Não apenas o futebol carioca, mas todo o campeonato brasileiro perderia brilho no pós-92 – um golpe que, sem dúvida alguma, se fez mais sentido no Rio.
Em 1992, o técnico campeão brasileiro foi Carlinhos, homem de hábitos simples, de fala tranqüila. Em 1993, o treinador vencedor já seria Vanderlei Luxemburgo.
Começava o deplorável processo de endeusamento e supervalorização de técnicos de futebol. Foram-se raposas velhas como Cilinho, Ênio Andrade e Jair Pereira (nosso queridíssimo Joel Santana ainda está aí, representando a turma). Surgiram tecnocratas com pretensão a estrelas, como Luxemburgo, Tite, Autuori e PC Gusmão. Vieram o mau humor de Muricy, a arrogância de Leão, os ternos do Luxemburgo.
(Por princípio, eu não confio em técnico de futebol que usa terno).
O futebol brasileiro perdia o verniz de malandragem que sempre lhe fez bem. Saía de cena Júnior, o lateral que fuma e toca samba. Renato Gaúcho, craque cafajeste que colecionava musas da Playboy, também se retiraria daí a pouco.
Sim, pode-se argumentar que a década de 90 ainda ainda veria bad boys como Edmundo e o capetinha Edílson. Mas os campos de futebol tornaram-se cada vez mais os espaços fashion de metrossexuais como David Beckham e Cristiano Ronaldo. Não teríamos mais as barbas do Afonsinho e do Sócrates, nem as cabeleiras do Biro-Biro e do grande (e bigodudo) Raphael. Apareceram jogadores que entram em campo com cabelo cuidadosamente ajeitado com gel, como o goleiro Fábio, do Cruzeiro.
E ainda viriam o bom-mocismo de Kaká e o proselitismo religioso barato dos Atletas de Cristo, com suas camisetas de marketing evangélico na hora do gol e suas chatíssimas celebrações nas vitórias.
E os anos 90 viram aprofundar-se a nefasta tendência que esvaziou nossos campos dos nossos melhores craques, exportados cada vez mais jovens para pólos futebolísticos do naipe de Turquia, Ucrânia e Grécia. Em contrapartida, clubes brasileiros passaram a acolher alegremente crepúsculos de craques.
No Rio, a decadência foi maior que alhures. Houve lampejos de brilho, como em 1995, com a mais sensacional final de estadual de todos os tempos. Teve também o excelente Vasco de 1997-2000.
Mas o saldo carioca a partir de 1992 é francamente negativo.
A hegemonia dos anos 80 ficou para trás, e a geopolítica do futebol brasileiro mudou de mando nos anos 90. Até 1992, os times do Rio falavam grosso na cena nacional. Desafiavam de igual para igual equipes fortes como o Galo de Reinaldo, o Inter de Falcão, a Democracia Corinthiana e os Menudos do São Paulo. A partir daquele ano, tudo definharia.
Nos dezesseis anos anteriores a 1992, foram sete títulos nacionais cariocas (Fluminense 84, Vasco 89 e Flamengo 80, 82, 83, 87 e 92): quase um a cada dois anos.
Nos dezesseis anos entre 1993 e 2008, o campeonato brasileiro ficou no Rio em apenas três ocasiões (Botafogo 95, Vasco 97 e 2000) – um título a cada cinco anos.
No mesmo período, três dos quatro grandes cariocas caíram para a segundona, com o Fluminense amargando uma inacreditável terceira divisão. Em São Paulo, apenas dois dos quatro grandes caíram.
O São Paulo alcançaria o inquestionável status de time brasileiro mais vitorioso de todos os tempos, conquistando três títulos continentais, três mundiais e mais três campeonatos brasileiros.
O Palmeiras resgataria o prestígio das décadas passadas, com o esquadrão da Parmalat, que ficaria para sempre na memória dos amantes do futebol-arte. Um time vencedor, que implodiria o jejum de estaduais em 1993 e ainda dominaria o Brasil (Brasileirão 93-94, Copa do Brasil 99) e a América (1999).
O Corinthians, que tinha apenas um solitário título nacional – solitário como o gol de Tupãzinho na final de 1990 – venceria o campeonato por mais três vezes.
O Santos reviveria a chama dos anos 60, na brilhante geração de Robinho, Diego, Léo e Elano, que encantaria o Brasil.
O Internacional despertaria após anos de dominação gremista, e pintaria a América e o mundo de vermelho (2006).
Vieram outros campeões, como o Furacão de 2001.
O Cruzeiro se sagraria como um dos maiores papa-títulos do país, com o tetra da Copa do Brasil (93, 96, 2000 e 2003), o bi da Libertadores (97) e o Brasileiro de 2003, o qual ganhou de forma arrasadora.
Tudo ao redor da Gávea crescia, progredia, evoluía. O arquirival montava o maior time de sua história, vencia o Brasileiro por duas vezes (1997 e 2000) e conquistava a América (1998). Clubes como São Paulo e Cruzeiro modernizaram e profissionalizaram suas administrações. Times pequenos, porém competentes e organizados, ascendiam, como o São Caetano.
O Mengo definhava.








on Dec 17th, 2009 at 4:40 am
Caro amigo.
Esqueceu que depois que a profissionalização dos atletas, dos técnicos, o futebol perdeu parte do seu encanto, aquela aura de amadorismo, de amor pelo que se faz, meu avô jogou no Palmeiras de 1937-38, sendo campeão em cima do corinthians…melhor impossível né ???
O futebol perdeu também a sua paz, com a imprensa sempre dizendo frases de efeito como : Guerra nos Aflitos ou Batalha no Olímpico e os menos favorecidos de massa encefálica aproveitam para descambar a violência e selvageria.
Futebol hoje, infelizmente só pela tv e olhe lá.
Grande abraço, um santo natal para você e sua família.
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leocruzsouza Reply:
December 20th, 2009 at 11:45 am
Oi Marcello,
Muito bom seu comentário, como sempre. Estou de acordo: a violência das torcidas teve uma contrapartida no belicismo do linguajar futebolístico.
Isso é uma coisa que me impressiona muito, assim como aquelas invectivas raivosas, toda vez que o Brasil joga contra a Argentina. A maioria dos brasileiros nunca viu um argentino na vida e, ainda assim, tem raiva deles, por conta desses locutores que destilam ódio contra os portenhos.
Futebol não é isso, esporte não é isso, a vida não é isso.
O futebol era mais futebol na época do seu avô…
Abraço e boas festas para você e sua família!
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on Dec 18th, 2009 at 9:15 pm
rápida e contundente análise dos últimos 20 anos do ludopédio no Brasil.
Assino embaixo.
abç
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leocruzsouza Reply:
December 20th, 2009 at 11:45 am
Obrigado, Guga! Volte sempre!
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