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Dos que condenam à fogueira

Monumento em Annemasse, França: “A Michel Servet, apóstolo da liberdade de crença, nascido em Villanueva d’Aragon em 29 de setembro de 1511, queimado em efígie pela Inquisição Católica em Vienne em 17 de junho de 1553 e queimado vivo em Genebra em 27 de outubro de 1553 por instigação de Calvino.” (tradução livre)

 

 

“Matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem.”

Sébastien de Castellion, “Contra Libellum Calvini”, 1554

 

Há muitos livros que eu gostaria de ter escrito, e poucos mais do que “Uma Consciência contra a Violência: Castellion contra Calvino”, de Stefan Sweig.

Partindo do ignomioso julgamento e do martírio na fogueira do espanhol Miguel Serveto (1511-1553), condenado por João Calvino (1509-1564) por heresia contra a Trindade, Sweig contrapõe o reformador Calvino ao acadêmico Sébastien Castellion (1515-1563), erigindo uma vigorosa defesa da liberdade de pensamento e uma pungente crítica ao dogmatismo religioso. Uma Consciência contra a Violência é um hino humanista, um formidável castelo erguido na terra devastada pelo fanatismo fundamentalista, pelo obscurantismo anti-humanista e pela intolerância em todas as suas formas. Nos dias que correm, de recrudescimento das tendências teocráticas no Brasil e nas Américas, a obra de Sweig deveria ser redescoberta, relida e lembrada em toda discussão sobre as relações entre poder político, religião e direitos individuais.

A leitura do livro foi também a ocasião para reler o texto “Calvino e Serveto”, de autoria do Rev. Augustus Nicodemus Lopes, proeminente nome da Igreja Presbiteriana do Brasil, instituição religiosa que, nos dias atuais, é a que porta no Brasil a teologia calvinista na sua forma mais depurada.

O texto do Rev. Augustus, eivado de clamorosos erros históricos, há tempos me chamava à atenção, clamando-me uma réplica.

Ei-la: longa, longuíssima até.

As referências usadas na elaboração do texto estão ao final – o livro de Zweig foi a principal e encorajo todos a lê-lo. Há também links ao longo do texto que podem interessar ao leitor.

Pela honestidade do debate, é de bom alvitre que, antes de se prosseguir na leitura deste, que se remeta ao artigo do Rev. Augustus.

Olha o duplipensar aí, gente!

Um dos aspectos mais eloquentes no texto do Rev. Augustus é a sua ambivalência. De um lado, quando aborda o julgamento e a decisão de punir Serveto com a fogueira, o autor trata de relativizar o poder do líder religioso: “Calvino não tinha qualquer acesso à máquina decisória do Conselho. Ele mesmo não podia votar e nem concorrer a qualquer cargo político eletivo. E mesmo quanto aos negócios da Igreja, Calvino quase não tinha qualquer poder decisório”. Quando, porém, se trata de destacar as benfeitorias no período em que Calvino liderou Genebra, o Rev. Augustus não hesita em dizer que tais avanços decorrem diretamente da ação e da influência de Calvino: “Foi ele quem instou o Conselho a afiançar empréstimos a baixos juros para os pobres. Foi ele quem defendeu a educação universal e gratuita para todos os habitantes da cidade.” E por aí vai.

Ora… Os benefícios são faceiramente atribuídos ao poder e à influência de Calvino, mas não as atrocidades?

[Argumentações calvinistas frequentemente se defrontam com esses antinômios. Afinal, o calvinismo não é uma doutrina que contem antinômios, mas antinômios que viraram uma doutrina. O que, aliás, é um artifício teológico utilíssimo: como ensinou Orwell, o duplipensar é um poderoso instrumento para cooptação de mentes e corações.]

Fugindo do recurso da ambivalência que, segundo a moralidade da ação em questão, intercambia o poder político-religioso de Calvino em dois pólos, um de muito poder, outro de ínfima influência, encaremos os fatos históricos.

A verdade é que, em Genebra, Calvino nunca foi além de pastor e de professor de teologia – mas um pastor e um professor de teologia de enorme influência na cidade, principalmente por influenciar o Conselho, instância que regia a vida social e político-administrativa da cidade. Como escreve Sweig: “Nos processos verbais do Conselho, não há um único dia em que não se encontre a seguinte menção: ‘será necessário pedir conselho ao Mestre Calvino’”.

Esse é o ponto de partida para que se entenda o que foi a Genebra de Calvino e qual o seu legado.

O poder de Calvino

Menos revela que esconde a informação do Rev. Augustus, verdadeira em si, de que Calvino “não podia votar e nem concorrer a qualquer cargo político eletivo”, tentando retratar um Calvino destituído de poder decisório – eis aqui um dos aspectos em que a contextualização do Rev. Augustus induz ao erro de entendimento histórico. Na Europa de meados do século XVI, “Estado laico” e “separação entre Igreja e Estado” são princípios tão prevalentes quanto direitos humanos e leis trabalhistas nas senzalas brasileiras do século XVIII. Na Europa pré-iluminista, ter o poder eclesiástico incorria naturalmente em ter o poder político e ter o controle do púlpito era deter uma poderosa ascendência sobre a vida político-administrativa da cidade. Na Genebra de Calvino, a submissão civil ao poder eclesiástico era ainda mais vigorosa, como é epitomado no gesto do 21 de maio de 1536: todos os cidadãos da cidade foram solenemente convocados à praça pública para declararem, mãos erguidas, desejarem viver “segundo o Evangelho e a Palavra de Deus”. 

O amálgama poder político/poder religioso se reforçaria ainda mais nos anos que viriam. Em 1541, Calvino funda o Consistório, um tribunal eclesiástico composto por pastores e anciãos. Segundo Calvino, o Consistório tinha como missão “vigiar a comunidade para que Deus fosse devidamente honrado”, e na prática, existiu como um órgão de coerção da população para obediência às leis religiosas. Também em 1541, Calvino redigiu Les Ordonnances Ecclésiastiques de la Ville (um código religioso para a cidade). Calvino exigiu, e obteve, que os cidadãos da cidade se apresentassem à catedral em grupos de dez para que prestassem “obediência absoluta” ao código eclesiástico.

Calvino, responsável pelo púlpito da principal catedral de Genebra, e instalado com a missão expressa de aprofundar a Reforma na cidade, tinha, portanto, notável poder.

E, na sua obra-prima, As Institutas (1536), Calvino revela como percebia o exercício do poder pelos pastores (grifo meu):

“Eis o supremo poder de que convém sejam investidos os pastores da Igreja, por qualquer nome, afinal, por que sejam chamados, isto é, que a tudo ousem confiantemente pela Palavra de Deus; obriguem todo poder, glória, sabedoria, exaltação do mundo, a sujeitar-se e a obedecer-lhe à majestade; sustidos em seu poder, imperem sobre todos, desde o mais alto até o mais baixo; edifiquem a mansão de Cristo, desmantelem a de Satanás; apascentem as ovelhas, desbaratem os lobos; ensinem e exortem os dóceis; acusem, increpem, submetam os revéis e os contumazes; liguem e desliguem; enfim, se de mister se faz, relampejem e despeçam raios; tudo, porém, na Palavra de Deus.” 1

Nos anos que se seguiriam à publicação d’As Institutas, já entronizado como máximo líder religioso de Genebra, Calvino colocaria em prática, para o bem e para o mal, a sua concepção de poder 2.

Teocracia sim, e com todas as letras

Sob a liderança de Calvino, o ensino se torna obrigatório, cria-se a Academia (“universidade”, em 1559) e reorganiza-se o sistema jurídico, fazendo prevalecer o direito romano, em substituição ao direito baseado nos costumes. Crítico acerbo da autoridade monárquica, Calvino também estimulou a implantação do regime sinodal, mais próximo daquilo que hoje identificamos como um princípio democrático. Calvino também lutou o quanto pode, e com sucesso, para suprimir práticas espúrias como o culto a relíquias como o prepúcio de Cristo.

Mas a herança deixada por Calvino não foi apenas de avanços nas áreas sociais e jurídicas. Na verdade, em nada a marca de Calvino se expressou de maneira tão contundente quanto na disciplina que impôs à cidade, configurando uma autêntica teocracia, sem que se cometa qualquer abuso no emprego do termo. O importantíssimo historiador cristão Paul Johnson, autor ligeiramente mais confiável do que este blogueiro flamenguista, assim se refere ao calvinismo no seu clássico “A História do Cristianismo”:

“By the mid sixteenth century, therefore, there were three varieties of state religion in the West: papal Catholicism, state Christianity (Lutheranism), and Calvinist theocracy.”

Os autos do Conselho, os escritos de Calvino e de seus colaboradores, os testemunhos de viajantes da época oferecem prolíficas evidências históricas da tirania que imperava na cidade. Os exemplos são legião: jogos, festividades populares, apresentações teatrais e a dança foram sumariamente proibidas, assim como o uso de jóias e de luvas decorativas. Moças com menos de 15 anos não podiam usar vestidos de seda e, após essa idade, não podiam usar vestidos de veludo. Foi proibida a impressão de livros sem prévia autorização. Estabeleceu-se a vigilância estrita das artes em todas as suas modalidades. Nem a gastronomia fugiu ao ímpeto proibitivo, com uma série de vetos, como para as massas e os patês. Compreensivelmente, relatos de viajantes que passaram na cidade durante aqueles anos diziam que os habitantes pareciam enlutados.3 O cerceamento a manifestações de júbilo irreverente e a noção de que a alegria e a beleza só existem em Deus passaram a integrar a mente calvinista: séculos mais tarde, por ocasião da construção do magnífico Rijksmuseum em Amsterdam, calvinistas protestaram contra uma arquitetura que seria demasiadamente ornamentada…

Advertências, prisões, torturas, exílios forçados e execuções eram recursos comumente usados pelo Conselho para assegurar a obediência às leis religiosas. Os mais comezinhos aspectos das vidas das pessoas eram vigiados. Nos domingos de manhã, acólitos de Calvino batiam de porta em porta para se certificarem de que ninguém estaria dormindo enquanto Maître Calvin estivesse pregando, e o cidadão que não fosse visto no sermão dominical era convocado pelo Consistório. Inspeções nas residências das pessoas eram comuns, vistoriando-se com especial cuidado os livros das estantes, para verificar se não havia obras com o selo de censura do Consistório. E os exemplos registrados nos autos do Conselho se amontoam: a jovem, apanhada praticando patinação no gelo, que é convocada ao Conselho e punida com advertência e penitência; um homem que é preso por ter recusado a dar a seu filho o nome de Abraão; um outro foi visto cantando de maneira exuberante pelas ruas, sendo por isso expulso da cidade. As punições mais severas eram pelas críticas à doutrina ou ao regime de Calvino: um homem que atacou a teoria da Predestinação foi chicoteado por toda a cidade até ficar em carne viva e, a seguir, foi expulso; outro insultou Calvino e teve a língua perfurada com ferro quente e, depois, foi expulso; por ter insultado Calvino, o Libertino Jacques Gruet foi torturado e decapitado em 26 de Julho de 1547.

Serveto não foi o único a ser queimado na Genebra de Calvino. A queima de bruxas era aprovada por Calvino, como o próprio escreveu: “O Senhor nos prova de uma maneira surpreendente. Acabamos de descobrir uma conspiração de homens e de mulheres que, durante três anos, se empenharam em propagar a peste por meio de sortilégios cuja natureza eu ignoro. Quinze mulheres já foram queimadas e os homens foram castigados de modo ainda mais rigoroso. Vinte e cinco desses criminosos ainda estão trancafiados nas prisões (…) Até aqui Deus tem preservado nossa casa.”

Assim, e isso precisa ser enfatizado, o martírio de Serveto não foi a única barbaridade ocorrida na Genebra liderada por Calvino. Não se trata, em absoluto, de “uma mancha na história da distinta carreira de Calvino em Genebra”, como afirma o Rev. Augustus, como se fosse um ato isolado. E Jacques Gruet, também é só uma mancha “lavô-tá-novo”? E todos cujos nomes submergiram na história? A execução de Serveto foi apenas a mais emblemática e famosa de uma longa lista de atrocidades perpetradas pelo calvinismo.

É, portanto, absolutamente improcedente a alegação do Rev. Augustus de que Genebra não era uma teocracia sob a liderança de Calvino (“É de admirar que, apesar dos testemunhos em contrário, prevaleceu na opinião pública a idéia de que Genebra era uma teocracia e Calvino era seu papa!”). Ocorre justamente o contrário: há caudalosas evidências históricas do caráter teocrático do regime implantado por Calvino em Genebra.

Refúgio sim, mas para quem?

Liderada por Calvino, caudatária da fama de uma cidade de exemplar piedade reformada, Genebra se tornou um pólo maiúsculo da Reforma na Europa, atraindo refugiados de todo o continente. Na década de 1550, a população passa de 13000 a mais de 21000 habitantes. Assim, procede a informação do texto do Rev. Augustus, de que Genebra era “o espelho e modelo de verdadeira devoção, um abrigo para os refugiados perseguidos por sua fé”.

Contudo, isso não pode, de modo algum, ser tomado como evidência de tolerância religiosa da cidade, como sustenta o Rev. Augustus. A tolerância da Genebra de Calvino poderia ser afirmada se os refugiados que ali adentraram tivessem sido católicos em sua esmagadora maioria, e não protestantes. E não foi este, absolutamente, o caso: desde 1535 (antes da chegada de Calvino, diga-se em seu favor), as missas foram proibidas. Sob ordem direta de Calvino, houve um recrudescimento na destruição de imagens e esculturas de santos. Qualquer apoio declarado à autoridade papal era severamente punido. A intolerância de Calvino contra católicos é patente também na sua teologia, como quando se refere à missa n’As Institutas, no seu característico estilo pré-malafaiático:

“(…) para que todos compreendam que a missa, [mesmo] tomada em sua pureza mais refinada, e com que se pode maximamente apregoar, sem seus apêndices, desde a raiz até o ápice borbulha de todo gênero de impiedade, de blasfêmia, de idolatria, de sacrilégio.” 4

Eis o próprio Calvino demonstrando sua intransigência insolente contra um dos principais ritos do catolicismo, a missa – onde estão o respeito e a tolerância religiosa do teólogo Calvino?

Acerca dos judeus, Calvino também se refere de maneira desrespeitosa, também n’As Institutas (grifo meu):

E através de quem Deus nos preservou a doutrina da salvação compreendida na lei e nos profetas, para que, a seu tempo, Cristo se houvesse de manifestar? Através dos mais infensos inimigos do próprio Cristo, os judeus, a quem, por isso, Agostinho merecidamente chama de os bibliotecários da Igreja Cristã, pois que nos subministraram leitura de que ‘eles’ próprios se não servem.5

Eis Calvino reproduzindo e perpetuando uma das mais boçais injúrias anti-semitas propagadas pela Cristandade. O anti-semitismo cristão, nutrido ao longo da história por líderes como Lutero (um anti-semita virulento) arraigou-se profundamente  na mentalidade europeia, eclodindo séculos mais tarde no ódio genocida.

Os judeus foram expulsos de Genebra em 28 de dezembro de 1490 (antes de Calvino, sublinhe-se) e a presença judaica foi ali proibida durante séculos: apenas em 1852 os judeus passaram a ser oficialmente aceitos na cidade. Calvino, portanto, não abriu a cidade a refugiados judeus.

Por isso tudo, que fique claríssimo: Genebra foi um mesmo “um abrigo para os refugiados perseguidos por sua fé” – mas só era segura para reformados dispostos a seguir a lei calvinista; para todos os outros, por aplicação espartana dos princípios de Calvino, Genebra foi o covil da mais fanática intolerância religiosa.

Qual o mérito dos protestantes de Genebra em ser socorro para dissidentes protestantes, mas não para perseguidos católicos?

De certa forma, não era contra esse tipo de favoritismo sectário a que Jesus se referia quando disse “Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mateus 5: 46-47).

Além de Genebra: sobre a intolerância religiosa de Calvinistas & Puritanos

Um dos pontos mais vulneráveis do texto do Rev. Augustus é a sua reivindicação em favor da tolerância religiosa não apenas de Genebra, mas também de outras cidades e países de forte presença protestante:

“Até mesmo os judeus foram convidados pelas cidades-estados reformadas para se abrigarem nelas, fugindo da Inquisição. O puritano Oliver Cromwell, líder do Parlamento inglês por um período, mais tarde tornou a Inglaterra um abrigo seguro para os dissidentes religiosos, e especialmente para os judeus. O mesmo ocorreu nos Países Baixos (atual Holanda).”

Os exemplos citados pelo Rev. Augustus estão longe de serem exemplos de tolerância religiosa. Se é fato que o líder puritano Oliver Cromwell reintegrou judeus na Inglaterra (mais por razões comerciais do que humanísticas), Cromwell também liderou o New Model Army, que deixou um rastro indelével de destruição na história britânica, com seus soldados fanatizados que entoavam salmos antes das batalhas. Os ataques de Cromwell às cidades de Drogheda e de Wexford figuram entre os pontos mais dramáticos da história da Irlanda, sendo tristemente lembrados pelo assassínio de populações civis, pela tortura e morte de padres e pelo incêndio de igrejas católicas com fiéis no interior. As relações entre ingleses e irlandeses são até hoje contaminadas pela memória de Cromwell e de seu hidrofóbico anti-catolicismo. Cromwell está para a tolerância religiosa como Stálin para a liberdade política.

A hoje liberalíssima Holanda também carrega na sua história a marca da intransigência calvinista. Na Alteração de 1578, protestantes calvinistas assumem o poder e passam a controlar o país. Templos católicos foram inapelavelmente convertidos em protestantes – foi o caso, por exemplo, da Nieuwe Kerk e da Oude Kerk, duas das mais belas igrejas de Amsterdam. Os cultos católicos foram cerceados, levando fiéis a se reunirem nas hidden churches. Uma delas, magnífica, pode ser visitada em Amsterdam: Ons’ Lieve Heer op Solder (Our Lord in the Attics).

Anos antes de assumirem o poder político, calvinistas holandeses já manifestavam seu ódio anti-católico. No episódio que passou à história como a “Fúria Iconoclasta” de 1566, igrejas católicas foram tomadas e suas esculturas e pinturas destruídas. O pintor Dirk van Delen retratou o episódio em um quadro hoje exposto no Rijksmuseum, o mais importante museu holandês:

A intolerância calvinista não se limitou apenas à Holanda ou à Inglaterra de Cromwell, nem se dirigiu apenas contra católicos, mas até mesmo contra outros protestantes: ao viajar pelo sul da Alemanha em 1580, Montaigne descreveu como calvinistas devastaram templos luteranos. Além de católicos e luteranos, o ódio calvinista também se abateria sobre os anabatistas, talvez o grupo religioso mais perseguido daquele século (tiveram a infelicidade de serem caçados tanto por protestantes quanto por católicos). A modalidade preferida para executar anabatistas era o afogamento, já que eram defensores do batismo por imersão, ao contrário de calvinistas, católicos e luteranos, que batizam por aspersão.

Assim, evocar calvinistas e puritanos como ínclitos exemplos de tolerância religiosa é atropelar desavergonhadamente a constatação histórica de que, quando detiveram o poder político, calvinistas e puritanos emularam os católicos, perpetrando, eles também, intolerância religiosa, especialmente contra católicos e anabatistas.

Serveto: julgamento e morte

Foi na Genebra implacável com opositores do calvinismo que foi parar Miguel Serveto, médico espanhol que negava o dogma da Trindade. Após ter fugido da Inquisição Católica Francesa (sua efígie havia sido queimada em Vienne, na França) e de ter mantido uma relação epistolar com Calvino, Serveto vai a Genebra em 1543. Permanecem obscuros e alvo de especulação os motivos pelos quais Serveto decidiu ir a Genebra, mesmo sabendo do perigo de morte que corria por ir à cidade de Calvino, com quem suas ideias se chocavam frontalmente. Já o desfecho da história é bem conhecido: sob instigação direta de Calvino, Serveto é queimado vivo em 27 de outubro de 1543, por heresia contra a Trindade.

Embora deixe bem claro que não justifica a ação de Calvino (“Preciso dizer desde o início que minha intenção não é justificar a participação de Calvino no incidente. Não posso concordar com a pena de morte como castigo para a heresia, muito menos se o método de execução é queimar vivo o faltoso.”), o texto do Rev. Augustus tenta, de diversas formas, minimizar a implicação de Calvino na morte de Serveto (“Não podemos justificar Calvino por pedir a pena de morte para Serveto, mas podemos entender os motivos que o levaram a isto”), elencando uma série de argumentos. [Impossível não observar que o Rev. Augustus se refere ao martírio de Serveto como “incidente”. Isso mesmo: “incidente”. Um homem é queimado vivo por heresia e isso é referido como um “incidente”. A semântica também é uma trincheira.]

Segue abaixo uma réplica individualizada aos principais argumentos do Rev. Augustus, deixando de lado o primeiro deles (“A pena de morte por heresia era prática geral da Idade Média”), por ululante que o lamentável martírio não ocorreu na Idade Média, mas em 1553, já no século XVI.

  • “(Calvino) não foi o promotor do processo eclesiástico contra Serveto”.

Calvino era o líder religioso da cidade e detinha enorme influência político-administrativa. Tanto que, tão logo viu Serveto, recém-chegado à cidade e assentado como ouvinte do seu sermão dominical na Catedral, Calvino imediatamente ordenou a prisão de Serveto, que foi preso logo após o serviço religioso. Foi Calvino quem ordenou a prisão de Serveto (“me auctore”, no excelente latim do reformador). Quanto ao processo em si, o Rev. Augustus está certo: Calvino não foi o seu promotor, mas por razões bem diferentes daquelas por ele evocadas.

A lei de Genebra estabelecia que o acusador deveria permanecer na prisão junto com o acusado até que a culpa dele fosse realmente provada. Calvino, é claro, não iria passar uma temporada na prisão, né? Então, ele determinou que seu secretário, Nicolas de La Fontaine, fosse o acusador, portando as 38 acusações do processo, redigidas por Calvino, de seu próprio punho.

E assim começou o processo, sem Calvino. Sem a presença física do líder, Serveto rebateu ponto por ponto as acusações que lhe haviam sido feitas. O Conselho caminhava para uma pena que não a capital (provavelmente o banimento). Diante de uma pena que não era a que desejava, Calvino irrompe no Conselho no dia 17 de agosto de 1543 e solicita ao tribunal a autorização para participar no interrogatório, afim de “melhor demonstrar ao réu os seus erros”. O pedido de Calvino foi evidentemente aceito, sendo La Fontaine imediatamente solto, mas não Serveto. Calvino conseguiu o que queria: participar no processo como interrogador, intimidar os juízes e impedir que Serveto saísse com vida de Genebra. No momento em que Calvino se imiscui abertamente no processo, a causa pela vida de Serveto é inapelavelmente perdida.

Assim, Rev. Augustus, estamos de acordo: não foi Calvino quem abriu o processo contra Serveto – mas não o foi por covardia e vileza; a partir de sua entrada de Calvino no Conselho em 17 de agosto de 1543, Calvino passou a ser, na prática, o promotor do processo que redundaria na morte do espanhol.

  • “A execução de Serveto foi aprovada por todas as demais cidades-estados reformadas e por todos os reformadores. Lutero e Zwinglio já haviam morrido, mas certamente haveriam concordado. O próprio Lutero havia consentido na execução de camponeses revoltosos.6 Os demais, Bullinger, Beza, Bucer, etc., todos deram apoio irrestrito a Calvino.”

Os opositores de Calvino conseguiram que, antes da condenação final de Serveto, os outros Sínodos reformados da Suíça se pronunciassem acerca do caso, dando uma última esperança para que Serveto fosse salvo (como havia ocorrido, a contragosto de Calvino, no caso de Bolsec). Ardiloso, Calvino escreve aos sínodos de Zurich, Bâle, Berna e Schaffhouse, a fim de influenciar o julgamento. Nenhum dos sínodos deixou de reconhecer a gravidade da heresia doutrinária de Serveto. Embora todos entendessem que Serveto deveria ser punido com severidade, nenhum requis a pena de morte. Zurich escreveu: “No que concerne o castigo a infligir a este homem, nós nos remetemos à Sua Sabedoria”. A resposta de Berna foi ainda mais enfática, ao rogarem a Deus que desse aos habitantes de Genebra “o espírito de força e da sabedoria, afim de que sirvam à Igreja e ao próximo, de modo a se livrarem dessa peste [a heresia] ; contudo, sem que façais [dirige-se a Calvino] nada que possa parecer inconveniente a um magistrado cristão”.

Onde está o pedido para que se queimasse Serveto?

Além da pena capital não ter sido recomendada por nenhum dos outros sínodos suíços, ela não foi, de maneira alguma, aprovada de maneira unânime por líderes protestantes. Melanchthon, é verdade, escreveu a Calvino, após o extermínio: “O Estado te agradece e agradecer-te-á ainda mais no futuro. Agistes bem ao condenar à morte este blasfemador”. De Bèze (“Beza”, no texto do Rev. Augustus), também deu apoio irrestrito à condenação. Dotado de uma palavra tão virulenta quanto a de Calvino, De Bèze proclama “Libertas conscientiæ diabolicum dogma” (a liberdade de consciência é uma doutrina diabólica) e escreve: “Melhor um tirano, até bem cruel, do que cada um tenha licença para fazer sua fantasia… Imaginar que não se deva punir os heréticos é como se disséssemos que não devemos punir os assassinos de pai e mãe, visto que os heréticos são infinitamente piores”. Da pesada essa tchurminha do Calvino, né?7

Fora, porém, do círculo genevois, não houve aprovação entusiasmada ao martírio de Serveto. Baudouin (1520-1573), importante jurista da época, reprovou Calvino: “Eu estimo que Calvino não tinha o direito de introduzir um processo criminal por uma questão de religião”. O chanceler da cidade de Berna, Zurkinden (1506-1588), escreveu a Calvino: “Eu lhe confesso livremente que eu também estou entre os que gostariam de restringir o máximo possível o uso do gládio na repressão aos adversários da fé, mesmo daqueles cujo erro é voluntário. (…) eu preferiria que as autoridades fossem culpadas por um excesso de doçura e indulgência do que por usar o gládio… Eu preferiria verter o meu sangue a ser molhado pelo sangue de um homem que, absolutamente, não tenha merecido o suplício.” 

E, sobretudo, como mostra de maneira sublime o livro de Sweig, o martírio de Serveto desencadeou a reação de Sébastien de Castellion, francês que desafiou o juízo calvinista, ao escrever o Tratado dos heréticos e Contra libellum Calvini, textos que apontam a hediondez que foi o julgamento e a condenação de Serveto.

  • “Calvino suplicou ao Conselho que executasse Serveto de uma maneira mais humanitária do que o ritual tradicional de queima de hereges. Mas, claro, o Conselho municipal recusou o argumento de Calvino.”

Definitivamente, a defesa do calvinismo já teve dias melhores… Onde é que vamos parar se, para sustentar uma suposta consciência humanitária de Calvino se diz que ele se esforçou para mudar o modo de execução? Se esta é a defesa que resta a ser feita, já que é historicamente inegável que Calvino tenha requerido (“me auctore”) nada menos que a pena capital para Serveto, é mister dizer que não há qualquer registro nos processos verbais do Conselho de uma tentativa por parte de Calvino de comutar a pena da fogueira por outra menos horrível.

Ao contrário, foi apenas no hediondo caminho até onde seria queimado que foi proposta a Serveto a comutação da pena por uma decapitação (nada como o beneplácito do bálsamo calvinista a lhe cortar o pescoço, né?) –  mas se, e somente se, Serveto negasse sua doutrina (coisa que Serveto se recusou a fazer). Coube a Farel o execrável papel de açular Serveto no trajeto até o local do martírio, perguntando em alta voz se ele estava pronto a abjurar sua doutrina que negava a existência da Trindade, para, assim, receber a clemência de uma morte menos bárbara. Serveto não cede e Farel grita à multidão: “Vede a força que Satanás tem quando se apodera de alguém! Este homem é muito sábio e acreditava estar certo. Mas agora ele está sob o poder do diabo e isto pode acontecer a qualquer um de vós!” Eis a misericórdia calvinista para com um cristão que morreu clamando “Oh Deus, guarde a minha alma, oh Jesus, filho do Deus Eterno, tenha piedade de mim”.

  • “Farel visitou Calvino durante a execução. Calvino estava tão transtornado, como foi mais tarde comunicado, que Farel partiu sem mesmo dizer adeus.”

Ao contrário dessa assertiva que tenta revelar um Calvino comovido e sensível, a ausência de Calvino – ele ficou em seu gabinete de trabalho naquela manhã de 27 de outubro de 1553 – no momento do martírio de Serveto ressalta ainda mais seu caráter covarde: instigador e participativo durante o processo, Calvino não assiste ao tormento de Serveto, resultado direto de sua instigação furibunda. Como escreve Zweig: “Foi apenas no domingo seguinte que ele [Calvino] sobe ao púlpito para celebrar, diante da comunidade silenciosa, a necessidade, a equidade e a grandeza de um ato que ele não teve coragem de olhar face a face.”

A tese de um Calvino “comovido” pela execução de Serveto é também inapelavelmente negada pelo o que o próprio Calvino viria a escrever posteriormente. Após o sacrifício de Serveto, Calvino escreve uma apologia intitulada “Déclaration pour maintenir la vraie foi que tiennent tous les chrétiens de la Trinité des personnes en un seul Dieu. Contre les erreurs détestables de l’Espagnol Michel Servet”. Nela, Calvino assume sua decisão de condenar Serveto, afirmando que não é possível dar “a cada um a liberdade para dizer o que pensa”. Ou: “Assim como um homem comum seria culpado se ele não tomasse o gládio quando sua casa é tomada pelo culto aos ídolos, ou quando um dos seus se indispõe contra Deus, ainda mais um príncipe se ele fechasse os olhos diante das violações da religião.” E mais: “Não rendemos a Deus a honra que Lhe devemos se não preferirmos Seu serviço a todo olhar humano, se não poupamos nem parentesco, nem sangue, nem a vida que seja, se não deixamos de lado toda a humanidade quando é questão de combater pela Sua Glória”. A lei e a prática da doutrina colocadas acima do humano – todas as tiranias assassinas remontam a isso.

E, para não entrar em contradição consigo mesmo, Calvino recorre a um ardil que mostra o quão desonestamente ele poderia agir. É Castellion quem aponta, em seu “Contra libellum Calvini”, que Calvino retirou da segunda edição das suas Institutas a seguinte profissão de fé, que figura na primeira edição: “é criminoso matar os hereges; fazê-los perecer pelo ferro e pelo fogo é renegar todo princípio de humanidade”; “perseguir pelo ferro e pelo fogo os rejeitados pela Igreja e lhes negar os direitos de humanidade não é agir de maneira cristã”.

Se, por um lado, Calvino tratou de justificar o abominável ato, mantendo a posição de que hereges merecem a morte, por outro, ele tratou de silenciar as vozes que se dispuseram a criticar a execução. Uma mulher declarou que Serveto foi um “mártir de Jesus”, um homem declarou que “Serveto era um homem de bem e os magistrados que o determinaram sua morte o fizeram para saciar o apetite de um homem”: ambos foram lançados à prisão. Notáveis sábios estrangeiros que moravam em Genebra decidiram deixar a cidade, por medo da repressão.

E, como a história a seguir o demonstrou, o afã persecutório de Calvino não se encerrou no caso de Serveto. Após Castellion ter levantado sua voz contra a intolerância religiosa, acusando Calvino da morte de Serveto, o líder reformado novamente coloca seu aparato político-religioso para silenciar uma voz dissonante. Não fosse o fato de estar refugiado em Bâle e a morte prematura por causas naturais, Castellion poderia ter sido igualmente morto pelo fanatismo calvinista.

Enfim: o coração de Calvino manteve-se duro e, nos anos seguintes, ele só fez demonstrar que achou legítima a condenação de Serveto e de todos os que contradissessem sua doutrina e sua autoridade.

  • “Porém, o Conselho municipal da cidade, conduzido pela facção dos Libertinos, totalmente contrários a Calvino, estava determinado a mostrar que Genebra era uma cidade reformada e comprometida com os credos.”

Aqui o malabarismo histórico atinge seu paroxismo. O revisionismo que tenta minimizar o papel de Calvino e inculpar os Libertinos pela execução de Serveto parte da negação da própria essência do que foram os Libertinos. Os Libertinos eram um grupo que tinham uma percepção pra lá de libertina (!!!) do que seria a “comunhão dos santos”. Para eles, a “comunhão dos santos” abrangia relações sexuais livres, que, segundo eles, poderiam acontecer fora dos laços matrimoniais: enfim, defendiam o adultério em todas as suas formas, a fornicação, as orgias, a suruba, o troca-troca, as… (melhor parar por aqui). É claro, isso se chocava frontalmente com os ensinos de Calvino e do próprio cristianismo (na medida em que pregavam que adultério não é pecado). Por isso, com todo o respeito, é hilário o argumento de que a facção dos Libertinos estava determinada “a mostrar que Genebra era uma cidade reformada e comprometida com os credos”. É como defender que o partido republicano de Nixon estava profundamente engajado com a implantação do comunismo.

Além do mais, a única real oposição enfrentada por Calvino foi no primeiro período em que esteve na cidade (1536-1538), quando, juntamente com Farel, foi expulso da cidade na primeira tentativa de impor seu rígido código moral. No segundo período em que esteve na cidade (de 1541 até sua morte, em 1564), Calvino foi um líder soberano. Como assinala Paul Johnson em A História do Cristianismo, Calvino anulou a facção dos Libertinos, recorrendo, inclusive, à pena capital, como no caso do Libertino Jacques Gruet. Os Libertinos não tiveram a mais ínfima participação no julgamento e na condenação de Serveto (nem mesmo para tentar livrá-lo, diga-se).

A liderança de Calvino era tão soberana que ele não teve dificuldade alguma em fazer seu sucessor. Foi De Bèze, um mais destacados seguidores de Calvino, quem o sucedeu – se os Libertinos fossem assim tão fortes como supõe o texto do Rev. Augustus, De Bèze seria provavelmente a última pessoa a liderar a Genebra pós-Calvino.

Genebra teria que esperar muito para ver um “Libertino” ter ali alguma influência: mais precisamente, teria que esperar por Jean-Jacques Rousseau, cerca de 200 anos depois da morte de Calvino.

  • “Penning escreve que, no fim da vida de Calvino, ao ser visto nas ruas da cidade, os moradores diziam: “Lá vai o nosso mestre Calvino”.

Ora, não sejamos modestos no panegírico encomiástico a Calvino… Não foi apenas no final da vida que Calvino era chamado de Mestre por onde passava, mas durante todo o tempo em que esteve em Genebra. Que satisfação no coração deveria ter Calvino ao receber tão espontânea demonstração de afeto dos habitantes de Genebra!… Especialmente quando se lê nos registros do Conselho que ao menos um cidadão foi condenado à prisão por chamar Calvino de “Monsieur”, e não “Maître”Por isso, vale a máxima: em uma sociedade em que a crítica é censurada e punida, deve-se sempre desconfiar dos elogios. Se não houvesse paredón, poderíamos levar a sério os elogios que Castro ouve em Cuba…

Afinal, um dos ensinamentos universais acerca das relações entre ditadores e a sociedade é que, qualquer que tenha sido o tempo e o lugar em que tenha imperado o regime de exceção, sempre há parcelas da sociedade dispostas a defender e a justificar o tirano diante de toda e qualquer acusação, evocando realizações positivas em áreas sociais como réplica aos crimes da ditadura. Como se o avanço social fosse uma autorização moral para se caçar dissidentes… Assim como hoje assistimos a empedernidos castristas ágeis em rebaterem acusações de execuções de dissidentes com argumentos da eficiência dos sistemas de saúde e de educação cubanos, o texto do Rev. Augustus escorrega nessa lúgubre evocação das benfeitorias de Calvino.

  • “O que muitos ignoram é que Calvino era um pastor atencioso, que visitava pacientes terminais de doenças contagiosas no hospital que ele mesmo havia estabelecido, embora fosse advertido dos perigos de contágio.”

Entre 1542 e 1545, Genebra foi assolada por uma terrível epidemia de peste. Liderados por Calvino, os pastores da cidade tiveram um comportamento nada menos que covarde e desumano, abandonando os doentes à própria sorte logo após as primeiras vítimas terem sucumbido – não despiciendo notar que tal atitude chocava-se frontalmente com a própria prescrição do Consistório, que determinava que todo doente clamasse por um pastor no máximo três dias após ter adoecido. Diante do clamor popular, o Conselho de Genebra suplica ao Consistório que ao menos um pastor fosse designado para confortar as vítimas da epidemia. O único que se dispõe a fazê-lo é Castellion, então diretor do Colégio. Contudo, por não ser pastor, a missão não pode lhe ser confiada. A dureza de Calvino ainda se mostraria no lamentável episódio narrado por Sweig: “Melhor ainda, em 05 de janeiro de 1543, Genebra assiste perplexa a essa cena surpreendente: todos os pastores da cidade, capitaneados por Calvino, comparecem à assembleia do Conselho para confessarem publicamente que nenhum deles tem “perseverança” para ir ao hospital dos pestilentos, ainda que eles saibam que seria seu dever servir a Deus e à sua santa Igreja, tanto nos bons quanto nos maus dias.”

A peste revelaria ainda mais o quão obtuso era o caráter de Calvino. Em um subterfúgio para tentar acalmar a população em um dos momentos mais agudos da epidemia, o Conselho da cidade captura uns miseráveis e, sob as mais atrozes torturas, os faz confessarem que eram eles os responsáveis por terem trazido a peste à cidade: eles teriam contaminado os batentes das portas das casas com um unguento feito com o excremento do diabo. Os infelizes foram executados. Calvino, longe de refutar tal procedimento e de rechaçar o obscurantismo supersticioso, o subscreve: do púlpito diz que os “semeadores da peste” tiveram o tratamento merecido.

O episódio de 1543 mostra que Calvino podia até ser um pastor atencioso, mas desde que as vítimas não fossem pestilentas…

Os nomes cujas memórias merecem ser honradas

Em seu arrazoado, o Rev. Augustus afirma mui corretamente que “episódios do passado devem ser entendidos à luz dos conceitos e valores da época em que ocorreram.” Ele está certo. Não podemos reprovar Pedro Álvares Cabral por não ter criado a FUNAI ao chegar ao Brasil. Não podemos recriminar Cabral por não ter tido “consciência ecológica” e por ter dado início à devastação da Mata Atlântica – mas dizer que ele tenha sido um líder ecologista é incorrer na mentira. A concepção tirânica do poder político de Calvino era similar à de outros líderes da época – isso deve ser considerado no nosso julgamento, mas é mentiroso dizer que Calvino tenha sido um exemplar líder humanista, respeitoso das liberdades individuais e da tolerância religiosa.

Calvino cometeu erros que certamente foram também cometidos por líderes não protestantes; tiranias religiosas não são, nem nunca foram, exclusividade calvinista. Contudo, observemos: o manto “era a noção prevalente na época” é um argumento que pode ser usado para absolver as práticas criminosas mais infames da história de humanidade.

Na verdade, é porque existiram aqueles que, no seu próprio tempo, combateram os erros do seu século, é que estamos moralmente impedidos de sermos lenientes com tais crimes.

Esta minha condenação a Calvino, fácil e óbvia, vinda do século XXI, nunca terá o impacto e a força moral daquela que veio do seu próprio tempo, vinda de homens como Castellion, Baudouin e Zurkinden. Nossas referências éticas não devem ser os homens e mulheres que incorreram nos mesmos erros do seu tempo, mas sim aqueles que, com coragem e extraordinária lucidez de consciência, desafiaram o status quo prevalente e os erros de sua própria geração, fazendo avançar o humanismo. Por isso, na França dos anos 1940, nossa referência não é Klaus Barbie, mas Jean Moulin, assim como honramos o nome do teólogo Dietrich Bonhoeffer e não do Pastor Ludwig Müller. E, na Europa do século XVI, nossa referência deve ser Castellion e não Calvino. A homens como Schindler, Moulin, Bonhoeffer e Castellion devemos honra – não a Calvino e congêneres.

Assim, retomo as palavras que foram escritas contra Calvino em seu próprio século para replicar a afirmação (“Estes são alguns fatos que devemos lembrar antes de chamarmos Calvino de “assassino”) feita pelo Rev. Augustus  após sua “contextualização” da participação de Calvino na execução de Serveto. Repercutindo a imortal acusação de Castellion a Calvino, “matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem”, e para sempre aturdido que alguém informado e em sã consciência se atribua o epíteto de “calvinista”, não tenho pudor algum em chamar Calvino daquilo que ele foi: um facínora despótico, um assassino travestido de teólogo.

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Hoje é 27 de outubro de 2012: há exatos 459 anos, Servet era assassinado pela fúria de Calvino e seus asseclas.
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Pode não parecer, mas este texto me consumiu um considerável tempo de leituras e de redação. Deu muito trabalho. Podem xingar o texto, contestá-lo, elogiá-lo, discuti-lo, discordar e tripudiar dele, mas, por favor, respeitem a autoria. Plágio é crime e, se você copiar este texto sem citar a autoria lelequiana, tio Calvino vai sair lá do inferno e puxará seu pé à noite.
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  1. Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, 1989. São Paulo. Volume IV, Cap VIII, item 9, página 140.
  2. Essa concepção de poder ainda se faz presente nas diversas denominações evangélicas e protestantes de inspiração calvinista, como as explícitas tentativas de impor a toda a sociedade um código moral que diz respeito a apenas um grupo religioso – o texto do André Egg é importante nessa discussão.
  3. As estritas regras comportamentais (por exemplo, em relação à sexualidade) pregadas por denominações protestantes e evangélicas de inspiração calvinista estão profundamente ancoradas no puritanismo e nos estritos códigos morais e comportamentais de Calvino – uma experiência inesquecível para qualquer jovem que tenha sido educado e que tenha vivido sob tais códigos (convido à leitura de mais um texto do André).
  4. Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, 1989. São Paulo. Volume IV, Cap XVIII, item 18, página 416.
  5. Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, 1989. São Paulo. Volume I, Cap VIII, item 10, página 104.
  6. O texto do Rev. Augustus não remete à distinção feita por Lutero entre hæreticis e seditiosis, entre os que manifestavam divergências de opinião com a Igreja Reformada e os sediciosos, que, além da ordem religiosa, desejavam também mudar a ordem social. Acerca dos primeiros, Lutero não recomendava a punição capital, como é claro na sua declaração: “Os hereges não podem ser reprimidos nem impedidos por nenhuma força exterior. Por causa disso, é necessário agir e combatê-los por outros meios que não o gládio: tem-se que proceder pela Palavra de Deus. A heresia é uma questão espiritual, que não pode ser extirpada por nenhum fogo, nem por nenhuma água da Terra”. Em relação aos sediciosos, Lutero era menos clemente, como ficou demonstrado nas revoltas camponesas alemãs, em que conclamou soldados para que reprimissem os revoltosos: “matem-nos como cães raivosos!”, a frase que entrou para a história e que desencadeou a morte de milhares de camponeses pobres.
  7. A propósito, ainda hoje vemos ferrenhas defesas da pena capital entre calvinistas (para um exemplo tupiniquim, eis um texto do Prof. Solano Portela).

Referências bibliográficas (As citações extraídas das referências em inglês e em francês foram traduzidas por mim; peço desculpas de antemão por eventuais imprecisões nas traduções.)

  • Barnavi, Elie & Rowley, Anthony. Tuez-les tous! : La guerre de religion à travers l’histoire VIIe-XXIe siècle. Éditions Perrin, Paris, 2006.
  • Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, São Paulo, 1989.
  • Christin, Olivier. L’Europe déchirée. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 54-57.
  • Cornette, Joël. La greffe française. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 58-63
  • Cottret, Bernard. Les secrets de Calvin. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 45-51.
  • de Oliveira, André Tadeu. Nazismo e religião – entre a aliança e o conflito. Editora Reflexão, São Paulo, 2011.
  • Engammare, Max. Genève, la cité des saints. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 52-53.
  • Fath, Sébastien. Tout autour du monde. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 64-67.
  • Johnson, Paul. A History of Christianity. Atheneum Books, New York, 1979.
  • Haught, James. Perseguições Religiosas – Uma História do Fanatismo e Dos Crimes Religiosos. Ediouro, Rio de Janeiro, 2003.
  • Roegholt, Richter. A short history of Amsterdam. Bekking & Blitz Publishers b.v., Amersfoort, 2010.
  • Slive, Seymour. Dutch Painting 1600-1800. Yale University Press Pelican History of Art, 1995.
  • Sweig, Stefan. Conscience contre violence. Le Castor Astral, Paris, 2004.
  • Theis, Laurent. Le mal-aimé. In: L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pgs 42-44.

18 Comentários on “Dos que condenam à fogueira”

  1. #1 Manoel Galdino
    on Oct 28th, 2012 at 03:34

    Belíssimo texto. Muito bonito mesmo.

  2. #2 lelec
    on Oct 28th, 2012 at 06:20

    Puxa, Manoel, muitíssimo obrigado pelo comentário. Fico muito feliz mesmo.
    Abraço.

  3. #3 andreegg
    on Nov 11th, 2012 at 19:00

    Caramba!

    Vou demorar pra conseguir ler tudo com atenção, e digerir todo o teu texto. Assim que fizer volto para comentar com mais detalhe.

    Antes de tudo queria dizer é uma imensa alegria voltar a ler um texto seu. É triste um blog como esse ficar parado. Por outro lado, textos assim não tem como serem escritos toda semana.

    Agradeço também as citações a meus textos, mas para o bem da clareza e da precisão gostaria de deixar registrado que meu texto contra o Pr. Piragine não é sobre “tentativas de impor a toda a sociedade um código moral que diz respeito apenas a um grupo religioso”, mas precisamente ao fato de que tal código moral sequer é consenso dentro do grupo religioso. A própria prática de Piragine revela que tais códigos morais só subsistem pelo constante expurgo que os batistas (que são calvinistas) continuam praticando cotidianamente.

    Eu gostaria de voltar aqui depois de ler o texto direito e discutir um pouco as questões históricas sobre relação entre igreja e Estado, Religião e Política, e, principalmente, a questão da tolerância religiosa. O século XVI é um século bem complicado. E, sobretudo, é mesmo muito absurdo que se continue pensando nos reformadores protestantes como heróis de uma fé pura e perfeita. Eles eram homens do seu século, e não foram dos melhores.

    Um grande abraço, com saudades…

  4. #4 lelec
    on Nov 12th, 2012 at 08:37

    A alegria é toda minha pela oportunidade de dialogar com leitores e amigos como você.

    Muito obrigado pelo elogio ao blog. Não sei quando haverá texto novo, vamos ver… Aliás, seu blog também anda meio parado, né? Precisamos dele ativo, tente não deixar a peteca cair…

    Concordo que a referência ao Piragine não necessariamente diz respeito a todos os evangélicos, mas a um segmento importante deles. Evangélicos não são politicamente homogêneos: mesmo naquela eleição de 2010, houve muitos evangélicos que votaram em Dilma. Não foi a intenção dar a entender que todos os evangélicos pensam como o Piragine, embora o número de crentes e pastores ideologicamente similares seja impressionante e, provavelmente, majoritário no Brasil.

    A caixa de comentários é toda sua caso queira voltar a comentar sobre esse longuíiiiiiiiiiiiiissimo texto (é nisso que dá ficar mais de um ano sem escrever aqui: quando retomamos, há uma pulsão reprimida que luta contra a brevidade).

    Precisamos mesmo nos falar mais e não deixar todo esse tempo sem contato.

    Grande abraço, com saudades.

  5. #5 Kesley
    on Nov 17th, 2012 at 11:48

    Excelente texto! Ainda não pude ler todo, mas quis com muito prazer, deixar um comentário o mais rápido possível!
    Já participei da IPB e uma passagem bíblica que lá aprendi eh que Deus não leva em conta o período da ignorância! A ignorância religosa e histórica existente na maioria das igrejas evangélicas eh algo que só fazendo parte da mesma para se ter uma idéia do seu alto teor! O problema eh que quando os calvinistas citaram tal passagem bíblica, fica irrelevante dizer que foi de modo pernóstico, onde ali finalmente eu teria conhecido a verdade absoluta!
    Dentro da IPB percebi que tudo quanto a reforma havia criticado ao catolicismo romano estava conservado em suas práticas só que de forma diferente. Em outras palavras, se quiseres viver um mediavelismo ocidental light e contemporâneo, vá fazer parte de uma igreja evangélica e de preferência a IPB.

  6. #6 lelec
    on Nov 17th, 2012 at 17:02

    Caro Kesley,
    Muito obrigado pela leitura e pelo comentário.
    As frases seguintes já entraram para os anais do que de melhor já se disse na caixa de comentários deste blog:
    “A ignorância religosa e histórica existente na maioria das igrejas evangélicas é algo que só fazendo parte da mesma para se ter uma idéia do seu alto teor!”
    “Em outras palavras, se quiseres viver um mediavelismo ocidental light e contemporâneo, vá fazer parte de uma igreja evangélica e de preferência a IPB.”

    Abraço e volte sempre!

  7. #7 André
    on Nov 17th, 2012 at 19:18

    Lelec,

    agora que eu li o texto todo com atenção, e segui todos os links (inclusive li o texto do Augustus), faço questão de voltar aqui para dizer:

    não tenho uma vírgula a acrescentar. E agradeço teu trabalho em fazer toda a pesquisa e colocar os pingos nos ii.

    Sempre que eu estudo sobre as reformas do século XVI eu não consigo dissociar a questão doutrinária do caráter de revolução política que tiveram todos os movimentos. De modo que, sendo o mais radical dos reformadores, Calvino está para o século XVI como Robespierre para a Revolução Francesa ou como Lênin para o marxismo. Lutero seria algo como um girondino ou um menchevique, e os anabatistas seriam os anarquistas.

    A violência é parte intrínseca do negócio todo.

    O problema é que poucos hoje se dispõem a defender Stálin, mas muitos ainda são capazes de se orgulhar de serem calvinistas dedicados.

    Gosto muito da imagem que Paul Johnson tem das reformas: ele fala de dois pólos que constituíam a atividade religiosa durante o período medieval – as ortodoxias (mantidas pela força militar do Estado), e as heresias que tenderam sempre a se comportar como hordas revolucionárias milenaristas e sectárias. Os reformadores do século XVI tratam de se encaixar em algum dos dois pólos, conforme se faz a ocasião (os anabatistas estão mais próximos do segundo polo).

    O único caso de lucidez político religiosa, que Johnson chama de “terceira força” são os reformadores laicos do movimento conhecido à época como “novo ensino”. O principal expoente do movimento foi Erasmo.

    Triste dizer, mas o movimento por uma reforma laica e não violenta, que teve um certo alento nas primeiras décadas do século, quando Erasmo era um autor cujos livros em latim circulavam pela Europa às dezenas de milhares de cópias, foi derrotado pelas versões protestantes, dispostas a rachar a Cristandade em novas ortodoxias não menos violentas em seus domínios territoriais.

    Sobre esta polarização entre Erasmo e Lutero, é muito interessante um texto de Carlo Ginzburg, em seu livro “Mitos, emblemas e sinais”. O texto é sobre o conhecimento proibido no século XVI.

    Bom, mais uma vez, obrigado por trazer à tona esta questão, usando muitas referências que não temos em português. É impressionante como estas questões todas são de difícil acesso no Brasil, especialmente por que todos os livros que temos em português são de cunho confessional (o Paul Johson é uma honrosa exceção). Por exemplo, o Alister McGrath que é o autor do texto que o Nicodemus resumiu no texto que você critica – que é o principal estudo em português sobre o calvinismo, mas obviamente omite as partes podres da história toda.

    Abraço,

  8. #8 lelec
    on Nov 18th, 2012 at 12:38

    Salve, André,

    Muito obrigado pela leitura e pelo comentário. Muito obrigado pela reflexão que você trouxe, a qual enriquece muito a discussão.

    É realmente um grande prazer poder conversar com leitores da sua capacidade e conhecimento.

    Vou buscar o texto que você sugeriu de Ginzburg.

    A questão política (e a violência que daí advem) é mesmo inextrincável nesses movimentos todos. É incrível que poucos na igreja evangélica estejam dispostos a aceitar a dimensão política dos movimentos reformadores. Por isso, gostei do livro do André Tadeu (“Nazismo e religião – entre a aliança e o conflito”), no qual ele não deixa de lado esse importante aspecto histórico. Ele inclusive cita Tillich, quando fala da aliança de Lutero com os príncipes alemães por ocasião das revoltas camponesas: “A decisão de Lutero em face da revolta dos camponeses fez com que o luteranismo passasse a depender permanente e necessariamente do absolutismo e a repudiar as tendências revolucionárias democráticas”.

    Sua referência a Erasmo é realmente muito bem apontada, porque ele sim injetou no cristianismo uma boa dose de auto-crítica, humanismo e reflexão filosófica (não à toa, o programa europeu de intercâmbio de estudantes de diversos países foi nomeado “Erasmus”). Erasmo é, contudo, uma figura menosprezada por evangélicos e por segmentos protestantes, talvez porque não pretendeu o cisma com a Igraja Católica, mas preferia uma reforma sem ruptura.

    Outra coisa interessante evocada por você é a questão das bibliografias, das referências. Tenho a impressão que 99,99% dos seminários evangélicos/protestantes brasileiros empregam uma bibliografia basicamente apologética, sem qualquer metodologia histórica fiável. O ponto é particularmente trágico na arqueologia bíblica. O desconhecimento dos pastores e das lideranças da Igreja acerca da história de sua própria religião é algo absurdamente oceânico. Nesse contexto, é absolutamente natural que um cara como William Craig seja alçado por calvinistas brasileiros à condição de intelectual e filósofo de respeito.

    É triste, muito triste.

    Grande abraço e, uma vez mais, muitíssimo obrigado pela leitura e pelo comentário.

  9. #9 André
    on Nov 19th, 2012 at 01:45

    Em defesa do protestantismo brasileiro devo dizer que esse desconhecimento não é privilégio nosso.

    Os católicos não ficam melhor na fita em nenhum lugar do mundo, acho.

    E os protestantes norte-americanos e os sionistas israelenses chegaram a um grau muito mais elevado de autismo intelectual. Nos EUA eles financiam pesquisas para provar teses pré-concebidas e inaceitáveis, desde os célebres panfletos “The Fundamentals”, de onde vem o chamado fundamentalismo.

    Em Israel as universidades tem departamentos inteiros voltados para confirmar “cientificamente” a doutrina sionista. Sobre isso é muito legal o livro do Shlomo Sand que resenhei para a Gazeta do Povo. http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=1170997&tit=Politicas-da-historia-em-Israel

    Nos EUA a ala mais radical do Partido Republicano propõe o ensino do criacionismo nas escolas, que é uma coisa que acho que os Evangélicos brasileiros nem sonhariam em tentar. Li hoje uma análise no caderno fim-de-semana do Valor Econômico em que um analista demonstra que hoje a comunidade científica e universitária norte-americana vota toda com os Democratas por causa dessas patifarias.

    Mas o caso no Brasil vai além do problema de termos igrejas fechadas ao conhecimento e exclusivamente apologéticas. Até mesmo as Faculdades Teológicas são assim, e, principalmente, as editoras que se dedicam ao tema.

    Seria legal se os departamentos sérios de Estudos da Religião conseguissem alguma penetração no mercado editorial, pois há muita gente pesquisando religião a sério no Brasil. Coisa que infelizmente não chega ao grande público.

    Eu diria mais do que o André Tadeu sobre Lutero: em nenhum momento havia a menor possibilidade de existência de luteranismo não fosse pelos interesses dos príncipes em confrontar politicamente o imperador Carlos V. Lutero teria sido queimado em Worms não fosse e disposição do príncipe da Saxônia em escondê-lo no Wartuburg. Aquilo que a gente estuda como movimento teológico era puramente político. Só que simplesmente não existia política autônoma da religião no século XVI. Os caras estavam basicamente fazendo revoluções para decidir quem governava a igreja e, principalmente, quem ficava com os dízimos.

    Os únicos a defenderem o fim do dízimo eram os camponeses anabatistas revoltosos que Lutero defendeu que fossem silenciados.

    Por isso é tão interessante a Reforma na Suíça, que começou em Zurich com Zwinglio: os Conselhos Municipais votavam e decidiam pelas mudanças teológicas. Era basicamente uma votação política – por autonomia em relação a Roma. As questões teológicas eram mera desculpa. Era o que estava em jogo, e por isso eles se matavam em guerras de religião, que foram uma constante em todo o século.

    O nome do programa europeu: Erasmus, é um libelo ao primeiro grande intelectual europeísta. Pena que o público para o qual ele falava era uma reduzida elite que lia em latim. O apelo às massas citadinas em vernáculo logo se revelou muito eficaz, e grandes polemistas como Lutero e Calvino acabaram levando a melhor.

    E vê se não deixa o blog morrer não!

    Tem visto os textos do Carlos Orsi lá no Amálgama? Tem um recente, bem interessante sobre o “Teotokos”. Teve outro bem legal sobre o Evangelho da Mulher de Jesus. Este é outro cara que lê os livros em inglês e traz informação mais atualizada pra gente. Muito interessante.

    Grande abraço,

  10. #10 lelec
    on Nov 22nd, 2012 at 08:30

    Salve, salve,
    Muito obrigado novamente pelo comentário. Estou bem apertado e depois lhe respondo convenientemente. Obrigado pela compreensão.
    Abraço

  11. #11 Taciano Cassimiro
    on Nov 22nd, 2012 at 21:22

    Leia com atenção

  12. #12 lelec
    on Nov 23rd, 2012 at 06:05

    Pode deixar que vou ler com bastante atenção…

  13. #13 Zé Paulo
    on Dec 5th, 2012 at 21:53

    Texto eloquente e consistente!

    Sou calvinista, isto é, batizado na Igreja Presbiteriana. Sempre defendi entre os colegas que o assassinato de Servet foi um escândalo, assim como a reação de Lutero contra os camponeses na Guerra Camponesa uma prova inegável de nossas contradições.

    Não conheço pessoalmente o pastor Nicodemus, mas muitos conhecidos conhecem e o admiram profundamente como pessoa e como teólogo. Sua defesa de Calvino, infelizmente, flerta com a relativização do crime, o que é uma pena. A história existe não para ser dourada ou relativizada, mas para ser contada com base em documentos e não em crenças e preconceitos.

    Vou procurar o livro que você sugeriu.

    Uma coisa, Lelec, no entanto, eu discordo. Não sou cristão por causa de líderes, pastores, isso ou aquilo. Sou cristão porque acredito na moral cristã. Nos seus valores. Infelizmente, costumo transgredir alguns preceitos, mas procuro sempre resistir a algumas tentações.

    Calvino, Lutero, o Papa, não importa. Seus erros ou crimes não abalam a minha fé!
    Um abraço, Zé Paulo

  14. #14 lelec
    on Dec 8th, 2012 at 19:28

    Olá, Zé Paulo, muito obrigado. Estou na estrada, me desculpa pela demora para liberar o comentário. Assim que puder lhe respondo com calma, mas muitíssimo obrigado pela leitura e pelo comentário, caro Zé Paulo. Grande abraço.

  15. #15 JRubens
    on Apr 12th, 2013 at 18:09

    Olá,
    Achei muito ilustrativo seu texto, no que diz respeito aos fatos históricos envolvendo a assim chamada Reforma Protestante e seus protagonistas.
    Se você me permite a liberdade, considerando que não encontrei o seu nome neste Blog, e não obstante isso, gostaria de perguntar se você professa o cristianismo bíblico e, em caso positivo, qual seria, em síntese, seu norte doutrinário, integrando ou não alguma das existentes organizações religiosas.
    Grato.

  16. #16 lelec
    on Apr 13th, 2013 at 23:59

    Olá, JRubens,
    Muito obrigado pela leitura e pelo comentário.
    Para melhor responder à sua pergunta, poderia, por favor, precisar a que você se refere com o sintagma “cristianismo bíblico”?
    Muito obrigado.

  17. #17 JRubens
    on Apr 15th, 2013 at 17:03

    Boa tarde,
    O que eu quis dizer é se você crê na narrativa bíblica, ênfase (no caso) ao Novo Testamento, cujo personagem central é Jesus Cristo. Em outras palavras, se você tem a esperança de vida eterna, exatamente como proposta pelo Cristianismo Bíblico.
    Aproveitando sua generosidade, a citação que você fez de Castellion (referindo-se à supressão, por Calvino, de determinada passagem contida na primeira edição das Institutas), seria possível indicar a página de tal referência na obra Contra Libellum Calvini? Encontrei-a na web, mas somente em latim; todavia, não tenho familiaridade com essa língua.
    Grato.

  18. #18 lelec
    on Apr 23rd, 2013 at 00:25

    Caro JRubens,
    Em primeiro lugar, queira me desculpar pela enorme demora em liberar seu comentário. Tenho andado extremamente atribulado com questões pessoais, de modo que a gestão do blog acaba ficando prejudicada. Sinto muito por tê-lo feito esperar tanto. Não houve qualquer tipo de censura, apenas um acúmulo de compromissos que são prioritários em relação ao blog.
    Respondendo às suas perguntas… Não, não tenho “esperança da vida eterna”, ou, como escreveu Drummond: “O tempo é minha matéria,o tempo presente,os homens presentes,a vida presente.”
    Também não tenho familiaridade com o latim, infelizmente. Tudo o que sei da língua são algumas citações do Astérix. A informação sobre a supressão da passagem da primeira edição das Institutas foi extraída diretamente do livro de Sweig.
    Uma vez mais, queira me desculpar pela demora em liberar o seu comentário e em lhe responder. Vou tentar ser mais reativo na próxima vez.
    Abraço e muito obrigado.

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