sujeira dessa desequilibrada.

    Inté.

    Rui Moura

    [Reply]

  2. #2 teresa
    on Feb 19th, 2009 at 1:18 pm

    nossa, mas esse shakespeare era um gênio mesmo.

    [Reply]

  3. #3 clabrazil
    on Feb 20th, 2009 at 1:01 pm

    Essa moça é péssima. Ou mau amada. Ou os dois.

    Me incomoda muito saber que está por aí, se aproveitando da democracia internética para detrinchar seu vasto repertório racista.

    E que visita o site do nosso amigo Fernando. Visitava o seu. Ainda bem que o meu blog é só de abobrinhas, logo o meu nunca irá interessá-la.

    Abraços,

    Clarisse

    [Reply]

  4. #4 Diego Viana
    on Feb 22nd, 2009 at 1:21 pm

    Acho muito engraçada essa “linhagem” de brasileiros que querem ser mais anti-brasileiros uns que os outros e acabam caindo no mesmo estereótipo do babaca brasileiro: aquele que, ouvindo alguém falar português, começa a conversar em outra língua, “pra eles não perceberem”… como essa moça, existem tantos outros panacas iguaizinhos e a grande questão que vem na minha cabeça é: como é que você topa com esse tipo de gente com tanta freqüência, ô seu Leo?!

    [Reply]

  5. #5 Blogildo
    on Mar 2nd, 2009 at 4:20 pm

    Darwin é um dos maiores propagandistas do racismo e ninguém parece se importar muito com isso.

    [Reply]

  6. #6 Lelec
    on Mar 2nd, 2009 at 6:12 pm

    Agradeço a todos pelas visitas e pelos comentários.

    Blogildo: Não entendo em quê Darwin era racista. Poderia explicar, por favor? Obrigado.

    [Reply]

  7. #7 ATEÍSTA Pedro Paulo Netto
    on Dec 10th, 2009 at 1:39 am

    Darwin é um dos maiores propagandistas do racismo.
    Só se for aquele que é contra idiotas como esta Patricía M. e você Blogildo porque Darwin jogou no ralo a “superioridade ariana brnaca européia” quando definiu o Homem como um Animal Pensante e descendente de um Quadrúmano parente do Chimpanzé.
    Assim são Todos os Idiotas Religiosos que Richard Dawkins não teme ofender sem piedade porque estes não respeitam ninguém e ainda se acham no direito de defender seu NaziFascismo Repugnante.
    Querem saber a razão da Violência contra as mulheres? A existência desta criatura aberrante: Patrícia M. Cujo sobrenome realmente a caracteriza bem: Uma Merda de Cidadã e Pessoa que não deseja viver neste País mas o quer liberto daqueles que são Cidadãos Responsáveis.
    Querem saber a razão da Perpetualidade do Racismo, do Preconceito e da Discriminação? O tal Blogildo, que como a maioria dos ignorantes científicos ainda insiste em acreditar que o darwinismo social de Spencer é a mesma coisa que a Teoria da Seleção Natural DARWINIANA onde o mais Apto tem que triunfar e estes Apto Animal Pensante não tem etnia Mas tem que ter Inteligência!

    [Reply]

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