Hoje, tudo parece ter sido uma profecia que se cumpriu.
Tanto tempo depois, após anos de derrotas e frustrações, é difícil um torcedor apaixonado olhar para o passado do Mengo e não ver simbolismos premonitórios em alguns lances cruciais de sua história.
É inevitável, por exemplo, rever a jogada que definiu o título nacional de 1987 e [...]
Posts under ‘Memórias’
VI. Dezessete anos essa noite: O amor apaziguado
Eu, balão
Não saberia dizer o porquê. Mas o fato é que o tomei tal qual o recebi das mãos do animador de torcida: sem pensar. Guardei-o durante todo o jogo e, depois, entrei no trem lotado que saiu do estádio e o trouxe para casa.
Ele ficou ali, no canto da sala. Quando a vassoura passava levantando [...]
Amar para lembrar, lembrar para amar
À Lelequinha
A declaração pode soar ousada e apressada, mas vale o risco: O Leitor é um filme que fica – e que vai ficar.
O longa vai permanecer como uma das obras que com mais propriedade e sutileza mergulhou nas águas pantanosas de um tema indigesto: a consciência alemã no pós-nazismo.
(Sempre em textos sobre cinema, tem-se [...]
Sanduba, guéc-guéc: Aleatoriedades aleatórias de uma existência aleatória.
O Playmobil do exército americano
As setas indicam o mistério: como é que as espadas ficavam coladas às cinturas dos bonecos?
Quando soube do vírus se disseminando, colhendo vozes em todos os cantos, eu pensei: ele ainda vai me pegar, meu dia vai chegar.
E chegou.
A adorável Sherazade me passou o meme que me convida a contar seis coisas [...]
Viagens e memória: o novo mundo
Alpes, inverno de 2009
Chegar até o banco, ali, no terraço da lanchonete. Encostar os esquis na parede. Esticar as pernas, soltar as alavancas que apertam as botas, tirar as luvas. Respirar profundamente. Pedir um vinho quente. Aspirar a fumacinha que sai do copo, sentir o calor entrar pelas narinas, com cheiro de canela [...]
Epílogo, ou o prefácio de vida
Eros e Psique, Antonio Canova, Museu do Louvre
… me dê seu telefone, a gente pode se encontrar, vamos combinar de sairmos, pode marcar o lugar, pode ser a Pastelândia na Praça Sete, pode ser onde você quiser, que bom que você veio, trouxe uma lembrancinha pra você, receba-a, queria lhe ver de novo, vamos almoçar [...]
Capítulo Sexto: Eu-me meu, mim!
Edward Hopper, Sunday (1926)
“Lembrei-me de ti, quando beijara teu rosto (…), devagar, devagar beijara, e quando chegara o momento de beijar teus olhos – lembrei-me de que então eu havia sentido o sal na minha boca, e que o sal de lágrimas nos teus olhos era o meu amor por ti. Mas, o que mais [...]
Capítulo Quinto: Cicatriz – naufrágio no cais
Les bateaux rouges (Monet)
“Mas Otacília mudou para séria a feição do rosto, não queria mais de minha vida só assim meiamente indagar. Os de todos lindos olhos dela estavam me assinalando o céu com essas nuvens.” (Guimarães Rosa, in Grande Sertão: Veredas)
“Assim tanto, de repente vindo, ela estremeceuzinha. Daí, abriu os olhos, aceitou minha ação, [...]
Capítulo Quatro: O crepúsculo do azul profundo
Manuela Vaz, 2004
“Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.
Em sonho lembrei-me
De um sonho passado
O de ter sonhado
Que estava sonhando. (…)”
(Manuel Bandeira: Tema e variações)
Meus olhos piscaram fortes, ainda entorpecidos pelo sono. Hesitando em me levantar, encolhido na cama, pensara na maneira estranha como o dia começara: com um sonho esquisito. Eu estava em um videoclipe dos Smashing [...]
Capítulo Três: O tempo do vento
As asas lépidas do vento invernal espalhavam uma claridade fresca pelo ar. E talvez tenha sido essa brisa que assoprou em mim o perfume do seu charme, vindo do banco, perto do jardim.
Meus pés vacilaram sobre o chão coberto de pedregulhos. A beleza discreta, a elegância dos gestos: um eflúvio que me seduziu.
Ela me falava [...]
