Há algum tempo, li uma crônica de jornal – acho que do Arthur Xexéo – que descrevia uma situação interessante. Era mais ou menos como se segue.
Um grupo de amigos estava em um bar, tomando cerveja, quando um deles diz:
– Estão vendo essa tampinha de garrafa? Pois é. Imaginem que ela seja um botão. Imagine que, se você apertá-lo, você ganha 150 milhões de euros imediatamente, na sua conta bancária. Contudo, simultaneamente, o apertar do botão causa um abalo sísmico em um vilarejo perdido na África, no Burkina Faso, digamos. Nesse terremoto, morreriam todas as pessoas da tribo, umas 150 almas. Não há sobreviventes para contar a tragédia. Em se tratando de um lugar absolutamente remoto, nenhum órgão de imprensa vai noticiar o fato. Ninguém vai ficar sabendo do que aconteceu. Só você, que apertou o botão. E então, você aperta ou não o botão?
O que torna a crônica divertida é a dolorosa verdade que relutamos em admitir: a de que somos capazes de aceitar um grande benefício à custa do sofrimento alheio, desde que isso esteja invisível aos nossos olhos e aos dos que nos julgam. Se eu não vejo, se ninguém vê, se ninguém fica sabendo, se nada vai ficar registrado na história, então eu fico realmente tentado a apertar o botão, matar umas pessoas e ficar zilionário.
Mutatis mutandis, esse é o problema colocado diante de nós pelos métodos anticoncepcionais.
Os cristãos que se opõem ao aborto se atêm a um princípio: a de que a vida começa na concepção. A partir do momento em que há fertilização, há vida e essa deve ser sempre preservada. Isso não se negocia. Não importa se é um óvulo fecundado, um embrião, um feto ou um bebê: em todos há vida, todos são pessoas e, por isso, devem ser ferrenhamente defendidos.
Eis um argumento forte, que evoca o continuum que vai do óvulo fertilizado até o bebê, que seria o mesmo que vai da criança ao idoso. Para os opositores do aborto, em qualquer momento em que se interrompa voluntariamente o processo, incorre-se no assassinato de um ser humano – um ato bárbaro, ignominioso e repulsivo. A lógica é simples, bem fácil de ser entendida.
Mas será que estão todos dispostos a sustentar inabalavelmente essa posição? Será mesmo um ponto irredutível para todos os que clamam pelo valor sagrado desse continuum?
Há diversas situações em que a defesa intransigente dessa percepção é testada.
O estupro, por exemplo. Se se considera que o óvulo fecundado é um ser humano igualzinho a mim e a você, então a interrupção da gravidez deve ser repudiada inclusive nos casos de estupro. Isso porque, mesmo aí, interromper a gestação também seria um assassinato. A violência, por mais brutal que seja, se torna irrelevante diante do valor da vida de uma pessoa. Quantos se dispõem a sustentar essa posição diante do sofrimento da mulher que foi violentada?
Na prática, contudo, muitos dos que são ferrenhos defensores “pró-vida”, admitem o aborto em caso de estupro. Eis uma prova de que eles também incorrem exatamente naquilo que atribuem como o cerne da perversidade “abortista”: o relativismo moral.
Mas há outro aspecto que desafia a coerência e a inflexibilidade moral de quem entende que o ser humano passa a existir a partir da fecundação: os métodos contraceptivos, especialmente o dispositivo intra-uterino (DIU) e a pílula.
O DIU modifica o ambiente intra-uterino e dificulta a implantação do óvulo fecundado. O DIU tem um efeito pós-fertilização, que “mata” o óvulo fertilizado.
A pílula – e aqui se refere à pílula convencional, não à chamada “pílula do dia seguinte” – também tem um efeito pós-fertilização. O anticoncepcional tem pelo menos três mecanismos de ação (1). O primeiro, que se considera mais importante, é a inibição da ovulação. Mas existem também dois outros: a modificação do muco cervical, tornando-o mais espesso, dificultando a chegada do espermatozóide ao óvulo e a conseqüente fecundação. O terceiro modo de ação das pílulas é promover mudanças substanciais no endométrio (tecido que recobre o útero), de modo a dificultar a implantação do óvulo fecundado – eis o efeito pós-fertilização da pílula (1).
Tanto no caso do DIU, quanto da pílula, o óvulo fecundado pode ser expulso pelo fluido vaginal ou pela menstruação. Só que a mulher não vê o óvulo fertilizado sair – é invisível a olho nu. Alguns chamam isso de aborto precoce, micro-aborto ou aborto silencioso.
Mesmo que a ação das pílulas sobre a implantação do óvulo fecundado continue sendo matéria de controvérsia, é importante frisar que o Federal and Drugs Administration (FDA), dos EUA, (provavelmente a mais rigorosa agência de medicamentos do mundo) reconhece a ação pós-fertilização da pílula (3).
A maioria dos pesquisadores admite que a pílula tem efeitos pós-fertilização que podem efetivamente impedir a nidação do óvulo fertilizado, mas a literatura médica não trata esse efeito como “abortivo”. Isso porque a maior parte dos especialistas considera que a gestação começa apenas com a implantação no endométrio.
Contudo, o conceito da ciência não é exatamente a opinião dos cristãos, que consideram que a vida começa na fertilização. Por isso, o especialista em ética médica Walter Larimore advoga que médicos que prescrevem anticoncepcionais estão eticamente obrigados a informar suas pacientes sobre a potencial ação pós-fertilização da pílula (2). A paciente, de posse dessa informação, deve decidir se toma ou não a pílula. O mesmo Larimore não aceita o argumento de que essa informação seja omitida sob o argumento de que a ação sobre a implantação seja um evento raro, pois a maior parte das mulheres que usa pílula não ovula (efeito primeiro da pílula). Na verdade, como ele bem lembra, em medicina o fato de que um fenômeno não seja freqüente não significa que ele seja desprezível (2) : os acidentes anestésicos fatais são raros – 1 para cada 25000 – mas todo anestesista e todo cirurgião fala (ou deveria falar) abertamente do risco anestésico com seus pacientes, no pré-operatório.
Essas informações conduzem a uma pergunta: se ninguém tem certeza absoluta de que as pílulas não impedem o óvulo fecundado de se implantar no útero e que, portanto, não são “abortivas”, por que empedernidos oponentes do direito ao aborto aceitam a pílula? Se há divergências no assunto, como é que eles acomodam pacificamente em suas consciências a strongpossibilidade/strong de terem sido protagonistas de um terrível assassinato?
Ninguém – inclusive eu – gostaria de ter a mínima desconfiança, a mais remota que fosse, de que fui responsável pela morte de um ser humano. Faria de tudo para não deixar que existisse a menor possibilidade de que essa dúvida pairasse sobre mim.
Por que então há tantos militantes pró-vida que toleram o uso da pílula ou do DIU?
A resposta parece estar entre duas alternativas: ou são hipócritas, ou nem eles crêem que um embrião de alguns dias seja tão ser humano quanto um bebê no colo da mãe.
É por defenderem que um microscópico óvulo fecundado seja tão pessoa quanto um neném ou um ancião, que há cristãos fervorosos que se opõem ao uso do DIU e da pílula – é o caso do Júlio Severo e dos médicos do Life Issues Institute ou do Physicians For Life. Chame-os do que quiser – obscurantistas, medievais, fanáticos, etc – mas incoerentes eles não são. Eles assumem integralmente os riscos da posição que defendem.
Se eles têm dúvida se a pílula tem ou não ação abortiva, preferem não usá-la a conviver com o dilema moral de terem cometido um assassinato, mesmo que invisível.
Ou você considera que um minúsculo óvulo fecundado é um ser humano como eu e você, ou você não considera. É sim ou não.
É fácil se esconder na negação de que o DIU e os anticoncepcionais impedem o desenvolvimento dos óvulos fecundados, com perorações do tipo “não vejo a pílula como abortiva”. É cômodo usar a pílula e inflamar-se na defesa “pró-vida” – e dizer fleumaticamente que o impedimento à implantação do ovulo é um aborto, “mas só em um sentido técnico, extremo”. Adaptar o conceito que você mesmo estabeleceu, de acordo com suas conveniências, é incoerência, é falsidade.
A única diferença entre o aborto cirúrgico e o impedimento à nidação do óvulo fecundado é que no segundo ninguém vê o “ser humano” ser “assassinado” e expulso, em meio a sangue e lágrimas.
É como na crônica do Xexéu. Aperta-se a descarga do vaso sanitário como se aperta o botão que nos torna milionários. Que mal tem se ninguém vê?
1. Frye, Cheryl A. An overview of oral contraceptives – Mechanism of action and clinical use. Neurology 2006;66(Suppl 3):S29–S36
2. Larimore, Walter L. The Growing Debate About the Abortifacient Effect of the Birth Control Pill and the Principle of the Double Effect. Ethics and Medicine. January, 2000;16 (1):23-30.
3. Sullivan, Dennis M.. The Oral Contraceptive as Abortifacient: An Analysis of the Evidence. Perspectives on Science and Christian Faith, Volume 58, Number 3, September 2006.
PS1: Cartas à redação: Se você tem “certeza absoluta” de que as pílulas, em hipótese alguma, impedem que um óvulo fecundado se instale na parede do útero, por favor, não me escreva só para dizer isso. Mande suas evidências incontestáveis a uma reputada revista científica. A ciência e a humanidade agradecem.
PS2: Antes de escrever sobre o meme que a Sherazade me passou, deixo aqui uma amostra do que a caleidoscópica blogosfera brasileira fala sobre o aborto. Há coisas excelentes e outras péssimas. Mas vale a pena ler as diferentes opiniões de quem influencia o debate:
Contra o direito de abortar:
A favor do direito de abortar:








on Mar 25th, 2009 at 4:34 pm
Caro Leonardo,BR/O uso da tabelinha,todos sabem,menos a Igreja,é falho e nem um pouquinho confiável…,ou aceitam a abstinência(ai,ai,ai).O DIU para a Igreja é classificado como método abortivo.A camisinha também é condenada pela Igreja(mesmo diante de uma epidemia como a AIDS). Porque a Igreja não cuida dos aspectos espirituais,e deixa os aspectos físicos e econômicos para os que querem planejar o tamanho de sua família?BR/E sou contra o aborto,e não acredito que nenhuma mulher o faça de bom grado.Mas está na hora da Igreja mudar sua postura,está.BR/BR/Beijo,
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on Mar 27th, 2009 at 10:25 am
O que acho mais incrível é que a maioria dos que são tão ferrenhamente contra o aborto e se dizem pró-vida, são também a favor da pena de morte. Pode conferir, em geral, quanto mais contra aborto, uso de células tronco, etc…,mais a favor da pena de morte. Essa é uma contradição que eles não conseguem nem encarar.
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on Mar 20th, 2010 at 11:47 pm
Depreende-se do exposto, que tanto o anticoncepciona tradicional quanto a pílula do dia seguinte são abortivos.Com o DIU, ocorre o mesmo, homícidio sem testemunha.
Mesmo que não fôsse cristão, só pelo fato de ser médico e haver jurado defender a vida, sou contra esses métodos.
Que se use a “tabelinha” ou o preservativo, aquelas mulheres que não querem engravidar.
Jayme Tadeu dos Santos
CRM-SP:43395
ABP:02601
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