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VI. Dezessete anos essa noite: O amor apaziguado

 

 

Hoje, tudo parece ter sido uma profecia que se cumpriu.

Tanto tempo depois, após anos de derrotas e frustrações, é difícil um torcedor apaixonado olhar para o passado do Mengo e não ver simbolismos premonitórios em alguns lances cruciais de sua história.

É inevitável, por exemplo, rever a jogada que definiu o título nacional de 1987 e não ver ali o prenúncio da sabedoria que traria a redenção futura. O passe preciso e iluminado de Andrade, rompendo a defesa colorada na única brecha possível, levando a bola até os pés de Bebeto que, com uma estocada certeira e fatal, desvia a bola de Taffarel. O lance é quase profético: o experiente Andrade dialoga com um menino, arma a jogada que redunda na glória.

 

Aquele passe genial não terminou apenas nos pés de Bebeto.

 

Porque aquela bola lançada por Andrade foi como uma sonda espacial, como a Viking, que vaga indefinidamente pelas galáxias, desgarrada do tempo.

 

Essa sonda espacial futebolística lançada dos pés de Andrade registrou tudo: as derrotas fatídicas do Mengo pós-92, as chacotas, a perda da identidade rubro-negra. Viu também momentos mágicos, como o antológico gol de Petkovic contra o Vasco, ou o elástico do Romário sobre o Amaral.

 

Mas o que mais essa bola viu foi decepção na Gávea.

 

A bola-sonda lançada por Andrade em 87 vagou durante anos a fio no breu flamenguista, até voltar ao Mengo de 2009, dando-lhe uma luz, tal qual a de uma estrela: uma luz que vem do passado, para iluminar e para encantar.

 

E, a partir do brilho vindo outra vez de Andrade, refez-se a história do Mengo, revivida em outra dimensão. Uma história nova, mas iluminada pela mesma sabedoria que lançou a bola para Bebeto.

 

Em 2009, a história do Mengo se dobrou sobre si mesma, revisitou aquela tarde de 87.

 

Assim como a chave para vencer aquele jogo dificílimo foi o diálogo de Andrade com o jovem camisa 9, o redentor título brasileiro de 2009 veio do diálogo desse mesmo homem com uma nova geração de jogadores.

 

E, se aquele gol decisivo não é um golaço – é bonito pela participação de todo o time na construção da jogada – o time de 2009 também não foi espetacular, mas jogou um futebol coletivo, direto e bonito, como deve ser o futebol bem jogado: sabedoria que revive.

 

Entre o técnico Carlinhos daquele título de 87 e o Andrade de 2009, dois homens simples e com forte identificação com o clube, desenhou-se uma parábola que passou por Luxemburgo, Autuori, Gusmão, por tecnocratas que nunca deveriam ter comandado a Gávea. O título que pôs fim ao jejum só poderia ter vindo pelas orientações decisivas de Andrade, assim como o título de 1987 veio da sua precisão cirúrgica.

 

A história do Mengo também se repete no gol de Andrade contra o Botafogo em 1981, que ganha igualmente uma dimensão monumental, profética, tal qual seu passe decisivo para Bebeto.

 

O homem que fez o gol que sacramentaria a “Vingança” foi também o homem que protagonizou em 2009 uma vingança longamente almejada.

 

A vingança de dar ao Mengo um título nacional depois de tantos anos sendo chacoteado e surrado por rivais de todo o Brasil.

 

A vingança dos negros brasileiros, que tantas glórias deram ao futebol deste país, mas que sentiram na alma que este mesmo futebol brasileiro foi palco de boçais demonstrações de racismo nos últimos anos (excrescências aqui e aqui). Sim, Andrade os vingou, tornando-se o primeiro negro a se consagrar campeão brasileiro como técnico.

 

E, sobretudo, Andrade vingou-se pessoalmente. O homem que tem dicção e português ruins, que sempre era visto como um “quebra-galho” na Gávea, sempre preterido diante de técnicos estrelinhas e burocráticos, tornou-se campeão brasileiro de futebol – ganhando um modesto salário de funcionário comum do clube.

 

A vingança de 2009 se reencontra com a vingança de 1981.

 

Andrade revisitou e fez reviver o amor que o Mengo tem por si mesmo e pelos seus próprios ídolos: no dedicar de sua primeira vitória como técnico ao recém-falecido goleiro Zé Carlos, campeão em 87, as lágrimas de Andrade encontram-se com as de Mozer ao falar de Zico.

 

Andrade e seus jogadores fizeram reviver o Flamengo que chora, que catimba, que luta, que xinga, que joga bola.

 

Uma vez Flamengo, sempre Flamengo – e esses dezessete anos mostraram que seríamos Flamengo para sempre, ainda que tivéssemos que aturar mais dezessete séculos de gozações dos rivais, ainda que continuássemos a ter um time indigno de si mesmo e de sua história.

 

Hoje, tanto tempo depois, Andrade e o Mengo de 2009 nos deram o que mais precisávamos, algo que transcende o próprio título nacional: apaziguar o maior amor que um dia já existiu por um time, pelo clube de futebol mais sensacional de todos os tempos, o meu Mengão.

 

 

 

PS1: Ponho aqui fim a esta série sobre o Flamengo, antes que meu chefe me demita por monotematismo recalcitrante grave. A partir do próximo post, voltarei a falar de assuntos irrelevantes.

 

 

 

 

PS2: Eu já morava fora do Brasil, quando, sintonizado na CBN, aguardava o programa CBN Esporte Clube. Qual não foi minha surpresa ao ouvir o hino do Mengo na voz de Tim Maia (versão acima), com o qual Juca Kfouri abriu seu programa naquela noite – era 15 de novembro, aniversário do Flamengo. Era meu primeiro outono na Europa. Longe do Brasil, da família e dos amigos, nesse frio horroroso e ainda sem a Lelequinha, não teve jeito: chorei mesmo.

 

PS3: E uma deliciosa versão em inglês do hino de futebol mais lindo do mundo: 

 

 

PS4: Algumas fotos para terminar:

 

 

 

Nunes, o danado. Depois de um drible desmoralizante em Silvetre, Nunes fez, de bico, o gol que daria o primeiro título nacional ao Mengo. Silvestre seria satanizado pela torcida do Galo, até que, em 2005, a diretoria do Atlético-MG rendeu uma bonita homenagem a esse homem que tanta ama o grande alvinegro mineiro. O choro de Silvestre pela homenagem do  Galo – captado pelas câmeras do Globo Esporte – é algo absolutamente comovente.

 

A explosão de alegria de Júnior, o vovô-garoto, no Penta de 92: a imagem perfeita da alegria de ser rubro-negro.

 

Não tem para Pelé, Maradona, Cruyff ou Zidane. O maior jogador de futebol de todos os tempos é Zico. Pergunte para qualquer flamenguista.

 

 

Petkovic acaba de fazer um gol antológico em uma partida épica: Mengo tri-estadual sobre o Vice da Gama.
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1 Comentário on “VI. Dezessete anos essa noite: O amor apaziguado”

  1. #1 Sandra Leite
    on Feb 1st, 2010 at 6:02 am

    Oi, Léo

    Lembrei de você: Flamengo 5 x Fluminense 3.

    Tá rindo à toa né? :)

    beijo

    [Reply]

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