Hitler deixa a Marine Church em Wilhelmshaven
Ela sempre chega cedo, bem antes do culto começar. Assenta-se habitualmente em um dos bancos dianteiros, próxima ao púlpito do pastor. Entra com sua Bíblia, cabelos presos em um coque. Retribui com sorrisos afáveis os cumprimentos de quem passa por ela. Embora esteja há muitas décadas no Brasil, vê-se na sua disciplina que é alemã: nunca se atrasa, dá fielmente o dízimo, é assídua na escola bíblica dominical e vai regularmente aos dois cultos de domingo, o matutino e o vespertino. A D. Magda* é, enfim, uma octagenária simpática, de uma fé tranqüila e sólida que todos os seus irmãos presbiterianos respeitam.
Essa era minha opinião sobre essa velhinha cordial.
Até o dia em que o professor do grupo de estudos bíblicos gentilmente oferece a cada um dos alunos um livro de teologia.
Dias depois, D. Magda procurou o professor à porta da Igreja. Entregou-lhe o livro de volta, juntamente com uma carta. Ela lhe escrevera dizendo que lhe devolvia o livro porque não podia admitir em sua casa uma publicação de Dietrich Bonhoeffer. Ela não podia tolerar nada que viesse de uma homem que tentara matar Adolf Hitler. E fez uma defesa apaixonada de Hitler e de como o Führer representara a esperança e a alma germânicas. **
Eu jamais saberia que D. Magda era uma nazista se ela não tivesse se manifestado sobre Bonhoeffer – um teólogo refinado, que foi preso e executado por ter participado de um complô para assassinar Hitler.
A reação de D. Magda – muitos anos após a queda de Hitler, e sem nenhuma pressão externa que a impelisse a tanto – é emblematicamente ilustrativa da ligação entre o cristianismo e o nazismo.
Infelizmente, trata-se de apenas um entre milhões de exemplos da inércia que caracterizou o comportamento dos cristãos alemães diante do nacional-socialismo. Mais do que isso, é um contundente argumento contra aquilo que Steigmann-Gall 1 chama de “um dos maiores truísmos dos últimos 50 anos”: a insistência de que o nazismo foi um movimento anti-cristão – noção que Olavo de Carvalho e Dinesh d’Souza divulgam recorrentemente.
Ao contrário de Stalin – cujo ateísmo é pouquíssimo contestável – a fé de Hitler é algo que suscita grande debate.
Hitler foi criado e educado dentro da religião católica. Isso, é certo, não faz de ninguém um católico, assim como os estudos em um seminário na Geórgia não impediram que Stalin se tornasse ateu. Mas Hitler jamais negou publicamente a fé católica. Muito se discute se isso não seria uma estratégia para melhor manipular as massas. Contudo, ele poderia ter negado a fé a qualquer momento, até porque muitos nazistas proeminentes eram abertamente anti-cristãos. Stalin não perdeu a obediência da população por se afirmar ateu.
O Führer, por inúmeras vezes, usou de linguagem cristã para defender suas ideias. Por exemplo, quando liderou a Noite de Cristais (1938), Hitler evocou a passagem em que Cristo expulsava mercadores do templo (Mateus 21: 12, 13). Em Mein Kampf 2, ele escreveu:
“Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.”
É claro, muitos dirão que não se pode levar em consideração que um fanático amalucado como Hitler diga estar seguindo ordens divinas. Ok. Mas por que as pessoas que assim argumentam não vêem problema algum que Josué, Davi e outros “heróis” bíblicos tenham dito coisas semelhantes antes de dizimar jebuseus, cananeus, filisteus, amorreus, etc ?
O que complica ainda mais o entendimento da questão é que Hitler também emitiu várias declarações anti-cristãs, e que atividades religiosas tenham sido restritas na Alemanha Nazista. Mas há evidências que sustentam que Hitler era mais anti-clerical do que propriamente anti-religioso: ele não via com bons olhos que instituições religiosas – como a Igreja Católica ou as Igrejas Protestantes – tivessem uma autonomia que lhe escapasse. O que o incomodava não era a religião em si, mas o fato de que padres e pastores pudessem ter uma ascedência fora do seu controle: tanto assim o era que Hitler estimulou ativamente o movimento protestante Deutsche Christen, liderado pelo pastor Ludwig Müller.
Paralelamente ao estímulo à organização de uma nova denominação reformada, Hitler se encarregou também de assinar acordos com líderes católicos e protestantes, que prestaram lealdade ao Führer e que se silenciaram ante as barbaridades do regime. Segundo Paul Johnson 4, dos 16.000 pastores alemães, pouquíssimos deles foram presos por oposição a Hitler. A Igreja Católica, por sua vez, não excomungou nenhum agente SS pelos seus crimes. Durante todo o regime hitleriano, a Igreja Católica excomungou apenas um líder nazista, Joseph Goebbels. O motivo ? Ter-se casado com uma protestante divorciada. Enfim, as alianças do Vaticano com o Reich e outros regimes totalitários são fartamente documentadas e já foram objeto inclusive de desculpas papais.
Mas a questão que me parece a mais fundamental não é a fé de Hitler, de Goebbels ou de Goring, nem mesmo a posição das lideranças eclesiásticas. Esses são quase que pontos periféricos no debate.
É fato: os líderes nazistas não perpetraram as atrocidades sozinhos. Eles tiveram o apoio de milhões de alemães que eram, na sua esmagadora maioria, cristãos. A pergunta crucial é: por que diabos os cidadãos cristãos colaboraram com o nazismo ?
Antes, porém, convém fazer uma digressão. Um crente logo dirá que não se pode dizer que é um “verdadeiro” cristão quem apóia nazistas. O mesmo argumento pode ser usado por um muçulmano ou um judeu que recusam que o 11 de setembro e o assassinato de Yitzhak Rabin tenham sido respectivamente perpetrados por pessoas pertencentes à mesma religião que eles. O mundo seria um lugar muito bom se só existissem “verdadeiros” cristãos, “verdadeiros” judeus, “verdadeiros” islamistas…
Se uma nazista como a D. Magda se declara cristã, que razão tenho eu para duvidar da sinceridade da sua fé ? Segundo Paul Johnson (historiador católico), 23% dos oficiais da SS eram católicos praticantes (daqueles que se confessam toda semana) 4 – como contestar a fé deles ?
Para todas as religiões, há uma dissociação entre o ideal e a prática real. Coppola mostrou isso de maneira magistral na seqüência final d’O Poderoso Chefão I, em que Michael Corleone, um católico convicto, batiza seu filho e reafirma um a um os dogmas católicos – enquanto isso, seus capangas promovem um banho de sangue.
Além do mais, como lembra a historiadora Doris Bergen 3, há uma diferença entre uma categoria histórica/institucional e as definições “ideais” que os grupos estabelecem para seus próprios membros. “Religião” não diz respeito apenas a uma “crença” individual (algo inacessível a historiadores), mas inclui também, e principalmente, ritos, tradições, instituições e a vida em comunidade. Por isso, pode-se dizer que sim, a Alemanha nazista era um país cristão, majoritariamente protestante – os dados estatísticos e históricos o demonstram 3. Sob o regime nazista, quarenta milhões de alemães eram protestantes e vinte milhões eram católicos 4.
Ao se deparar com a história, o leitor honesto constata forçosamente quão inconsistente é a frase malandramente atribuída a Dostoiévski (“se Deus não existe, tudo é permitido”). Não é a devoção a Deus que dá senso moral ao homem – o Padre Tiso (sanguinário ditador eslovaco) que o diga.
A verdade é que qualquer debate sobre a influência da religiosidade sobre o comportamento moral é abortado quando se deixa de reconhecer que crimes hediondos e boas ações foram cometidos tanto por pessoas apegadas a um teísmo (qualquer que seja a religião), quanto ao ateísmo. Estabelecer convenientemente um subgrupo utópico dentro do qual só existem virtudes e jogar todos os vícios para longe da sua própria crença (ou não-crença, no caso dos ateus) não ajuda em nada na compreensão das relações entre a moralidade e a cultura religiosa.
E a história também que mostra que a resistência de cristãos – católicos ou protestantes – foi uma deprimente exceção, e não a regra 6. Os poucos valentes que se rebelaram – como Bonhoeffer, o padre Lichtenberg, ou Marga Meusel – receberam pouco ou nenhum apoio de seus irmãos de fé 6. E não apenas na Alemanha reformada: veja a França de Pétain ou a Espanha de Franco.
Por que tamanha covardia? Por que o silêncio cristão foi a regra?
Por que os católicos e protestantes não agiram como os Testemunhas de Jeová? – esses sim fizeram corajosa oposição a Hitler e, por isso, foram sistematicamente perseguidos. Muitos (um terço deles) morreram nos campos de extermínio4. Por que católicos e protestantes, em sua maioria, colaboraram?
A resposta – se é que existe – pode advir da constatação evidente, mas por demais olvidada, de que não foi Hitler quem inventou o anti-semitismo. O ódio e o desprezo a judeus foi cultivado e incentivado pela Cristandade durante séculos. O caso Dreyfus, na França de 1898, é apenas um exemplo histórico visível do anti-semitismo abraçado por cristãos.
E, na abjeta relação do cristianismo com o anti-semitismo, o protestantismo tem uma parcela de culpa que não cabe aos católicos. Afinal, o próprio fundador da Reforma – Martinho Lutero – foi talvez o anti-semita mais importante da história.
Lutero escreveu um livro (“Sobre os judeus e suas mentiras” 3) dedicado inteiramente a atacar israelitas. Os textos e atitudes de Lutero contra os judeus eram francamente apreciados pelos fascistas e o próprio Hitler tinha profunda admiração por Lutero. A Noite de Cristais não ocorreu por acaso no dia 10 de novembro de 1938 – era o aniversário de Lutero e os nazistas queriam homenageá-lo. Julius Streicher (editor nazista), no julgamento de Nuremberg, chegou a dizer que Lutero estaria ali no banco dos réus se estivesse vivo. E estaria mesmo. Basta ler um pouco do que Lutero escrevera:
“Em primeiro lugar, suas sinagogas deveriam ser queimadas… Em segundo lugar, as suas casas deveriam ser destruídas e arrasadas… Em terceiro lugar, deveriam ser privados de seus livros de orações e do Talmud… Em quarto lugar, seus rabinos devem ser proibidos de ensinar sob pena de serem mortos, se não obedecerem… Em quinto lugar, os privilégios de viagens e de um passaporte deveriam ser absolutamente proibidos aos judeus… Em sexto lugar, deveriam ser impedidos de fazerem agiotagem… Em sétimo lugar, que aos jovens e fortes judeus de ambos os sexos sejam dados manguais, machados, enxadas, pás, rocas e fusos e que eles ganhem o seu pão com o suor de seus rostos… Deveríamos expulsar os preguiçosos velhacos para fora de nosso sistema… Portanto, fora com eles… Para acrescentar, caros príncipes e nobres que têm judeus em seus domínios, se este meu conselho não lhes serve, encontrem então um melhor, de maneira a que vós, e todos nós, sejamos libertos desta insuportável carga diabólica – os judeus.” 3
Portanto, Olavo de Carvalho mente descaradamente ao dizer que o “evolucionismo de Darwin foi o pai do nazismo”. O nazismo bebeu da fonte do anti-semitismo cristão, como o de Lutero. O nacional-socialismo não foi um movimento de uma maioria anti-cristã 3 e a D. Magda está aí para lembrar esse fato. (Fico pensando: se mais de 60 anos depois da queda de Hilter, depois que todas as barbaridades do nazismo foram expostas, a D. Magda ainda defende o Führer ferrenhamente, imaginem o que essa boa prebisteriana não era capaz de fazer nos anos 40…)
O nazismo nunca foi materialista como o stalinismo1, outra ideologia assassina. Olavão quer nos fazer crer que o que um naturalista inglês escreveu sobre tentilhões de Galápagos teve mais influência no surgimento do nazismo do que os textos hidrófobos de Lutero.
Não, não foi à toa que o nazismo surgiu na Alemanha reformada – e o estupendo filme “Das Weisse Band”, do austríaco Michael Haneke, é magistral ao mostrar em que tipo de ambiente religioso cresceu a geração responsável pelo nazismo.
Aliás, não é nem um pouco casual que ainda hoje exista anti-semitismo entre evangélicos. O exemplo mais eloqüente é o de Billy Graham, evangelista que é um dos homens mais respeitados dos EUA e que ficou encalacrado quando uma conversa sua com Nixon veio à tona.
É claro, o anti-semitismo de Lutero não é sequer mencionado naquele filme bonitinho com galã bonitão. Lutero era um facínora hediondo, que pregava o ódio inclusive contra cristãos não-católicos que não se alinhavam com ele. Os anabatistas, grupo que derivou na atual Igreja Batista, foram cruelmente perseguidos por Lutero e por Calvino.
A desonesta hagiografia cinematográfica de Lutero tampouco expõe sua tristemente célebre frase, quando o ex-monge se aliou aos nobres contra lavradores pobres nas revoltas dos camponeses: “Mate-os como cães raivosos!”. Mais de cem mil morreram pela repressão dos soldados luteranos.
Mas deixemos os mortos em paz. Esqueçamos Lutero, Calvino, Hitler, os nazistas e a barbárie anti-semitista. Deixemos D. Magda seguir sua pacata vidinha de fé protestante. Um dia, ela morrerá. O pastor dirá palavras bonitas sobre seu caixão. Como tantos outros, ela também irá para o céu. É para lá, afinal, que vão os crentes sinceros.
Hitler autografa foto para fã cristã (foto daqui).
* O nome da senhora foi mudado.
** Este parágrafo foi modificado em relação ao texto que foi originalmente postado. Na verdade, este blogueiro havia dado uma informação errada. A senhora não rasgara o livro e não enviara a carta por correio. Ela devolveu o livro e entregou a carta pessoalmente ao professor. Peço desculpas pelo equívoco e agradeço ao leitor que me apontou o erro.
Referências
1. Richard Steigmann-Gall. The Holy Reich.
Para todas as seguintes, disponho da versão em pdf e posso enviá-las a quem se interessar:
2. Adolf Hitler. Minha luta (Mein Kampf) (em inglês)
3. Doris L. Bergen. Nazism and Christianity: Partners and Rivals? Journal of Contemporary History Vol 42(1), 25–33.
4. Paul Johnson. The history of Christianity.
5. Martinho Lutero. About the Jews and Their Lies. O trecho citado neste texto foi extraído daqui. Agradeço ao Diego e ao Ravick, proprietários do Os amorais .
6. Victoria Barnett. The role of the churches: Compliance and confrontation. Shoah Resource Center.










on Nov 7th, 2009 at 5:54 pm
Arre!
Pensava que o Johnson era anglicano. Tem versão em português do livro dele, pela Imago. Aliás, o melhor livro de história do cristianismo em nossa língua. Ele também tem um ótimo sobre história dos judeus, pela mesma editora.
Em algum momento entre o segundo e o quarto séculos o cristianismo passou de fé perseguida a instituição perseguidora.
A história da velhinha é mesmo impressionante, mas você faz derivações pra lá de perigosas disso aí.
O texto do Lutero não é um livro (ele nunca escreveu um) – mas um panfleto. Ele tem muitos defeitos e é sempre bom desmitificar o herói que ele representa para os protestantes. Mas você o pintou com tintas muito mais sombrias.
O filme mostra sim Lutero incitando os nobres a reprimir a revolta dos camponeses. O que o filme não deixa muito claro é que houve 2 revoltas diferentes, que aparecem misturadas: a fúria iconoclasta capitaneada por Karlstadt e que levou Lutero a sair de seu esconderijo em 1522, e a revolta camponesa de 1523-24 que tinha anabatistas entre seus líderes, mas não só.
Batistas não derivam dos anabatistas, exceto pelo fato de a idéia de recusar o batismo infantil veio do conhecimento que um pastor inglês teve dos anabatistas holandeses. Menonitas.
Batistas vieram das comunidades inglesas não anglicanas, uma miríade de grupos que tinha em comum a recusa ao governo episcopal e adoção de um calvinismo baseado na dupla predestinação (presbiterianos, congregacionais e batistas são os principais grupos).
A facilidade de Hitler em controlar os cristãos alemães veio de uma questão que não é um detalhe: a maioria das igrejas européias são estatais. Portanto, toda a igreja confessante e os inúmeros antinazistas luteranos perderam seus cargos eclesiásticos. A maioria dos teólogos (assim como intelectuais e artistas de vários tipos) se exilaram: Barth, Brunner, Tillich, Bultmann. Foram para os EUA. Bonhoeffer foi o teimoso que resolveu voltar, mesmo sabendo que seria preso.
Acho uma beleza que você lembre aqui o papelão que os cristãos fizeram, mas dizer que o nazismo é cristão é uma forçação de barra, como se diz em Minas, “pra lá”.
Além do mais, há que se lembrar que gente de todos os tipos apoiou aberta ou veladamente o nazismo na esperança de uma Europa mais limpinha – sem comunistas, judeus ou homossexuais.
O papel do darwinismo no nazismo é mesmo muito mais fundamental do que o papel do cristianismo, provavelmente não pelos motivos que o Olavo de Carvalho aponta, mais por causa da derivação social da noção biológica de “sobrevivência do mais apto”.
Vê-se mesmo que você, como eu, tem muitas contas a acertar com seu passado evangélico (posso dizer que é passado?).
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leocruzsouza Reply:
November 7th, 2009 at 6:27 pm
Oi André,
Muito obrigado pela sua leitura e pelo seu comentário. É sempre muito bom conversar com você.
1) Vou começar pelo que acho mais sério na sua mensagem: eu não disse que o nazismo foi um movimento cristão. O que eu disse textualmente foi:
“O nazismo bebeu da fonte do anti-semitismo cristão, como o de Lutero. O nacional-socialismo não foi um movimento de uma maioria anti-cristã e a D. Magda está aí para lembrar esse fato.”
Um dos textos que li para preparar este post afirma que o nazismo foi “essencialmente cristão”. Não concordo com isso e nem mesmo Hitchens concorda. Tive o cuidado de ler fontes diferentes, de autores ateus, judeus, católicos e protestantes. E, das leituras que fiz (limitadas, sei bem), concluo que o nazismo não pode ser considerado uma ideologia cristã.O ponto que insisto, contudo, é que o nazismo foi apoiado por milhões de cristãos católicos e protestantes – e os dados históricos estão aí.
As relações das igrejas com líderes fascistas e com estados nacionais é algo importante na discussão. Contudo, meu ponto não é exatamente a liderança eclesiástica, mas os cidadãos comuns, cristãos praticantes que colaboraram com a barbárie. É isso que eu acho difícil de entender. E acho um baita tema de reflexão sobre as relações entre moralidade e religiosidade.
2) Obrigado pelo esclarecimento sobre a origem dos batistas. Freqüentei durante muito tempo a Igreja Batista e nunca tive uma boa explicação sobre a origem da denominação. Obrigado pela explanação. Vou corrigir no texto.
3) Tenho aqui no meu computador o texto de Lutero. São 94 páginas, divididas em 13 partes. Ao total, são quase 67000 palavras. Não creio que ninguém exagera em chamar isso de “livro”. Além do mais, francamente, chamar o texto de “livro” ou “panfleto” não muda em nada seu conteúdo virulento e sua importância histórica.
4) O filme não mostra nem um milésimo do que foi o banho de sangue das revoltas camponesas. O diretor de “A Rainha Margot”, por exemplo, não poupou cat-chup para mostrar o massacre que foi a Noite de São Bartolomeu. O filme de Lutero é uma hagiografia desonesta. Até mesmo a Igreja Luterana já se desculpou pelas atrocidades de Lutero. Não dá para limpar a barra dele.
5) Você está certo ao dizer que não apenas anabatistas morreram nas mãos dos soldados luteranos. E penso ter deixado isso claro, pois me referi a “lavradores pobres” no que escrevi:
“o ex-monge se aliou aos nobres contra lavradores pobres nas revoltas dos camponeses: “Mate-os como cães raivosos!”. Mais de cem mil morreram pela repressão dos soldados luteranos.”
6) Você está certo: tenho muuuuuuuuuitas contas a acertar… E, sinceramente, sem ironia alguma, acho que você é alguém que pode me ajudar muito nisso.
Abraço
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on Nov 7th, 2009 at 7:34 pm
Desculpe-me,
lendo de novo, percebo que enxerguei demais ao dizer que você afirma que o nazismo é cristão. De fato você apenas nega que ele seja anti-cristão e demonstra o apoio que recebeu dos cristãos.
É certo.
O filme “Amén” de Costa-Gravas também é muito instrutivo.
Não acho o filme Lutero hagiográfico. Acho ele razoavelmente preciso historicamente, dentro dos limites de um filme que tenta abarcar toda a vida do reformador. Achei talvez um pouco exagerado você designar Lutero como “fascínora hediondo”, coisa que ele talvez de fato fosse, às vezes, mas acho que não resume bem o papel dele.
Encarar de frente os horrores do passado cristão é um passo para o acerto de contas. Não sei se eu estou em condições de ajudar alguém nisso. Mas a história do cristianismo se presta bem a isso mesmo.
Evangélicos, em geral, tendem a estudar uma história domesticada (católicos também, religiosos de todo tipo também). Foi o que encontrei quando cheguei para dar aulas de História do Cristianismo na Faculdade Teológica Batista do Paraná. Foi o que tentei mudar um pouco. Mas as resistências são grandes (e os apoios também, apesar de vindos de gente sem muito poder dentro das instituições).
Estou começando um blog sobre o assunto, só não sei como vou conseguir tempo de postar lá: http://historiadocristianismo.wordpress.com/
Mas este texto teu é um grande serviço.
Acho um pouco problemático que sejam tão pouco conhecidas as refinadas discussões teológicas dos últimos 200 anos, que realmente já fizeram a necessária revisão deste passado. E há boas propostas para o presente e o futuro. Certamente não desejadas pelas estruturas eclesiásticas, que se movem pela sede de poder e dinheiro – apoiadas, infelizmente, pela maioria dos fiéis, como nos tempos do nazismo.
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leocruzsouza Reply:
November 7th, 2009 at 8:18 pm
Oi de novo, André,
Às vezes, acho esse negócio de blogar meio ingrato. A gente procura escrever um texto correto e gasta um tempão pesquisando, lendo fontes aqui e acolá, refletindo sobre o que pessoas de ideologias diferentes refletiram sobre o assunto que vamos escrever.
Tudo isso, é claro, é gostoso, mas dá muito trabalho. E, às vezes, fico desmotivado porque, afinal de contas, não são tantos assim que vão ler. Muitos vêem o tamanho do texto e saem correndo.
Mas blogar, escrever e pesquisar vale a pena por causa da conversa com leitores como você.
Muito obrigado pelas suas palavras.
É um prazer ter um interlocutor do seu nível e da sua honestidade.
Espero que você possa sim escrever sobre história do cristianismo no seu novo blog. Serei seu leitor, claro.
Grande abraço,
Léo
PS: Valeu pela dica do Costa-Gravas. Vou pesquisar.
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andreegg Reply:
November 8th, 2009 at 12:43 am
Eu acho uma delícia o teu blog.
E percebo, pela repercussão dos teus textos, que tem bastante gente te lendo, sim.
Outros que estão tentando acertar contas com o cristianismo que receberam do berço, e acho que você talvez goste:
baciadasalmas.com
atrilha.blogspot.com
amarelofosco.wordpress.com
contrasenso.wordpress.com
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on Nov 9th, 2009 at 12:38 am
É verdade, a gente percebe imensa dedicação na composição dos seus posts. Interessante. Mas eu não acho que a tal velhinha tenha ido para o “céu”, mesmo porque não acredito que tal lugar exista.
E também na minha visão, a história toda se resume a dois sentimentos: amor e ódio. P/ mim, Jesus veio ensinar o amor. E parece que muitos não compreenderam nada (até hoje). E a história do nazismo é toda feita de ódio, sentimento totalmente oposto. E por mais que haja argumentos racionais para explicar o que aconteceu, o que deixou de acontecer, e as filosofias e religiões por trás de atitudes e atos deploráveis não podem explicar nada. Por que as emoções e a racionalidade transitam em terrenos diferentes. Essa é a minha modestíssima opinião. Mas o seu post é intirigante e provocativo, como sempre. Parabéns!
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leocruzsouza Reply:
November 11th, 2009 at 9:28 am
Querida Sílvia,
Obrigado pela sua assiduidade a este blog e por seu comentário.
Humm… Não creio que possamos analisar a emergência do nazismo sem considerar o ambiente em que cresceram as pessoas que o apoiaram. E, nesse sentido, temos que abordar sim a influência da religião. A propósito, recomendo vivamente o filme Das Weiße Band, premiado em Cannes neste ano. Não sei como é o título do filme em português, acho que vai ser algo como “A fita branca”.
Beijo e volte sempre!
Lelec
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on Nov 9th, 2009 at 12:24 pm
[...] está no portal há algum tempo, como já contei aqui antes. Mas não posso deixar de recomendar o importantíssimo texto que recém saiu lá, sobre as relações entre o cristianismo e o nazismo. Passado que insiste em permanecer, e uma das [...]
on Nov 9th, 2009 at 6:36 pm
Leonardo;
Hannah Arendt foi uma das pensadoras que de modo lúcido nos mostrou a banalização do mal. Os homens que fizeram e fazem as maiores atrocidades contra outros seres humanos são pessoas que tomam café, almoçam,vão às compras e às Igrejas nos finais de semana. Não são seres maquiavélicos que levantam de manhã e traçam planos de como torturar, matar ou exterminar um grupo. São pessoas normais, assustadoramente normais, segundo Hannah. Stalin, Hitler, Franco, Videla, Pol Pot e tantos outros facínoras não tinham pesadelos à noite com as centenas de mortes que eles provocavam durante o dia porque acima de tudo eles achavam que o que faziam era certo; errados eram os que os criticavam. Pouco importa que seja Cristão, Evangélico, Católico ou Mulçumano. A religião é um dos modos que eles usaram e usam até hoje para justificar o que fazem. Bem sabemos que quando um grupo social domina outro grupo a máquina da religião será usada para justificar essa dominação. Exemplos disso não faltam; a Ku klux Klan usava a história da morte de Abel por Caim para justificar a matança de negros. Segundo eles, a marca que Deus colocou em Caim e em todos os seus descendentes era a cor negra. Quando os Espanhóis e Portugueses vieram à América, era um terço numa mão e a espada na outra. Na visão Espanhola e Portuguesa eles estavam fazendo um favor em ” civilizar ” e ” converter” os Índios. Mais recentemente não nos esqueçamos da Marcha da Família com Deus pela Liberdade que foi um dos movimentos religiosos que apoiaram o golpe de 64. Por isso,na minha opinião, uma possível resposta para o silêncio covarde e nojento dos Católicos e Protestantes sobre as atrocidades de Hitler, é que grande parte dos que calaram assim o fizeram porque tinham medo de morrerem ou de perderem seus espaços.Também há muita soberba em acharem que a fé deles é a única que é válida.
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leocruzsouza Reply:
November 11th, 2009 at 9:24 am
Oi José Paulo,
Muito obrigado pela leitura e pelo comentário.
A sua referência a Hannah Arendt é fundamental e muito apropriada a esta discussão. Arendt é sem, dúvida alguma, uma voz incontornável nessa temática.
Não concordo com você quando diz que “uma possível resposta para o silêncio covarde e nojento dos Católicos e Protestantes sobre as atrocidades de Hitler, é que grande parte dos que calaram assim o fizeram porque tinham medo de morrerem”.
Creio que o contra-exemplo dos Testemunhas de Jeová mostra a coragem dos que assumem os ideais que defendem. Se católicos e protestantes colaboraram com o nazismo, é porque havia muitos pontos de convergência entre as duas mentalidades, como brilhantemente escreveu o Diego aí embaixo.
Abraço e volte sempre,
Lelec
Reply
on Nov 9th, 2009 at 7:55 pm
Olha só! Muito interessante o texto.
Aquele período da história foi realmente assombroso, especialmente olhando de longe. Não creio tb que Lutero seja o crápula descrito, apesar de concordar que sua opinião sobre os judeus era realmente dignas de um crápula. Nem acho correto comparar o nazismo com os extermínios patrocinados por Israel nas histórias do VT. É preciso levar em conta o complicado “zeitgeist’. É impressionante a capacidade do ser humano de anestesiar sua consciência por causa de um ‘clima intelectual’ de um tempo determinado. E, em se falando de VT, é preciso ainda analisar a evolução das sociedades e o contexto histórico. Eram tempos de guerra e sangue.
Eu tentei fazer uma análise disso num texto abordando o nazismo e a igreja cristã tb. Se tiver interesse, olhe lá: http://atrilha.blogspot.com/2006/12/igreja-o-holocausto-e-o-planeta-azul.html
No mais, meu amigo, o que dizer? A igreja cristã foi cúmplice de inúmeras atrocidades na história. Mas sempre houve aqueles que levantaram corajosamente a bandeira da justiça e pagaram por isso alto preço. A porta é estreita. Serão sempre poucos os que assumirão a postura que assumiu o mestre. E esses, nem sempre surgirão das fileiras da oficialidade cristã (que nada mais é do que uma média de tradição e religiosidade anestesiada). Espero eu ter sempre coragem suficiente para me encontrar entre os poucos.
Abraço e parabéns pelo texto excelente!
Reply
leocruzsouza Reply:
November 11th, 2009 at 9:19 am
Oi Tuco Egg,
Muito obrigado pela leitura e pelo comentário.
Vou ler seu texto e vou deixar uma opinião por lá. O assunto me interessa muito.
Concordo que os relatos do VT devem ser analisadas dentro de um contexto histórico. Tudo o deve ser. Não é razoável julgar o passado com os valores do presente e culpando algozes.
O ponto crítico, penso eu, é analisar o julgamento moral das pessoas daquela época. Matar outra pessoa é sempre uma decisão individual, ainda que esta seja atribuída a uma ordem divina. E interessa-me compreender porque uma religião associada ao amor ao próximo guarde em si tantos exemplos que não são exatamente amorosos.
Quanto a Lutero, bem, continuo achando-o um crápula. Racistas, em qualquer época, são crápulas. Um cara que dá ordens de matar pessoas não pode ter nenhum tipo de concessão de minha parte.
Abraço e volte sempre!
Lelec
Reply
on Nov 9th, 2009 at 8:14 pm
Oi Leo, estou há dias pra comentar aqui mas não tenho conseguido, a tal ponto que nem lembro direito tudo que eu tinha pra dizer nesse seu post extraordinário (bom, considerando que todos os seus posts são extraordinários, eles acabam sendo relativamente ordinários, hehehe).
De toda forma, fico me perguntando até que ponto a pergunta ideal é essa, se o nazismo foi cristão ou se o cristianismo contém em germe algo como o nazismo. Ou se religião, em geral, cai sempre para esse lado. Ou ainda, se Lutero foi um facínora ou a truculência faz parte do jogo, não digo político, mas histórico (depois explico a diferença, se der tempo). Todas essas perguntas são sem resposta, porque sempre é possível encontrar exemplos históricos que corroborem uma ou outra tese, ou elementos teóricos que fundamentem esta ou aquela suspeita. Na verdade, acredito que sempre é preciso se apoiar na sabedoria de Henri Bergson, que já dizia: o importante não é encontrar a resposta das perguntas difíceis, mas sim encontrar as perguntas mais justas para o problema. Nesse caso, a resposta vem quase na seqüência.
Sendo assim, se queremos saber qual foi a ligação entre o cristianismo e o nazismo, não creio que baste falar em intolerância e violência. Grande parte da força do nazismo veio do fato de unir, sob a égide de um controle técnico ultramoderno e uma propaganda virtuosística, todas as dimensões daquilo que os franceses chamam de “le politique”, em oposição a “la politique”, a simples disputa do poder. “Le” politique envolve toda a organização de uma sociedade (originalmente, na Grécia, uma cidade, a pólis), então parte de diversos aspectos da vida coletiva humana: a moral, a memória, a estética, a economia, a ciência e por aí vai. No século XX, talvez só o marxismo sido uma corrente tão abrangente, mas cá entre nós, só em raros instantes de sua história e por um desvio enorme em relação à teoria.
Mas não estamos falando de marxismo, estamos falando de nazismo; continuando, tampouco basta apontar o dedo para quem o apoiou, tipo Pio XII e quetais. O nazismo foi apoiado pelas gentes as mais inesperadas. Gerschom Scholem e Erich Auerbach estavam em Jerusalém quando chegou a notícia de que os russos tinham retomado Stalingrado. Pois bem, eles viram muitos judeus-alemães chorando de tristeza. Em grande medida, isso se deu porque eles se sentiam acima de tudo alemães, apesar das leis de Nuremberg que lhes tiraram a cidadania, além de todas as atrocidades que à época eram conhecidas (a “Solução Final” não tinha sido decidida, mas já se sabia de campos de concentração, por exemplo). mas também porque eles sentiam que o comunismo soviético era uma ameaça maior do que o nazismo. Você certamente já viu a cena de Cabaret em que o burguês alemão diz: esses caras nos livram dos comunistas, depois nós nos livramos deles. Pois bem, esse espírito reinava em todos os cantos, na França, na Inglaterra, nos EUA (Lindbergh que o diga). O tratado de Munique não foi “um erro”, no sentido em que eles “sabiam o que estavam fazendo”… só não sabiam o suficiente.
Estou me desviando da questão da religião, desculpe. Mas só quero mostrar que, se vamos encontrar relação entre nazismo e religião, não vai ser particular, entre indivíduos precisos; nem vai ser doutrinária. O nazismo foi um movimento político e, como tal, soube cooptar outros movimentos, mesmo inimigos. Goebbels, em seu diário, espinafrava a religião, mas casou na igreja, com Hitler, outro que espinafrava a religião, como padrinho (recomendo o estranho, mas interessante documentário The Goebbels Project, narrado por Kenneth Branagh). Mas a cooptação é uma coisa normal na política, e, não vamos esquecer, a primeira função das religiões é e sempre foi política (ih, mais uma coisa pra explicar depois).
Então eu queria propor outra pergunta: será que, por se querer tão politicamente absoluto, aliás tão moralmente, esteticamente, historicamente absoluto, o nazismo não acabou sugando muita coisa da forma religiosa de pensar? Será que ele não preencheu o vazio no inconsciente de um povo acostumado a séculos de ensino e prática religiosos (sim, Das Weiße Band, você disse tudo.)?
E a resposta é sim. Vá qualquer dia desses numa missa católica de Paris e veja os coroinhas, com seus uniformes, ostensórios, velas, marchando no meio do público com a cabeça erguida, ao som de uma música sublime, naquele ambiente grandioso. Agora veja vídeos da Hitlerische Jugendheit marchando pelos vilarejos alpinos, ovacionados pela multidão. É um aprendizado subliminar e estético que dá o gosto do grandioso, do transcendente, e, acima de tudo, do poder.
O mesmo vale para o estabelecimento de um ideal futuro de graça e redenção, seja na figura do Juízo Final, seja na da Alemanha eterna, o Reich de mil anos etc. Pense na Jerusalém Celeste e nos planos de Speer para Berlim e para Linz (cidade natal do cabo austríaco).
A questão da arte é mais sutil: o neoclassicismo fascista tenta ressuscitar o princípio grego da arte contemplativa, divina. Uma forma de louvação, diriam os Renascentistas.
A oratória dispensa comentários… O conceito de uma falta passada (os “traidores de novembro”), a noção de comunidade (muito forte entre judeus e luteranos), o conceito de povo eleito.
Às vezes esquecemos, mas nazismo não é só holocausto. Na verdade, é até possível interpretar o extermínio programado como catarse mecanizada, uma atualização, para a era industrial, de um princípio de epuração que vem desde Sófocles e passa por S. Francisco e Ignácio de Loyola. Dentre todos os genocídios que já houve no mundo, o que há de mais particular no holocausto é o caráter gerencial e taylorista (Hitler era louco por Henry Ford).
A evocação do conceito de sacrifício perante os bombardeios aliados… talvez não haja conceito mais cristão que o sacrifício, a luta contra seu próprio interior.
Não é surpresa que o nazismo tenha cegado muita gente. Falou justamente onde eles mais escutariam. Pessoas acostumadas a 2000 anos de valores absolutos, projeções históricas e esperança de salvação. Nem por isso podemos dizer que um é o outro ou que um necessariamente leva ao outro. A correlação, porém, existe.
Fico por aqui, que já escrevi demais…
Abraço!
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leocruzsouza Reply:
November 11th, 2009 at 9:32 am
Oi Diego, mon ami,
Seu comentário é daquelas coisas que me convence que blogar vale muito a pena, só pelo privilégio de poder conversar com gente como você.
Muito obrigado, de coração.
Há tanta coisa preciosa no seu texto que gostaria de fazer dele um post aqui no TMS. É claro, se você deixar…
Tenho aqui em casa um livro para lhe dar e que tem tudo a ver com a nossa discussão. Preciso lhe ver para lhe entregar o livro.
Abraço e, mais uma vez, muito obrigado,
Léo
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andreegg Reply:
November 12th, 2009 at 3:15 am
Sobre o Fordismo de Hitler, tem um texto interessante aqui, sobre o fato de o eugenismo ter surgido nos EUA, imitado por Hitler e praticado com absoluta eficácia:
http://www.baciadasalmas.com/2009/hitler-teve-ajuda/
Sobre os genocídios do Antigo Testamento, leve em conta que a maioria deles não aconteceu, é tudo contação de vantagem, para tentar mostrar que os hebreus teriam sido muito mais poderosos do que jamais foram, apoiando-se na imagem de um “Senhor dos exércitos” invencível. É assunto que dá muito pano pra manga.
Como da pano pra manga a “crapulice” nogenta de Lutero.
Que preguiça.
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on Nov 9th, 2009 at 8:51 pm
[...] estou preparando um longo comentário a este post do NPTO, mas nesse meio tempo deparei com este outro no A terceira margem do Sena, que achei bem a calhar. [...]
on Nov 18th, 2009 at 3:05 am
Lelec,
Não é preciso ser gênio para ver que o nazismo é o exato oposto do que pregava Jesus. Que alemães, cristãos ou não, tenham caído na armadilha do nazismo é a evidência de que delegaram suas consciências ao partido, o que é a essência do totalitarismo (de esquerda ou direita): a eliminação do indivíduo. E isso é o exato oposto do que prega o Cristianismo.
Os nazistas e sua propaganda foram eficientes em recrutar as consciências dos alemães, o que é uma vergonha eterna para Alemanha.
Que o cristianismo os tenha impelido a escolher o nazismo isso já é uma mentira e um absurdo (não que vc tenha afirmado isso).
O fato é que o Cristianismo deu as bases morais da civilização ocidental. E estamos hoje melhor com essas bases do que possivelmente estaríamos sem elas.
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leocruzsouza Reply:
November 20th, 2009 at 8:49 am
Oi Fernando,
Muito obrigado pela visita e pelo comentário.
É verdade que alguns ensinamentos de Jesus se confrontam com os ideais assassinos do nazismo. É o caso do “dar a outra face a quem lhe ofende” e do “fazer ao outro aquilo que você gostaria que lhe fizessem.”
Mas o Cristianismo não é apenas isso. Há muitos textos do Velho Testamento que pregam claramente a eliminação de indivíduos pelo simples fato de pertencerem a outra tribo e de se ajoelharem perante um outro deus. Leia a conquista da Terra Prometida, por exemplo. Tudo isso faz parte da Bíblia, o livro que fundamenta o cristianismo.
O ponto principal da minha reflexão é que cristianismo e nazismo não são duas coisas incompatíveis. O fato de milhões de cristãos terem apoiado Hitler o demonstra. A própria D. Magda (pessoa que eu conheço, não é lorota) é emblemática: mais de 60 anos depois da queda de Hitler ela ainda o defende, mesmo sendo uma cristã devota. O cristianismo não é uma vacina contra o totalitarismo assassino.
Há ainda um outro ponto que é fundamental: a observação de que o nazismo e o cristianismo têm, em alguns pontos, simbolismos e linguagem muito parecidas, ao menos quando as passagens bíblicas são lidas literalmente. Quando Jesus falou “que o galho que não permancer nele será cortado, lançado fora e queimado”, ele deu uma imagem para a intolerância. Tanto o nazismo, como o cristianismo (como qualquer religião ou crença metafísica), em dado momento, exige o sacrifício da crítica da razão e do abraçar o sobrenatural (a ressureição dos corpos e os milagres, por exemplo). Mesmo o ideal de pureza espiritual do cristianismo guarda suas semelhanças com o nazismo. O Diego aí em cima foi no “x” da questão. O filme “Das Weiße Band”, vencedor de Cannes neste ano, aborda o assunto: como o ideal de pureza cristão degenerou na “pureza” ariana. Não deixe de ver o filme.
Quanto à afirmação de que o Cristianismo deu as bases morais do Ocidente, isso é uma afirmação de fato, e não de valor. Nesse pacote, vale lembrar, vieram um monte de coisas ruins, como, por exemplo, a misoginia e o próprio anti-semitismo. E não dá para saber se estaríamos melhores se o Ocidente tivesse sido gestado sob outra formação religiosa. Isso é pura especulação.
Abraço
Lelec
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andreegg Reply:
November 23rd, 2009 at 2:12 pm
Fernando,
A eliminação do indivíduo é o contrário do que prega o cristianismo? Mas a noção de indivíduo é muito recente. A cristandade foi um totalitarismo, certamente.
Lelec,
a Bíblia não é o “livro que fundamenta o cristianismo”. Talvez você esteja tomando o discurso calvinista como base. No catolicismo o cristianismo é fundamentado na autoriadade do magistério da igreja. E há muitos cristianismos, cada um com uma proposição diferente neste aspecto.
Acho que o único mínimo comum a unir o cristianismo é o exemplo de Cristo. Que uns procuram seguir mais, outros menos.
Ademais, como propôs o Diego Vianna aí em cima, precisa-se tomar cuidado em atribuir ao cristianismo coisas que aconteceriam sem ele. Ous seja, verifique se os não-cristãos estavam muito melhores na situação.
De qualquer forma, percebo que há de sua parte uma tentativa de problematizar a noção de que o cristianismo (seja lá qual for) represente o bem, enquanto o mal está fora. É mentira. Bem e mal estão dentro e fora. São capazes de conviver em impressionante harmonia.
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leocruzsouza Reply:
November 23rd, 2009 at 6:04 pm
Oi André,
Mais uma vez, muito obrigado pela sua participação, sempre tão enriquecedora.
Sim, minha afirmação de que a “a Bíblia é o livro que fundamenta o cristianismo” é essencialmente protestante e calvinista. Mas, mesmo o catolicismo romano, ao que me parece, fundamenta-se na Bíblia, mas acrescenta como fundamento também a autoridade eclesial. Se estiver errado, por favor me corrija.
Sim, concordo com você que bem e mal estão dentro e fora do cristianismo. Concordo que bem e mal podem viver em impressionante harmonia — a d. Magda está aí para me lembrar disso. Acho que deixo isso bem claro quando afirmo no texto:
“A verdade é que qualquer debate sobre a influência da religiosidade sobre o comportamento moral é abortado quando se deixa de reconhecer que crimes hediondos e boas ações foram cometidos tanto por pessoas apegadas a um teísmo (qualquer que seja a religião), quanto ao ateísmo.”
O que causa mal estar — e acredite, está causando muito mal estar… — é justamente isso: o fato de eu dizer que não há só coisas boas no cristianismo, há coisas más também. Como, aliás, há em qualquer construto humano.
E, claro, concordo: se não existisse cristianismo, as pessoas arrumariam outros motivos para se matarem ao longo da história. Tem gente que mata pelo futebol. Inclusive pelos times ridículos que nós torcemos.
Abraço
Léo
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andreegg Reply:
November 28th, 2009 at 3:39 pm
Talvez não deixei muito claro, mas acho que é mesmo muito importante romper com essa pretensão de “monopólio do bem” pelo cristianismo.
E o teu texto é um grande serviço, especialmente a leitores ainda presos a esta ideologia.
Mas à primeira lida será sempre chocante.
Você viu o trackback aí embaixo? Um amigo meu “entrou na briga”. Os textos dele são muito bons, dá uma olhada.
leocruzsouza Reply:
November 28th, 2009 at 6:54 pm
Oi André,
Vi sim o texto do seu amigo. Respondi às críticas lá no blog dele. Se quiser, dê uma olhada.
Discordar pode, mas distorcer o argumento, como ele fez em alguns pontos, aí não dá.
Abraço e obrigado pela participação nessa discussão.
Diego Viana Reply:
December 1st, 2009 at 4:46 pm
Egg, só quero propor uma coisa que me parece muito importante: o cristianismo, aplicado à política (como gestão social) conduz fortemente a um holismo, não a um totalitarismo. Esse último é um fenômeno muito circunstrito a um determinado estágio das condições técnicas, ao poasso que o holismo é um princípio político que, se fundamenta o totalitarismo, não pode se confundir com ele. Ao contrário do totalitarismo, o holismo não pressupõe um Estado onipresente, apenas a articulação de todas as camadas sociais, entendidas como engrenagens de uma máquina ou, melhor dizendo, membros de um corpo. Existia holismo antes do cristianismo (Platão) e o primeiro grande holista crisão foi Agostinho (De Civitas Dei), ao passo que o totalitarismo surge com Gentile e Mussolini (tudo pelo Estado, nada fora do Estado).
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on Nov 22nd, 2009 at 4:58 pm
Olá, Gian! Li cada palavra e até alguns comentários. Excelente texto! É sempre bom tomar conhecimento de coisas que a maioria das pessoas parece ignorar ou procura ignorar quando percebe que há um texto um pouco mais longo para se ler. Não tenho idéia formada sobre muitas coisas, principalmente religião. Mas pendo para a incredulidade quando vejo as coisas horríveis que já foram feitas em nome de Deus.
Parabéns pelo blog. Volto mais vezes.
Abração,
Reply
leocruzsouza Reply:
November 23rd, 2009 at 7:44 am
Obrigado pelo comentário… Mas eu não me chamo Gian, não.
Abraço e volte sempre!
Reply
Diego Viana Reply:
December 1st, 2009 at 4:47 pm
Rá! Eu sabia!
Reply
on Nov 26th, 2009 at 4:33 pm
[...] TEOLOGIA por André Tavares em 26/11/2009 Resolvi publicar aqui um comentário sobre o texto Uma boa velhinha, de Léo Cruz Souza, indicado por André Egg por ocasião de nosso debate suscitado pelo artigo [...]
on Feb 18th, 2010 at 5:48 pm
Para leocruzsouza Reply:November 11th, 2009 at 9:24 am. Citaste as Testemunhas de Jeová como “contra-exemplo que mostra a coragem dos que assumem os ideais que defendem”. Já leste a “Declaração de fatos”(documento que relata a verdadeira posição do presidente TJ em relação aos ideais de Hitler)? Poderás também encontrar revelações interessantes no material produzido pelo historiador James Penton; ele pesquisou sobre a verdadeira posição das TJ na Segunda Guerra Mundial. Acesse indicetj.com – Flertando com o inimigo – Hitler (Por Wagner S. Cunha)
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on Apr 28th, 2010 at 2:02 pm
Caro Leonardo,
Tudo bem? Rapaz, depois de muito demorar, eu fiz o “dever de casa”, pude consultar as leituras que vc indicou. Respondi seu comentário (ainda se lembra disso? hehehe). Creia-me: tudo em muito boa paz. Abraço.
Reply
on May 18th, 2010 at 4:08 pm
[...] de um indivíduo, às vezes de maneira latente e disfarçada, outras, nem tanto… Tal como a D. Magda e aquela anônima covarde, trata-se apenas de mais uma ilustração de uma constatação [...]