– Eu quero as Havaianas do Geraldão, disse à Lelequinha.
Foi na época em que as Havaianas lançaram aquela série especial de sandálias com temas de cartunistas brasileiros.
Lelequinha procurou, procurou, mas não achou as do Geraldão (ah, se tivesse uma com o Bimbolover…). Mas encontrou um outro par do Glauco, com aqueles indiozinhos que sempre acompanham o Cacique Jaraguá.
Quando fechei a mala para sair do Brasil, conferi para ver se as sandálias estavam vindo.
Estão aqui até hoje, surradas, descoloridas nas bordas: a Lelequinha, outro dia, ainda queria jogá-las fora…
Se antes eu já nem cogitava de me desfazer das sandálias, hoje muito menos.
Resta-nos rever as tirinhas. E guardar com carinho as Havaianas desenhadas pelo grande e inesquecível Glauco.
PS: Aqui vão algumas tirinhas…























on Mar 14th, 2010 at 12:51 pm
Léo, querido.
Fiquei e continuo muito chocada com o que houve.
O assassinato do Glauco bateu forte aqui dentro, pois significou, para mim, o assassinato de minha geração; e por meio de uma violência brutal e irracional que não combinou em nada com seu alvo: alguém que construiu sua visão de mundo e seu modo de viver a partir dos valores da solidariedade, da busca espiritual, da generosidade, da gentileza.
Minha geração, herdeira da liberdade dos anos 60, teve de sobreviver a muitas mudanças e dores.
Tivemos de suportar o regime militar, tivemos de adaptar a expressão da nossa sexualidade e domar nossos monstros internos diante do surgimento e da ameça da aids, que nos foi radicalmente concreta e que nos fez perder tantas pessoas queridas, ídolos ou amigos próximos. Conseguimos sobreviver a mudanças vertiginosas no campo da estética, da tecnologia, do comportamento e até da ética, que já há alguns anos vem pendendo descaradamente e sem nenhuma vergonha, para as bandas da perversão, da psicopatia. Apesar de tudo, sobrevivemos e não envelhecemos. Estamos bem aqui e agora, vivos, atuantes, ativos.
Mas está difícil demais respirar num mundo onde as noções de bem e mal, certo e errado, o eu e o outro, o feminino e os masculino, vida e morte, amor e ódio, se tornaram tão misturadas.
Nem um culpado nesta triste tragédia consigo achar. Nem um sentimento ruim consigo sentir em mim. Nem uma via para canalizar, para um e só um objeto, a culpa.
O garoto que assassinou Glauco talvez seja a mais trágica das vítimas.
Não sei por quem mais me compadeço: se por Glauco e seu filho; se pelos seus familiares; se pelos familiares do assassino; se pelo assassino-menino-transtornado; se pela minha geração, que se vê obrigada a se situar numa realidade muito mais dura do que estávamos dispostos a assumir; ou se por mim, que me vejo tão fragilizada, em meio a tanta loucura urbana, humana, contemporânea.
Muito triste isso tudo.
Órfã, uma vez mais.
Beijo, Léo.
d.
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leocruzsouza Reply:
March 16th, 2010 at 9:53 am
Oi chère Deborah,
Muitíssimo obrigado pelo seu comentário, sempre tão sensível e profundo. Ele merecia virar um post…
Suas palavras me fizeram pensar em um monte de coisas, especialmente sobre o impacto pessoal (individual) de pessoas que têm uma projeção coletiva. Essa tensão entre o individual/coletivo é algo que me fascina. Incrível como somos sensíveis, como repercutimos na escala individual fatos que ocorrem com pessoas que são símbolos geracionais. Talvez porque parte daquilo que somos, parte da nossa história individual, se encontre “fora” de nós, nos desenhos do Glauco, na música de Renato Russo, na letras de John Lennon. Daí a dor quando eles partem…
Um mundo em que nossas referências se vão é um mundo que nos faz tristes.
Não sei se me fiz entender, tudo isso é muito confuso.
Mas agora serei bem claro: é muito, muito bom tê-la aqui, sua presença é sempre muito enriquecedora para mim. Volte sempre, por favor…
Bises, bises
Léo/Lelec/como queira…
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on Mar 15th, 2010 at 12:24 am
Suas havaianas são sensacionais! E o céu vai ficar bem mais animado com o “Geraldão” animando os anjinhos com o seu imenso talento. (vou experimentar twittar esse seu post, ficou bem bacana!)
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leocruzsouza Reply:
March 16th, 2010 at 9:44 am
Ei ei Sílvia, muito obrigado pela leitura e por “viralizar” este texto… Beijo
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on Mar 17th, 2010 at 10:50 am
Acho que se fez entender perfeitamente, querido Léo.
E vc. entendeu meu sentimento perfeitamente também.
Merci.
Vi Avatar e fiquei fascinada com a maneira pela qual eles trataram a questão da interconexão do todo com a parte. Estou convencida de que formamos uma rede, queiramos ou não. E o que atinge o outro sempre nos atinge (não sei se cheguei a falar com vc sobre algo que ouvi sobre o suicídio, pensado neste contexto). Enfim. O fato é que a comoção, a emoção, nos falam muito mais forte quando se trata de alguém que, de certo modo, canalizou anseios e valores de toda uma geração, como foi o caso do Glauco (e em cuja geração e respectivos valores, vejo-me inteira, imersa).
Mas, na verdade, minha maior tristeza se refere à constatação de que esta geração, da qual Glauco fazia parte e eu, de carona, também, é uma geração que até hoje tropeça no mundo dito real. E isso me entristece muito.
Mas isso seria assunto para outra reflexão.
Por enquanto, sigo no meu processo de luto, mas um pouco mais resignada.
Meu sempre muito obrigada pelo carinho com o qual vc sempre me recebe – aqui ou fora daqui.
beiio enorme,
déh
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on Mar 19th, 2010 at 3:18 am
O choque, a saudade, e o eterno sentimento de injustiça.
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on Mar 28th, 2010 at 11:35 pm
Que coisa mais doce, bem humorada e inteligente o seu blog!
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leocruzsouza Reply:
March 29th, 2010 at 1:15 pm
Puxa, muito obrigado pela visita e pelo elogio! Vou aparecer lá no seu blog, pode deixar…
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on Mar 29th, 2010 at 11:40 am
Eu também quero havaianas do Glauco. Que saudades!
Solange
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leocruzsouza Reply:
March 29th, 2010 at 4:26 pm
Tente arrumar um par pra você, mas acho que agora vai ser difícil, né?
O meu par está aqui, guardadinho…he he
Obrigado pela visita e volte sempre!
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on Apr 4th, 2010 at 11:55 pm
Faltou tiras do Doy Jorge.
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